Realidade

Beijo no asfalto (parte 4)

Ele lembrou do primeiro encontro e ofereceu
o primeiro gole.
 Uma esmola, uma promessa e um beijo a um morador de rua
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Por Neto Lucon


 Apesar de Luciano sempre falar sobre Bia, ainda não a conhecia pessoalmente e sentia certo receio deste momento. Isso porque ao mesmo tempo em que ele dizia que ela era companheira, valente e determinada, também deixou escapar que era briguenta, nervosa e, o pior, que roubava.

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No quarto dia, Luciano preparou um banquinho improvisado com um colchão. Estava conversando com ele, quando um garoto rangendo os dentes e  olhos alucinados chegou. Tentei me levantar, mas o colchão afundou com minhas mãos... Sem nem mesmo suspeitar, descobri: o menino era Bia. Cabelos curtos, roupa larga e expressão fechada.
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O motivo para tamanha aparência masculina existe: ajudava a não ser molestada por outros rapazes e moradores.
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Bia nem me cumprimentou e foi logo perguntando se Luciano havia conseguido dinheiro para comprar pedra. Com a resposta negativa, ela pediu comida. Luciano arremessou um saco de pão amassado e duro, mas ela não viu. Pouco tempo depois, perguntou novamente se Luciano estava com comida.
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- Amapô, eu acabei de dar um saco de pão na sua mão.
- Não deu não. Onde tá?
- Tá aí, ó – mostrou – Você tá noiada!
- Por que não falou antes que tinha pão? Eu tô com fome – se alterando.
- Eu te dei o saco, amapô.
- Não deu, não.
- Dei, Bia. Você tá noiada...
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Beatriz tem 20 anos e, apesar de nunca ter sido expulsa de casa, prefere viver nas ruas. Viciada em crack, ela sustenta o vício com as esmolas que recebe ou com os objetos que rouba. No Santa Cecília, está no Paraíso: tudo é praticamente liberado, pois a segurança faz vistas grossas. Vez ou outra, os familiares levam-na de volta para casa, mas Bia não fica mais de uma semana longe da maloca.
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Ela sentou no mesmo colchão em que “De Menó” estava dormindo. Revistou o garoto e notou que dentro de sua calça havia um bolo de dinheiro. Sem pensar duas vezes, roubou o menor com a mesma pressa que alguém com sede pegaria um copo de água.
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Para completar, zombou dele, que chupava o dedo: “Tira esse dedo da boca e vai chupar pica. Tira, vai lá chupar pica. Quem sabe você traz dinheiro pra gente?”. Ela separou o dinheiro e enfiou no bolso. Luciano parecia envergonhado pela cena, mas balançava a cabeça como se dissesse “aqui é assim, mesmo”.
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Por toda madrugada, para cada pessoa que saía do supermercado, eles pediam dinheiro. E usavam a ultrapassada (porém eficaz) história de comprar lanche ou um pacote de bolacha. Bia e Luciano, todavia, ficavam bravos quando alguém não respondia nada.
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Não precisavam dar dinheiro, mas eles esperavam pelo menos por um “agora não tenho nada” ou “estou só com o dinheiro do metrô”. Quando o pedido era respondido com silêncio, Bia era a mais direta:
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- Pelo menos responde, sua vaca! Depois eu te roubo e você vai reclamar, velha!
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De vinte pessoas, três delas deram esmola. O terceiro foi um senhor, de cachecol e caso bege, que passava em frente ao supermercado. Ofereceu uma nota de dois reais para Luciano, mas cobrou que ele não comprasse droga, nem cachaça. Luciano concordou, mas eu tinha certeza que a promessa não seria cumprida.
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O morador de rua entrou no supermercado e, aos olhos do segurança, apanhou uma garrafa de guaraná Antártica e pagou. Fiquei admirado.  Mais ainda quando ele ofereceu o primeiro gole para mim...
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- Bebe aí. Aquele dia você me deu sua Coca, hoje te dou o meu Guaraná. Pode beber primeiro, bebe bastante. Você é gordinho, então tem que beber mais.
- Para de falar que eu sou gordo.
- Hahaha, mas você é.
- Tah, mas não precisa lembrar toda hora...

Leia a parte final da reportagem
Leia a primeira parte desta reportagem

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

... disse...

Aiiiii foi bonitinho da parte dele... MAS BEM TENSO

Cesar disse...

fico com medo, revoltado e ansioso pelo desfecho, mas muito feliz de saber que nem todo mundo os trata com indiferença!!!! :)

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