Entrevista

Para sociólogo, acolhimento das igrejas cristãs é para gays discretos e contidos

Por Neto Lucon (Mix Brasil)

Cientista social, religioso e mestre em sociologia. Quando o assunto é “homossexualidade e religião”, o nome de Tiago Duque sempre me pareceu um dos mais indicados.

Na entrevista que realizamos em junho de 2009 para MixBrasil, Tiago falou sobre a forma como a Igreja observa a homossexualidade, o medo de aceitar as diferenças, o porquê de continuar fiel na Igreja Católica e o acolhimento tímido das instituições. “É uma aceitação manifestada por discursos como 'Ah! Ele é tão bom, ajuda na igreja, é filho de Deus, apesar de (ser gay)'.”

Homossexualidade e religião aparentam ser temas que caminham por estradas diferentes. Isso realmente acontece nas igrejas tradicionais? 
Existem várias formas e caminhos. A mais visível das igrejas cristãs é aquela que desqualifica, condena e desvaloriza a homossexualidade. Mas pense: já que existe esse forte discurso contrário é porque ela está muito junta. E muitos padres, que são silenciados pela instituição, são mais acolhedores na relação com os fiéis. Também existem outras igrejas que fazem o oposto: criam espaços específicos para a evangelização com homossexuais.

O que você pensa sobre essas igrejas para homossexuais? 
Elas respondem à necessidade daqueles que querem se converter. Não em relação à homossexualidade, mas se converterem ao discurso religioso.

Por que as igrejas cristãs têm tanto medo de aceitar a homossexualidade? 
Eles fazem a leitura de que a homossexualidade ameaça a família nuclear, aquela formada por mãe, pai e filho. Então reforçam o ideal do casamento e reivindicam o esforço nesses valores. Só que existem novas experiências de família, diferentes também da heterossexual (pais divorciados, mães solteiras...), que não substituem, mas colorem.

De qual maneira a religião ajuda na aceitação da homossexualidade?
Sinceramente, elas mais atrapalham do que ajudam. Aquelas que se dizem aceitar, muitas vezes aceitam o gay discreto, pasteurizado. É uma aceitação manifestada por discursos como “Ah! Ele é tão bom, ajuda na igreja, é filho de Deus, apesar de...”.

Você acha que se a religião passasse a encarar a homossexualidade como um comportamento natural o preconceito diminuiria? 
Não. O preconceito não está direcionado apenas em um fragmento, como a homossexualidade. Existem outros preconceitos e valores como a desvalorização da mulher, do feminino, do sexo sem procriação e a valorização da fidelidade que também faz parte desse todo. A aceitação teria que ser em conjunto para uma transformação estrutural.

Apesar do posicionamento da Igreja Católica você continua como católico. Qual o motivo? 
Faço uma separação. Uma coisa é a doutrina autoritária dominante de Roma, outra é o universo nas comunidades de base, das pessoas que encontro e que, de fato, vivenciam a proposta de Jesus. As transformações dependem mais dos leigos que dos padres. Se os leigos querem, a estrutura muda, pois eles fazem muito mais que os padres.

O que você pensa do discurso “Deus ama o pecador, mas odeia o pecado” quando direcionado aos gays? 
O que ele chama de pecado são os valores e a forma de ver o mundo que deveriam ser mudados. Só que, neste caso, não tem como separar o “pecado” do pecador, pois ele é parte integrante do indivíduo, ele é assim, ele é gay. Penso: se alguém não ama isso (homossexualidade) em mim, essa pessoa não gosta de mim.

Nas Paradas e em outros eventos destinado ao público homossexual é comum encontrar religiosos conservadores com o objetivo de conversão. Qual o discurso que você indicaria para que os jovens gays adotassem quando abordados? 
Eu não falaria nada. Quando somos abordados, já é iniciado um diálogo autoritário e hierárquico. E tudo que nós dissermos pode ser utilizado como munição pelo discurso do outro, que nos observa como leigos. Eu interromperia o diálogo com educação e continuaria o trajeto.

(19/6/2009)

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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