Pop & Art

Entrevista: Nise Palhares

"Não importa se sou lésbica ou não.
Artista vende arte e não vida pessoal"
"Comeria a Britney Spears"
Neto Lucon (Mix Brasil/ 2010)

Nise Palhares é a melhor cantora de todas as edições do programa Ídolos.”A frase é da jurada do programa Paula Lima, especialista no assunto, e nós nem cogitamos discordar. Fera no quesito “música popular brasileira”, Nise envolveu os telespectadores com a potência de voz e sonoridade grave, e conquistou a comunidade gay ao falar abertamente que é lésbica.
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Alguns meses depois do término do programa – em que ficou em terceiro lugar – a cantora, que já era sucesso no cenário musical do Rio de Janeiro, inicia a maratona de shows e participações especiais em todo o Brasil.
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Conversamos com ela em uma quarta-feira de dezembro, durante os ensaios para o primeiro grande show no Rio. Aqui, Nise fala sobre cantadas, preconceito, participação no reality da Record, Paula Lima e assume preferência pelas loiras.
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Ídolos terminou há alguns meses. O que mudou na sua vida de lá para cá?
Mudou tudo: rotina, ensaio, reconhecimento na rua, novas amizades. Tenho conhecido produtores, cantores de renome. No dia 9, por exemplo, terei um show com a Preta Gil no Rio de Janeiro. O ator e cantor Rafael Almeida também fará uma participação no show. Agora também tenho meus fãs para cuidar. Meu twitter é bem visitado, eles querem atenção e eu tenho o maior carinho por eles.
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Falando de público, a presença lésbica é predominante?
Meu público é diversificado. O público da internet realmente é mais formado por mulheres. Também tem a galera hétero. Já o público que me para na rua é mais diversificado Muito casal, muita criança. Fico encantada quando uma criança pede para tirar uma foto.
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(Nise pede um minuto e explica dizendo estar no meio de um ensaio)
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Tem recebido muitas cantadas?
(Risos). Ah! Sempre. A gente trabalha com música tem dessas coisas, mas é de boa. Trabalhei tocando na noite durante 10 anos, estou acostumada. Também acabei de sair de um relacionamento e quero focar em trabalho. Está acontecendo tudo o que eu queria: fazer show fora e dentro do meu Estado. Então isso é mais importante que se deixar envolver por alguém agora.
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Como classifica sua passagem pelo Ídolos? Chegou a sentir que morreu na praia?
Foi ótimo, super importante. Abriram várias portas e muita gente assistiu. Fiquei três meses, então muita gente que não viu o começo, viu mais o finalzinho. Não tenho nada do que reclamar, nem senti que morri na praia. Fui lá com a intenção de ser vista. E meu objetivo era ficar o máximo de semanas possível para isso.
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Após ser eliminada, alguns jornais publicaram que você alegou ter sofrido preconceito do público da Record. Acha que sofreu homofobia?
Não foi bem assim e não acho que foi preconceito. Isso surgiu porque, quando terminou o programa, os nove cantores subiram no palco para responder as perguntas da imprensa. Muitos repórteres começaram a perguntar se eu não achava que era preconceito do público, que sempre deixava a candidata lésbica em terceiro lugar, nunca em segundo. Eu disse que achava que não, mas eles publicaram como se eu tivesse dito que sim. Eu não posso ter esse preconceito contra hétero, sendo que não quero sofrer preconceito. Seria contraditório.
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A jurada Paula Lima babava um ovo violento por você e demonstrava isso no programa. O contato com ela continua aqui fora?
Tenho contato com a Paula. Ela fez um show e eu fui convidada, cantei com ela. Ela também me convidou para gravar uma faixa no novo CD. Quando ela está no Rio, com o musical Cats, sempre me convida. Mas no programa a gente não tinha muito contato longe das câmeras. Os jurados não falavam com a gente, somente nos corredores. Diziam: não vai dar mole hoje, ein?
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Como foi a convivência com os demais cantores?
É claro que a gente se apega mais com alguns, como o Chay, por exemplo. O Tom Black também. Aliás, ele está na minha frente agora, pois ele estará no meu show de amanhã (hoje).
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Com eles existiu alguma piadinha sobre ser lésbica?
Não, eu acho que aprendi muito com o programa. Estava convivendo com nove pessoas de Estados diferentes, criações diferentes. As meninas, por exemplo, nunca tinham tido contato com uma lésbica. Os meninos sentiam medo. O próprio Chay pensou que eu fosse ser uma coisa, ignorante e tal, mas fui uma fofa com ele. Nos demos muito bem.
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No confinamento chegou a dizer que precisava de visita íntima...
(Risos). Como você ficou sabendo disso? Essa foi uma brincadeira com os participantes. Começou quando pedi para minha mãe trazer cigarro e brincamos que parecíamos presidiários. Daí eu brinquei com a ideia de receber visita íntima. Ficamos três meses sem beijar na boca, nada. É complicado.
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Quem era aquela loira bonita que te acompanhou em todos os programas?
Ah! Ela era uma “amiga”.
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Qual é o seu tipo de mulher?
Ai, estou ficando com vergonha.
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(Nise pede um minuto e volta perguntando se o site é voltado para o público gay)
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Ah! Não tem um tipo. A gente olha e gosta. Não tem essa coisa de loira, morena. Se bem que eu prefiro loira. (risos) Mas não tenho preconceito com nenhum tipo. Seu eu gostar...
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A Ana Carolina escreveu uma música dizendo que comeria a Madonna. Você gostaria de fazer essa brincadeira com alguma famosa?
Eu não sei. Não tenho esse fanatismo por nenhuma cantora. Mas acho que comeria a Britney ou a Beyoncé (risos).
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Sua mãe esteve presente em todos os programas. Sua relação com ela sempre foi tranquila?
Sim, claro. Minha mãe não tem nenhum tipo de preconceito. Aceita numa boa e tem uma relação muito boa com minhas namoradas, na maioria das vezes. E não só ela, o meu pai também.
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Ser uma cantora lésbica ajuda ou atrapalha na carreira?
Não tem essa. Artista não tem sexo, nem rótulos. A gente vende arte e não vida pessoal. Se você é gay, travesti, lésbica, isso pouco importa na carreira artística. O mais importante é você ser um bom artista, desenvolver um bom trabalho.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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