Realidade

Beijo no asfalto (parte 2)

"Você usa drogas?". "A gente tem que ficar
acordado a noite, né?"

Uma esmola, uma promessa e um beijo a um morador de rua
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Por Neto Lucon
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"SOU UM FILHO DA RUA"

O paulistano Luciano Silva, de 27 anos, não gosta de falar sobre a família, da infância, principalmente quando escuta a palavra “mãe”. Desconcertado, ele procura mudar de assunto ou resumir a conversa com um alto e estrondoso “Sou um filho da ruaaaaaaaaa!!!”, que me deixava extremamente envergonhado. Uma estratégia para que eu mudasse de assunto, afinal “todo mundo vem com a conversa: como você veio parar aqui?”, com ares de piedade, que nada resolvem.
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Sentado e com a cabeça entre as pernas, ele lembrou sobre os últimos momentos dentro do antigo lar. A mãe acabava de descobrir que ele é homossexual e, para não ter problemas com o atual companheiro – ultraconservador e machista - o expulsou imediatamente de casa, acompanhado de xingamentos e com a roupa do corpo. Era melhor um filho morto, jogado na rua, do que um filho viado.
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- Gostaria de ver fotos suas de pequeno...
- Só tem na casa da minha mãe.
- E tem como pegar lá? 
- Você quer que eu arranje briga de novo?
- Não, não, claro que não. Você só ia pedir as fotos, de boa...
- Não tem conversa. Aquele bixo é ruim, é muito ruim...
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Desde então, já se passaram quatro anos. Luciano, agora, chama as calçadas de mãe, o crack e o álcool de seus amigos e o cobertor fino de forte abraço. Outra amiga é Bia, de 23 anos, que ao ostentar cabelos curtos e roupas masculinas é sempre confundida com um menino. É a única amiga em que ele confia. O restante é “só até o segundo tempo. Pois na rua, bobeou e é roubado”. Tanto que ele evitou que eu desse um chinelo ou que oferecesse um cobertor melhor. Lá, é morador de rua que rouba morador de rua. Basta dormir.
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Longe de Bia, Luciano estava acompanhado de um garoto de 12 anos, que havia fugido de casa e foi apelidado de “De menó”. Ele dormia sobre o colchão, enquanto Bia procurava por crack e negociava o preço da noite. A maioria das vezes trocava dinheiro por pedras, mas também oferecia produtos do supermercado. Sim, aqueles que eles pediam no ECON.  Os produtos são trocados diretamente por drogas ou vendidos a uma quitanda próxima, cujo proprietário pagava uma quantia ínfima e voltava a expô-los nas prateleiras. A maioria dos que estão ali – senão todos – tem algum tipo de vício. 
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- Você usa drogas?
- A gente tem que ficar acordado a noite, né?
- Por que? Você não dorme?
- Só de manhã. A vida de rua começa a noite. E pra ficar acordado, todo mundo fica noiado, vai na maloca comprar pedra.
- E onde fica essa maloca?
- Vem cá, eu te levo lá pra você conhecer.
- De jeito nenhum, eu não. Vai que você ou alguém me assalta lá?
- Se eu quisesse te roubar, já teria roubado, seu tonto.
- Mas você já assaltou? 
- Ah, vamô na maloca logo que você vai conhecer...
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Novamente minha presença chamou atenção
e, desta vez, eu tinha certeza que meu
tênis ficaria por lá
"MEU BOOT NA MALOCA"
Ao lado do banco Bradesco, em frente ao viaduto, um grupo de seis pessoas – três mulheres, dois homens e um menor de idade – conversavam e fumavam maconha.
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Luciano tirou do bolso uma blusa feminina, que certamente havia ganhado ou roubado de alguma loja, e apresentou para que as garotas comprassem. Durante o discurso, foi logo interrompido por um dos rapazes que, no maior estilo rapper americano, por conta da camiseta larga, tênis e correntes, empurrou o morador, jogou a blusa no chão e o esmurrou no braço. Luciano gritou e saiu cambaleando. 

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Vendo a cena, fiquei branco, nervoso, sem ar... Pensando que poderia a qualquer momento ser a próxima vítima. Afinal, perto deles, Luciano era pequeno, presa fácil e não me protegeria, como me prometeu. O restante do grupo, contudo, observava a agressão com deboche, como se não passasse de uma brincadeira para ver quem manda naquele pedaço.
 
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Luciano correu desajeitado e me chamou para atravessar a rua, até que o mesmo rapaz perguntou sobre mim.
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- Quem é o gordinho?
- É meu primo –  respondeu ele, entregando-se na própria mentira.
- E esse boot? – perguntou o rapaz apontando para meu tênis.
- Ele não é usuário – respondeu novamente Luciano. 
- Ei, esse boot é firmeza. Tira ele pra eu ver.
- Já disse que ele não é usuário.
- Você fica quieto. E essa corrente? É prata?
- Não, comprei no camelô aqui de manhã. – finalmente falei algo, imediatamente indo atrás do morador.
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Enquanto caminhava de costas, o menor de idade pegou um cone e atirou em minha direção. Foi Luciano quem viu, me puxou e me livrou do golpe. A turma gargalhou, mas eu não achei a menor graça. Nem Luciano, que me mandou correr o máximo que podia e perguntou se eu estava com medo. (Precisava perguntar?).
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Já estava quase aliviado quando chegamos à maloca, bem abaixo do viaduto. De longe, Luciano perguntou sobre Bia, mas ninguém sabia onde ela estava. Estavam reunidos, próximos de uma luz que saía do chão, talvez de um isqueiro ou de uma fogueira improvisada.  Enrolados nos cobertores, pareciam homens das cavernas.

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Usavam, compravam e pechinchavam o valor do crack. Todos noiados, rangendo os dentes, ou olhando para o nada. Novamente minha presença chamou atenção e eu estava certo de que, desta vez, meu “boot” ficaria mesmo por lá.

MAIS:.
Leia a terceira parte desta reportagem

Leia a primeira parte desta reportagem


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Iris disse...

Estou adorando a repostagem, Neto!!!
E a curiosidade de saber o resto? E o beijo? Como faz? hahahahahahhaa

Parabéns pelo blog :)

Saudades! Beijos!

Iris disse...

[ eu quis escrever REPORTAGEM ali em cima hahahaha sem querer, te acusei de plágio ou sei lá o quê... SORRY! hahahahaha era REPORTAGEM!! ]

Angelo disse...

Parabéns pelo trabalho, pela coragem e pela dedicação a sua profissão.

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