Livro Por um Lugar ao Sol

Tem uma travesti na fábrica (Parte 1)

Dentro do seu quarto de menina, cercado por fotos de amigos, ursinhos e produtos de beleza, a travesti Thayná Rodrigues, de 30 anos, se arruma para o trabalho. Em frente ao espelho, veste blusinha amarela e calça jeans. Tudo bem básico, nada de decotes profundos ou minissaias. Para realçar as formas do cabelo encaracolado, passa creme nos fios negros que chegam até os ombros. Aperta e solta com cuidado. Só termina a montagem com um leve batom nos lábios e um perfume nacional. No cotidiano, ao contrário do estereótipo da travesti, gosta de ter uma beleza natural.

Já são 20h. Momento de correr para o ponto de ônibus, em Jaguariúna. A viagem é longa e um pouco cansativa. Primeiro parte rumo a Campinas, depois segue para Indaiatuba. Olhando por detrás da janela empoeirada, pensa na vida, nas oportunidades e na rotina de tantas travestis que também trabalham a noite. Os faróis dos carros tocam a pele, mas não incomodam seus olhos. São eles que clareiam os caminhos, dão luz à noite e levam-na a uma fábrica de celulares, seu atual trabalho.

- Atuo na produção de celulares de uma empresa de Indaiatuba. Quando chego, vou direto ao banheiro feminino, visto um jaleco branco e uma touca. É o uniforme geral. No meu crachá, o nome Thayná está na frente, acompanhado de uma foto atual. O nome masculino fica só atrás, bem pequenininho. Para mim, tudo isso é uma grande conquista e um sinal de respeito dentro do meu serviço. Trabalho de segunda à sexta, das 10h da noite às 10h da manhã.

Pronta para trabalhar, cumprimenta todos os colegas do setor em que atua. Sua função é juntar a fronte e a dianteira do aparelho. Conecta e olha para ver se todos os componentes estão presentes e alinhados. Mesmo que isso pareça cansativo ou monótono, Thayná trabalha com dedicação e prazer. Além de adorar o ambiente de uma fábrica, gosta de observar o empenho dos colegas que, ao seu lado, se esforçam para chegar à meta de aparelhos estipulada pela diretoria.

- Adoro o que faço. Pode parecer inferior (diz referindo-se a trabalhar na produção de uma empresa). As pessoas têm aquela imagem de querer crescer, né? Mas gosto de trabalhar lá. Gosto de ver o produto sair, de ver todo mundo se esforçando para dar conta. Acho legal isso. É um imenso prazer.

(Trecho do livro Por um Lugar ao Sol - travestis e transexuais inseridas no mercado de trabalho)

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

6 comentários:

Gabriel Fernandes disse...

Sendo bem sincero e imaginando milhões de coisas, fiquei morrendo de vontade de continuar a leitura! Está de Parabéns novamente! Principalmente por abordar um tema tão pouco discutido abertamente...

Diego disse...

Adoreeeei :D
Thayna é um exemplo de que travesti pode sim conquistar seu espaço no mercado de trabalho. Sabemos que não é facil, mas ela é um exemplo de mulher guerreira que luta pela igualdade.

jefferpan disse...

Parabéns, Neto, adorei o projet e tem tudo pra dar certo e ser sucesso. Aquele abraço.

Taís disse...

Adorei a reportagem, isso vem mostrar que estamos chegando onde merecemos esta, incluídas na sociedade e garantindo nosso sustento através do trabalho. parabéns a esta empresa por ver travestis e transexuais como pessoas que somos.
Assinado Taís Sousa

AlianÇa com a alma disse...

Boa noite
Por acaso vi no facebook sua pagina e referindo-se a Tayna uma amiga que conheco a algum tempo
É bom ver o relato de alguem que trabalha e se esforça para obter seus objetivos
Adorei sua postagem parabens.

Anônimo disse...

Muito Legal a matéria, parabéns!!

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