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Fissurados em vampiros, escritores brasileiros criam histórias repletas de sangue e personagens gays


Neto Lucon (revista Junior 22.)

Atraentes, misteriosos, imortais e sedentos por sangue. Os enigmáticos vampiros, retratados na literatura, séries, novelas e filmes, nunca caem no esquecimento. Nem poderiam. De tempos em tempos, estas fantásticas criaturas ressurgem das cinzas, viram febre e detém olhos e pescoços voltados à temática. Nos últimos anos veio através da saga Crepúsculo e na série True Blood, com vários personagens gays e cenas pra lá de quentes. O que muita gente não sabe, porém, é que o contato com a comunidade gay _ inclusive a brasileira _ é muito mais estreito do que possamos imaginar. Conheça os autores brasileiros que deixam qualquer Stephanie Meyer no chinelo.

UM VAMPIRO APAIXONADO POR ÁLVARES DE AZEVEDO

Com caninos grandes e afiados (de verdade!), o escritor Kizzy Ysatis é um dos ícones da literatura brasileira sobre vampiros. Pelo livro “Clube dos Imortais – a nova quimera dos vampiros”, publicado pela editora Novo Século, ele trouxe um relacionamento homoafetivo e venceu o prêmio Raquel de Queiroz, concedido pela União Brasileira dos Escritores. Detalhe: é o único livro brasileiro sobre vampiros premiado.

A obra, que levou cinco anos para ser produzida, inicia com um curioso e histórico caso envolvendo Álvares de Azevedo, o maior poeta ultra-romântico brasileiro. No século 19, em um baile de máscaras no Rio de Janeiro, o poeta se traveste de donzela e desperta sem querer a paixão desenfreada de um pierrô misterioso. Este, infeliz ao descobrir a real identidade da amada, vai embora com o coração em pedaços. Passados 150 anos, o pierrô ressuscita na forma de um vampiro _ Luar _ que, agora livre de preconceitos, parte em busca de sua alma gêmea do mesmo sexo. “Luar é lindo, mas independente de amar um homem, não tem um pingo de escrúpulo, é um vampiro cruel e poderoso”, descreve Kizzy.

O autor reúne ao todo sete publicações, quatro livros de contos e três romances, e acaba de lançar o livro “Tríade – qual segredo une o anjo, o templário e o vampiro?” (Terracota, 2010), em que assina ao lado de três escritores. Para 2011, Kizzy também prepara o “Leão Negro – a Busca pelo vampiro Luar”. “Tenho que dar um desfecho na história dessas duas almas (Álvares e Luar). No livro Diário da Sibila Rubra, revelei o paradeiro do poeta, mas agora tenho que definir se ele vai ou não ficar com o vampiro no final.”

UM VAMPIRO NA ORGIA DE JULIO CESAR

Autor de três romances com histórias de seres fantásticos, o escritor Eric Novello estreou na literatura abordando suas maiores paixões: vampiros e Roma antiga. Chamado “Dante – o guardião da morte”, publicado pela Novo Século, o livro conta a história de Ítalo Tarnapo, um general do exército de Julio Cesar que se torna vampiro.

Gay assumido, Eric não teve receio de colocar Dante, seu personagem machão, frente a uma orgia gay e um convite do líder romano. “O livro tem uma cena na qual Dante precisa falar com Julio Cesar e, sem querer, interrompe uma orgia. Cesar pergunta se ele não quer entrar para se divertir, mas ele dá o recado e vai embora.”

 Hoje, Eric participa da Outer Alliance, um grupo que reúne autores que queiram combater o preconceito e estimular a presença de personagens gays na literatura de fantasia e ficção-científica. Na lista podemos encontrar grandes nomes como Hal Duncan, Cheryl Morgan e Steve Berman, este último autor, editor e organizadores de várias coletâneas de contos gays com temática sobrenatural. “Foi graças ao grupo que decidi explorar melhor personagens e dilemas gays dentro das minhas histórias de fantasia”, afirma Eric.

A próxima obra terá como personagem principal um mago bissexual chamado Tiago Boanerges, que se apaixonará por um vampiro. “Será um vampiro parecido com os do filme Fome de Viver, com o David Bowie. Ainda não sei qual será o nome, só sei que dará bastante trabalho ao mago bi”, faz mistério.

UM VAMPIRO ESCRITOR E SUICIDA

Em Matadouro (Giostri), livro do professor de Letras Fabio Fabrício Fabretti, de 35 anos, o vampiro gay chama-se Kíron e aparece na forma de um escritor. Diferente das criaturas das trevas que se alimentam de sangue, Kíron suga da vida e das dores das pessoas as inspirações para suas obras. “Ele está em um momento delicado, perdido, em transição entre a vida e a morte”, descreve.

Segundo o autor, o personagem vive isolado, num Rio de Janeiro sombrio e chuvoso, questionando o que é suicídio e lamentando o amor não correspondido de um ex. “Kíron é um vampiro metafórico, energético, de sugar almas. Sua principal busca é pela obra perfeita, um amor verdadeiro e por si mesmo.”

Com lançamento previsto para o final de 2010, Matadouro não é o primeiro da carreira de Fabio, que carrega o currículo de cinco livros, três dedicados ao tema. O mais conhecido chama-se Território V (Terracota), em que um vampiro misantropo é apaixonado por cadáveres. “Há muitos atrativos em um vampiro. E um deles é justamente essa sexualidade livre. Não se prender aos compromissos e rótulos sociais. Isso faz dele alguém sensual, sedutor, cativante. Afinal, quem, lá no fundinho, não gostaria de ser _ mesmo que secretamente _ mordido por um?”, questiona.

Incluir a homossexualidade em seus textos, de acordo com o autor, é fruto do compromisso social e com a verdade. “Colocar isso na minha arte é real, sincero, humano e justo. Lembro que a Hilda Hilst (poetisa, escritora e dramaturga brasileira) me disse certa vez: Um escritor não pode escrever se tiver medo da sua verdade”, justifica.

UM VAMPIRO POPULAR E APAIXONADO

Foi com surpresa que a escritora Nazarethe Fonseca, de 37 anos, viu o vampiro gay, Bruce, fazer sucesso em seu blog. Nos posts inspirados na saga Alma e Sangue, escrito por ela em três livros, o descompromissado personagem rendeu inúmeros comentários e elogios. “É incrível como Bruce agradou sem fazer esforço algum. É um vampiro lúcido e cativante”, conta.

 De olho em sua popularidade, a escritora decidiu incluí-lo em “Kara e Kmam – Segredos de Alma e Sangue”, lançando inicialmente pela Tarja Editorial e, após duas edições esgotadas, relançado pela Aleph. O personagem, um vampiro sedutor, de cabelos cacheados, voz suave, que pratica esgrima e pintura, é confidente de Ariel Simon, o rei dos vampiros.

Na história, Bruce manteve, durante um século, um relacionamento amoroso com o lobisomem chamado Samael. Mas após descobrir-se apaixonado por Jan Kman, o favorito do rei, rompe o romance e até se declara ao novo pretendente. “Aliás, sua presença é decisiva nos principais eventos e, através deles, descobrimos o quanto ele é maravilhoso como vampiro.”

No próximo livro de Nazarethe, Pacto do Vampiros, com previsão de lançamento na primeira semana de novembro de 2010, Bruce aparece com um novo namorado, Martan. “Ambos desenvolvem um papel importante, defendendo a Kara e conquistando sua amizade.” Simpatizante à comunidade, Nazarethe acredita que a presença de gays no universo fantástico é extremamente importante, principalmente por esses seres não estarem ligados necessariamente aos gêneros. “O vampiro escolhe a face do amor, seja ele homem ou mulher, e isso quem decide é o desejo, a fome.”

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Ysatis, Kizzy disse...

Que maravilha, Lucon! beijos!

Anônimo disse...

Esse do Fabretti vai repercutir... isso é certo.

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