Realidade

A rotina das garotas de programa que fazem sexo no café da manhã


Ao acordar por volta das 7h da manhã, Camila*, de 30 anos, insere o último CD do grupo de rock Barão Vermelho em seu aparelho de som. Escova os dentes, toma banho de ducha e lava os cabelos curtos e ruivos com um xampu para fios tingidos. Logo depois, abre o guarda-roupa e escolhe qual peça vai vestir. Um tomara-que-caia com estampa de onça e uma minissaia preta são suas opções. Maquia-se, coloca lentes azuis e vai de carro para o trabalho, na rua Ferreira Penteado, próximo do Terminal Central, em Campinas. Com pele bronzeada, tatuagem de dragão nas costas e 1,54cm, Camila é uma profissional do sexo.

Para muitos, a descrição acima aparenta contradição ou, no mínimo, estranhamento, já que a imagem das garotas de programa, salvo algumas obras de ficção, é comumente associada à vida noturna, consumo de drogas e de boêmia. Porém, a rotina de Camila não é exceção entre as garotas de programa da cidade. É apenas mais uma das dezenas de mulheres que, sob a luz do dia, permanecem em frente de bares e botecos, sentadas em cadeiras de plástico ou em pé, aguardando possíveis programais sexuais, consumados dentro de pequenos e velhos hotéis de baixo custo. 


Quem passa pelas ruas Ferreira Penteado e Saldanha Marinho, a partir das 8h, já pode observar muitas delas com cabelos molhados, minissaias e vestidos, abordando ou sendo abordadas por homens de todas as idades. Muitos indo ou voltando do trabalho.

“Prefiro trabalhar de dia, porque o perfil dos clientes é totalmente diferente dos da noite. Eles não estão lá para farra, nem bêbados ou drogados”, explica Camila. Em uma conversa com quatro garotas de programa, que trabalham das 8h às 18h, desvendamos um pouco sobre a realidade do sexo sob a luz do dia, seus preços, clientes e histórias. “Somos vistas como vagabundas, mas levamos uma vida comum, como qualquer pessoa”, declara.

RESPONSABILIDADE DE MÃE


A garota de programa A.S, de 30 anos, mais conhecida como Baixinha, é mãe de três filhos de 14, 12 e 4 anos. Por atrás de seus grandes óculos de armação preta, esconde um olhar desconfiado: “Quero preservar meus filhos. Se fosse solteira, não me preocuparia, mas sou mãe, entende?”, justifica a garota de programa, que hesitou em tirar qualquer foto, mesmo sem aparecer o rosto.

Nascida em Minas Gerais, mudou-se para Franca e chegou em Campinas há 10 anos, por intermédio da irmã, que logo a apresentou ao mercado do sexo. “Em Franca, ganhava muito pouco como sapateira e passava muitas dificuldades. Fiquei sabendo que em Campinas minha vida poderia melhorar financeiramente e resolvi arriscar”. O risco trouxe muitas experiências e algumas situações desagradáveis, afinal, como diz Baixinha, “não é fácil deitar com qualquer tipo de homem”, principalmente sendo uma mulher tímida.

“Alguns clientes dizem que não aparento ser uma profissional do sexo, pelo fato de eu ser, assim, uma mulher simples e falar pouco. Prefiro os mais velhos, pois os novos são agressivos comigo”, aponta. Hoje, é casada com um ex-cliente e nem cogita que os filhos saibam de sua profissão. “Não penso nisso”, desconversa incomodada, dizendo que, em breve, vai parar com os programas sexuais e se dedicar unicamente à família.

Para ela, apesar de não se preocupar com possíveis comentários de vizinhos, trabalhar de dia é uma maneira de não ser descoberta. “Muita gente pensa que só existe trabalho de puta à noite. Minha preocupação não é com os vizinhos, mas com meus filhos”, frisa novamente. Quando volta do trabalho, por volta das 18h, faz faxina em toda casa, prepara a janta para o marido e cuida dos filhos, com quem conversa e brinca durante a noite.

Baixinha sonha, em um futuro próximo, abandonar as ruas e ser uma dona-de-casa.

DE DIA PARA DORMIR CEDO


“Tem gente que fala que nossa vida é fácil, pois o dinheiro vem fácil. Eu digo que o dinheiro vem rápido, mas não é fácil consegui-lo”. É o que afirma K.M., a Camila, cujo programa de cerca de 15 minutos custa 35 reais. Deles, cinco vai para o pagamento do hotel e o restante para o seu bolso.

Segundo ela, não existe agenciador, cafetão ou qualquer tipo de dependência de seu trabalho com os bares ou hotéis que frequenta durante o dia. Essa, contudo, é uma realidade de Camila, não de outras meninas de bares mais distantes, que evitaram falar com a reportagem por temerem represálias do dono do hotel em que atuam. “Isso pode nos prejudicar. Não podemos te ajudar, desculpa”, disse uma garota de cabelos encaracolados, que logo correu para dentro do bar.

Camila faz 12 programas diários, com homens entre 18 e 30 anos, e recebe por mês cerca de 3 mil e quinhentos reais. Ela trabalha todos os dias, salvo alguns feriados, e já conseguiu construir uma casa e comprar um carro. “Tenho muitos clientes fixos, que acabam me ajudando. Quando estava construindo minha casa, por exemplo, eles davam 80 e até 100 reais por um programa”, apontando a diferença dos clientes da noite que, segundo ela, pouco se importam com a vida particular da profissional. “Já aconteceu de não pagarem o programa durante o dia, mas é diferente”, desconversa.

Trabalhar sob o sol vem de uma vontade comum: ficar em casa a noite, jogar videogame e dormir mais cedo. “No dia 5 de março de 2005, resolvi vir para Campinas em busca de uma oportunidade maior. Escolhi trabalhar de dia, pois não gosto de dormir tarde”, diz espontaneamente ela, que já trabalhou na roça, estudou até o segundo colegial e fez um curso de vendas. “Entrei para a profissão do sexo depois que sofri um acidente de moto, enquanto fazia cobranças para uma empresa de remédios. Acabei saindo de lá e ficando sem dinheiro”.

Nas ruas, o preconceito é visível nas ações de muitos pedestres, que desviam, cortam caminho e, até, atravessam para o outro lado só para não terem contato com as mulheres de minissaia. “Temos uma vida comum, mas muita gente pensa que somos vagabundas. Existem até aquelas que mudam de calçada assim que nos vê, como se oferecêssemos algum risco. Mas esquecem que nossa consciência sobre as DSTs é muito maior do que a de muitas meninas de classe média alta, que saem com qualquer homem e não usam preservativos”, se defende.

Sem prover de discurso vitimizante, a garota de programa diz sentir-se feliz com seu trabalho e pretende encerrar a carreira apenas aos 40 anos, “quando tiver vários imóveis para viver de renda”. “Gosto do que faço, pois é através desse trabalho que consigo pagar meus impostos e realizar meus sonhos”.

A TRANQUILIDADE DOS CLIENTES


Quando abriu o jornal a procura de emprego, a campineira A.A., de 25 anos, chamada pelas colegas como Morena, logo se interessou pela seção “Acompanhantes” e por um anúncio que solicitava a inscrição de garotas para trabalhar em uma casa do Itatinga, bairro conhecido como um dos mais freqüentados por garotas de programa.

Após uma briga de família, Morena não hesitou e telefonou para o agenciador. Era algo estranho para quem, na adolescência, tinha a diversão de xingar garotas de programa em pontos de prostituição. “A vida dá voltas, não é verdade? Hoje, aparecem meninas que me xingam”, reflete ela. No Itatinga, trabalhou durante a noite e não gostou da experiência. Logo, sua mãe descobriu e foi buscá-la. “Fiquei só até a primeira semana, pois, além de minha mãe ter ido me buscar, eu não gostei dessa vida da noite. É muito agitada e perigosa”, argumenta.

Depois, engatou um romance com um presidiário, de quem tem o nome tatuado na panturrilha e, pela vontade de visitá-lo, voltou a trabalhar no mercado do sexo. Desta vez, somente durante o dia para que a mãe não desconfiasse. “Nem ele, nem minha mãe sabem dos programas. Pensam que eu sou babá”, revela aos risos. De longe, é uma das que chamam mais atenção da Ferreira Penteado, tanto pela altura, 1,78cm, quanto pelo corpo escultural.

Sua preferência, desde então, sempre foi os clientes diurnos. “Já trabalhei durante a noite, portanto sei que rola muito mais bagunça, mais drogas, bebedeira e é mais agitado. De manhã, é mais tranquilo e eu prefiro esse movimento formado por trabalhadores, estudantes e pessoas mais velhas”, explica. Mãe de uma criança, Morena deixa o filho com uma babá durante o dia e só o busca no final da tarde, quando termina o expediente. “Pretendo sair antes dele entrar na escola. Não é que eu tenha problemas com a profissão, mas não quero que ele sofra discriminação dos amigos ou dos pais dos amigos”. Ela quer, no futuro, completar os estudos com um supletivo e investir em um curso de enfermagem.

FLUXO DE PESSOAS SUPERA


Antes de ir ao trabalho, a morena de cabelos loiros e braços fortes conhecida como Carioca, de 31 anos, faz exercícios em uma famosa academia da cidade. Ela, que pretende perder cerca de 10 quilos, sempre é vista com vestidos roxos, amarelos ou pretos na Ferreira Penteado. “Me sinto mais sensual e feminina”, declara com sotaque carioca.

Há três anos, deixou de trabalhar a noite para investir no trabalho durante dia. Segundo ela, o fluxo de homens e, conseqüentemente, de programas são maiores neste período. “É um público rotativo. Tanto que nem posso dizer se é formado por jovens ou velhos, classe A ou D. Cada dia é diferente do outro, mas sempre com muitos programas”, diz ela, cuja carreira está para completar 10 anos. “Trabalhei uma vez em posto de gasolina, mas sempre fui profissional do sexo”, frisa.

Para Carioca, o único momento positivo de um programa é o do pagamento. Já da experiência entre as colegas, afirma ter ficado mais humilde. “Fico feliz pelo bem material que o trabalho me proporciona, mas não tem nada que eu fique, assim, tão alegre. Posso dizer que aprendi a ser mais humilde, pois, na rua, você aprende a ser advogada, enfermeira, psicóloga. Todo mundo, em algum momento, precisa de alguém”.

A garota passa 20 dias em Campinas e 10 no Rio de Janeiro, mesmo assim, afirma morar no Rio. “Existe muita rivalidade entre Rio e São Paulo, principalmente entre as profissionais do sexo. Volto para o Rio para ver minha filha de seis anos, que é cuidada por uma família evangélica, e depois volto”.

Quando chega em casa, depois do trabalho, Carioca prefere dormir ou assistir filmes. O último foi o Busca Implacável, que conta a história de um pai que lutou para descobrir o paradeiro da filha, vítima de um gigantesco esquema de tráfico de mulheres. “Assistir filmes é o meu lazer, assim como de muitos outros trabalhadores. Digo que, enquanto muitas estão indo para fazer rua, eu já estou dormindo na minha cama”.

A NOITE NÃO PARA


Logo depois das entrevistas, um homem, alto e de expressão fechada, abordou nossa reportagem e indagou sobre a presença e comunicação com as garotas de programa em frente dos bares. Explicamos sobre a matéria “Sexo sob a luz do dia” e, no mesmo momento, o homem colocou a mão no bolso, tirou um papel e me entregou, dizendo: “Apareça por aqui”. Era um bilhete de uma casa de shows, que anunciava banho erótico e massagem no palco, além da frase “o melhor programa pelo menor preço”.


*Reportagem escrita em 2010

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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