Realidade

Beijo no asfalto (parte 1)

Uma esmola, uma promessa e um beijo a um morador de rua

Por Neto Lucon

- Você falou que ia me beijar...
- Você tá com cheiro de cachaça...
- Mas eu tomei banho...
- Mas bebeu. Tá com cheiro de cachaça...
- Não importa. Você falou que ia me beijar se eu tomasse banho...
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Em torno da Estação Santa Cecília, centenas de moradores de rua repousam sobre a noite fria do centro de São Paulo. Alguns em baixo do viaduto, outros ao lado da Igreja Santa Cecília, existem até aqueles que preferem as ruas mais escuras e pouco movimentadas. Cobrem-se com papelão, cobertor fino e, em alguns casos, aquecem-se somente com a cachaça mais barata, chamada apenas como Corote.
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Entre quem passa pela redondeza, os pedidos de esmola são frequentes. Pedem rápido e repetidamente, como um disco riscado: “O senhô tem uma moeda pra eu comprá um lanche?”, “Uma moeda pra eu comprá um lanche?”. “Ô, cê tem uma moeda?”. “Quero comprá um lanche, o senhô tem uma moeda?”. E raramente embalam outra frase, prontamente pensada e repetida: “Tenho 75 centavo e o pacote de bolacha custa 1 real. Cê tem 25 centavo pra interá?”.
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No supermercado ECON, aberto durante toda a madrugada, o espaço é aproveitado para que muitos moradores se juntem e peçam, além de dinheiro, produtos comestíveis e de limpeza pessoal. Durante o primeiro mês que morei no bairro – e visitei constantemente o mercado – dei quatro latas de óleo, dois pacotes de bolacha e um refrigerante. Aliás, foi em uma dessas idas de junho que um morador entrou em minha vida: Luciano.
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Sentado no canto da porta, o jovem era magro, moreno, com barba por fazer, e levava nas costas um cobertor azul de bolinhas e, nas mãos, uma sacola de pão (recheado com patê de peixe). Acompanhado do cheiro forte, ele me abordou:
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- Ei, senhô, me dá um gole de Coca?
- Ah...não dá...acabei de comprar. Não tenho outra... 
- Bebe aí, depois me dá um gole, pô.
- Ah, agora você quer decidir o destino da minha Coca?
- Hahahaha. É que você pode comprar outra, se quiser...
- Posso nada, estou passando perrengue aqui.
- Cê nem sabe o que é isso. Tá de boot, roupa de frio, correntinha, comprando Coca...
- Espera um pouco, então.
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As palavras de Luciano ecoavam calmas na madrugada silenciosa e, ao demonstrar certa sabedoria, despertaram indagações caducas. O que leva um jovem esperto a viver na rua pedindo esmola? A vida noturna e de pedinte vale a pena? Por que ele não procura um abrigo?  Um emprego? Sair dali? 
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Tão complexo quanto explicar o porquê de que “poucos têm muito e muitos têm pouco”, Luciano revelava nos olhos que gostava de estar na rua e de sua rotina. Não sabia o motivo, mas sentia-se feliz por ser livre, solto no mundo. Usufruía daquela tal liberdade que tantos buscam “um dia desses, quem sabe...”, mesmo sendo preso em vícios como o crack e a cachaça.
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MAIS:
Veja a segunda parte desta reportagem

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

... disse...

TA... agora posta a continuação PQ EU TO CURIOSA hahahhaahha.... posta posta postaaaaa

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Sim... o texto parece que terá uma continuidade... bom, evidentemente, eu beijaria. Não me sinto diferente dos moradores de rua nem diferente de ninguém, todos são humanos e humanas capazes de amor e de dor. E eu sei que sentem as mesmas coisas que eu, são meus próximos. Também moro nessa região,
duas quadras do supermercado Econ que fala. Me incomoda demais a situação política dos moradores de rua LGBT's, bem como dos usuários e usuárias de drogas LGBT's, já passou a hora de termos políticas públicas específicas para elas e elas, essa discussão demorou muito para fazer parte do Movimento LGBT e ainda não é bem vinda, há uma "elite" LGBT que busca a assimilação e aceitação, diferente de buscar respeito. São @s phynas, pensam que tudo controlam, infelizmente. Não enxergam um/uma moradora de rua como um igual, mas vêm como vidas que não valem nada, tragicamente.
Respondendo: claro que beijaria! Há moradores e moradoras de rua LGBT's lindos! Outro dia vi dois na rua das Palmeiras, dormindo juntinho, abraçadinhos e era algo que tinha amor, bem mais que mera procura de calor. Fiquei emocionado. Eu, que não sou morador de rua e sou uma mera e ridícula bicha metida a intelectual e pretensa militante, não tenho quem amar e nem quem me ame, inimigos apenas, esses eu tenho de monte. Sim, beijaria, por que não? ser miserável ou ser milionário não tem nada a ver com o desejo, com a libido ou com o caráter. Ainda bem!
Ricardo Rocha Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Ana Paula Moreira disse...

Cadê a segunda parte?? Agora fiquei curiosa!
Como sempre, um texto impecável e envolvente, características de quem ama escrever e conversar com as pessoas. Parabéns!! Agora publica a segunda parte!! rsss

Ivan disse...

Você tá zuando q vai dividir isso por capítulos né?? Manuel braga way of style? hahaha

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