Realidade

Beijo no asfalto (parte 3)

Luciano não era um homem feio. Era a falta de
higiene que me incomodava
Uma esmola, uma promessa e um beijo a um morador de rua
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Por Neto Lucon

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Pura precipitação. Como Luciano havia garantido, ninguém fez nada comigo, nem levou nada de mim – a não ser que eu quisesse trocar por pedra, o que não era o caso. Fomos abordados por diversas vezes, muitas delas agressivamente, com apertões fortes no braço e pedras de crack no rosto. Mas aos poucos fui deixado de lado. 

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Notei que existe certo "respeito" com quem não é usuário e posso garantir que ninguém ofereceu nem "um pouquinho" ou "um teco" para eu experimentar. Simplesmente paravam de insistir e me deixaram voltar para casa. Ah! Com meu tênis...
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A PROMESSA
Luciano definitivamente não é um homem feio. Mas a magreza, os ombros saltados e a barba comprida fazem-no certamente uma pessoa menos atraente. O que piora quando entramos no campo do asseio: quase nulo. Pés, unhas, roupa, cabelo, todos sujos, pretos e fedorentos. Mas o rosto, o olhar e o sorriso – mesmo quebrado e com pasta de sujeira acumulada – eram bonitos. Pelo menos aos meus olhos.
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O cheiro forte de pinga, sujeira e suor eram o que de fato me incomodava. Bom...pelo menos não cheirava urina como alguns outros. Mas, mesmo assim, incomodava. Tanto que conversava sempre com a cabeça virada e muitas vezes respirava pela boca: Será que ele não toma banho todos os dias? 
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- De quanto em quanto tempo você toma banho?
- De 15 em 15 dias. 
- E você não sente esse cheiro? Como fica a cueca?
- Cueca? Eu não uso cueca. – gargalhou.
- E como você faz para namorar e tal?
- Eu não namoro. Quem vai querer morador de rua?
- Mas não tem gay entre os moradores?
- Tê até tem. Mas não vou sair com bunda e pica de rua.
- Por que não?
- Pra quê? Pra pegar doença?
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A resposta convenceu. Afinal, no lugar onde ninguém se preocupava com a higiene, certamente não iam se preocupar com camisinha ou prevenção. Por outro lado, a retórica trouxe uma reflexão: Apesar de ter saído de casa por ser homossexual, ele não tinha relacionamento com outro homem. E aparentava não sentir falta. Talvez pela falta de vaidade e perspectiva. 
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- Por que você não toma banho todos os dias?
- Tem horário pra tomar banho lá no abrigo. E é de manhã. Como eu fico a noite inteira acordado, durante o dia eu durmo e acordo bem tarde.
- E por que você não fica no abrigo?
- Foi isso que eu te disse. Lá tem horário pra tudo. E eu não gosto de dormir cedo, acordar cedo. Gosto de ser livre, viver assim do jeito que tá...
- Mas vale à pena?
- Não sei... Prefiro.
- Eu gostaria que você tomasse banho.
- Se eu acordar, amanhã eu tomo.
- Bom...Te dou um beijo, se você tomar banho todos os dias.
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Os olhos de Luciano arregalaram com a proposta. Ele sorriu como se fosse uma brincadeira, mas tratou logo de perguntar se era sério, MESMO. No momento, não tive outra saída senão concordar. Mesmo que eu não cumprisse, ele estaria fazendo bem para si mesmo, preocupando-se com a própria saúde e eu não ficaria com a consciência pesada. No fundo, estava certo de que nada mudaria.
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MAIS:Leia a quarta parte desta reportagem
Leia a segunda parte da reportagem

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

... disse...

ta agora vc escreve o final pra gente nao morrer NEH?!

Lah Domiciano dos Santos disse...

Netooo a matériaaa ta maraaa...to adorandoooo, mas quero saber o fim!

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