Entrevista

Entrevista: Regina Volpato

"É muito difícil ser mulher. Se for boa mãe,
escorrega como profissional. Se for boa
profissional, escorrega como mulher. E a
gente se cobra porque os outros nos cobram". 
Jornalista e apresentadora do “Casos de Família” (SBT) afirma que falta de auto-conhecimento gera brigas

Em 2008, a jornalista Regina Volpato reinava soberana nas tardes da televisão aberta. No comando do “Casos de Família”, Regina conseguiu fazer o que era impossível: apresentar um programa popular, sobre problemas familiares, com elegância, diálogo e (pasmem!) sem brigas.

No auge do programa, entrevistei Regina em seu camarim no SBT, numa quinta-feira de 2008. A entrevista foi a mais comentada do Jornal O Regional, no qual trabalhei por quatro anos. Do bate-papo, ficou um grande respeito e um grande incentivo para minha carreira. Veja:

Formada em jornalismo pela USP , sempre quis trabalhar com televisão?
Confesso que minha vida profissional começou meio capenga. Tive problemas com a minha mãe, que ficou doente. Deslanchei mesmo depois dos 30. E foi tudo muito rápido, as coisas foram acontecendo. Eu estava em um lugar e aparecia algo melhor. Mas nunca fui chamada, nunca fui convidada. Só fui convidada para fazer testes, para entrevistas.

E onde foi seu primeiro teste?
Meu primeiro trabalho foi como repórter da Fundação Roberto Marinho. Também tive que passar por um teste. Tudo foi teste. E acho que é a melhor maneira de se começar um trabalho, tanto para o empregador quanto para a gente. Porque quando passamos por um, queremos ganhar a vaga, então dá um gás maior para assumir o posto.

No Casos de Família, qual caso você destaca positivamente?
Foi em um programa que não tinha nada a ver com a história da moça, que se chama Gláucia. Ela veio falar sobre um problema da família, mas acabou comentando sobre sua história de vida. E foi uma vida muito difícil. Mesmo criada na rua, sem pai, mãe, escola, ela tinha valores tão sólidos sobre o que é moral, ética, o que é uma vida em família, que eu me perguntei: onde foi que ela aprendeu tudo isso?

E o que mais te chocou?
O que sempre me deixa muito assustada é a relação de filhos com os pais. Filhos que observam nos pais uma fonte de renda e nada mais. Pensam: “enquanto ele puder me dar as coisas, beleza. Depois quando não puder mais me dar, aí não serve mais para mim.” Fico triste.

Você teve algum feedback dos casos que apareceram?
Alguns poucos. Já fizemos um programa especial em que as pessoas falavam como o programa ajudou em seus casos. E sempre aparecem também parentes de outros convidados. Chegam e falam: “Sou parente daquela lá. Ela teve outro filho” (risos). Faço um programa em família, sobre família e para a família.

No geral, quais as dificuldades que as famílias geralmente têm?
Em todas as relações, às vezes, a gente não consegue entender o que está sentindo. E se a gente não consegue entender, como vai conversar sobre isso? Eu sei que estou mal humorada, irritada, mas não sei o motivo. Quando a gente não se conhece, a gente se estranha e acaba arranjando confusão em todos os lugares: na família, no trabalho.

E como buscar o auto-conhecimento?
Tem gente que consegue se encontrar procurando uma religião, tem gente que tem essa habilidade natural. Tem gente que se dedica à arte, teatro, pintura, música. Eu vejo que a pessoa que lida com a arte, seja na profissão ou hobby, se conhece mais.

E como você faz para se conhecer?
Faço terapia há 10 anos, porque não consegui de outra maneira me conhecer melhor.

Você tem uma filha de 10 anos. Como é a sua relação com ela?
Eu não me classifico como uma mãe boazinha. Procuro ser amiga, ser compreensiva, mas se tivesse que entrar em uma escala, acho que entraria na categoria das rígidas para mais.

O que você não a deixa fazer?
Má-criação não pode. Falta de respeito não pode. Falta de gratidão também não. Tem que levar os compromissos a sério. Tem que ter organização na vidinha dela. Eu ajudo, colaboro, mas depois eu cobro. E é o tempo todo.

O computador fica no quarto?
Não. A gente tem um escritório e todo mundo usa o computador. Sempre dividimos, pois acho que faz parte da vida em família você dividir. Porque senão: cada um no seu quarto, cada um com seu computador, em comum não vai ter nada, né? A gente divide o computador e todo mundo respeita os horários. Quando ela está fazendo as coisinhas dela, não fazemos barulho.

Você traz um pouco da criação da sua mãe para a criação da sua filha?
Trago. A minha mãe era super rígida, mas daquelas que não tinha liberdade de conversar, o que não acontece agora. É muito mais fácil ser mãe legal, deixar ela fazer o que quiser. Essa parte de ser educadora é muito chata. Me dói. Só não me dói muito porque sei que é necessário, para o bem dela. A minha função é daquela que educada, que dá limite.

E como mostrar limites?
A minha filha questiona, eu tento explicar, fazer com que ela entenda os meus motivos. Mas algumas vezes eu não consigo me explicar, ou ela não consegue entender, ou os dois, mas algumas situações é “não, porque não e ponto final”.

Você tem algum outro projeto atualmente?
Outro projeto para ganhar dinheiro, não. Mas estou começando a desenvolver um trabalho com a Secretaria de Saúde Municipal de São Paulo a respeito da prevenção de AIDS e tudo mais. Faço porque gosto, é gratificante poder oferecer minha experiência, oferecer meu trabalho em troca apenas de satisfação.

Qual o maior aprendizado que teve sobre o assunto AIDS?
Fiquei sabendo que na década de 80, existiam duas mulheres para cada 25 homens soro-positivo. Hoje já está quase 1 para 1. Se tem uma coisa democrática é a transmissão do vírus HIV. Também descobri que a cara de quem tinha AIDS na década de 80 era a do Cazuza, hoje não. Temos medicamentos e, como efeito, as pessoas acabam adquirindo acúmulo de gordura em partes do corpo muito esquisitas. Existem pessoas com barrigão e umas perninhas, tem gente que tem gordura no pescoço, no braço. Isso ninguém sabe, eu não sabia. E a gente precisa falar. Afinal todos nós temos amigos, família e a AIDS está aí, faz parte da nossa vida.

O que você faz quando chega em casa?
Eu entro no chuveiro, lavo o cabelo, tiro a maquiagem, absolutamente tudo. Gosto de ficar em casa. Gosto de cozinhar, o ambiente que me dá mais prazer é o da cozinha. No domingo, eu mesma faço o almoço, principalmente comida italiana, pois tenho origem italiana. Já fui dona de casa antes de ser jornalista, então sei fazer tudo.

Qual a mensagem que você deixa para as mulheres?
Acho que é muito difícil ser mulher. Se for boa mãe, escorrega como profissional. Se for boa profissional, escorrega como mulher. Se é boa mulher, escorrega como mãe. É uma corda bamba, desgastante, estressante. E a gente se cobra, porque os outros nos cobram. É um tremendo desafio, mas o mais importante é quando a gente percebe que a gente pode errar. Quando notamos que é impossível ser a mãe perfeita, a excelente profissional, a mulher maravilhosa...não dá. Portanto, a parte que não sai bem a gente deve olhar com outros olhos e procurar não se martirizar.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Érika Freire disse...

Você está arrasando, heim amigo? Saudades! Um beijo e muito mais sucesso!

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