Realidade

Outros sentidos (Parte 2)

(Reportagem de capa da revista JUNIOR edição 12)
A rotina, os amores e o armário de gays cegos
.

(Clique aqui e veja a primeira parte da reportagem)
.

Quando uma minoria discriminada (cegos) também faz parte de outra (gay), a caixa de preconceitos se expande e aquele que é vítima também pode ser agressor. É gay que tem preconceito com cegos. É cego que tem preconceito com gays. Por isso muitos cegos ainda permanecem na escuridão do armário. Durante a apuração desta reportagem, a maioria dos gays não conhecia cegos. E a maioria dos cegos não conhecia gays.
.
Luciano e Alexandre assumiram a homossexualidade apenas para os amigos. Para a família, a resistência é maior. “Meus familiares são homofóbicos”, confessa Luciano, opinião que engrossa toda vez que observa comentários sobre vizinhos homossexuais. “Eles ofendem, fazem piadas, chamam com adjetivos ofensivos, mas mal sabem que existe um gay dentro da própria casa”, reflete ele, que dribla os pais com namoros às escondidas e saídas com amigos a clubes gays. “Eles devem desconfiar, mas nunca falaram nada”, diz.
.
Com Alexandre não foi diferente. Ele se descobriu gay na adolescência, quando conheceu um  colega de escola com quem desfrutou – sempre escondido – das primeiras experiências com sexo. “Foi uma coisa bem diferente, pois nunca havia tocado em um órgão masculino de outra pessoa. Foi louco porque senti uma atração muito forte e isso ficou na minha cabeça”. Na época, ele não revelava os desejos para quase ninguém e ainda hoje procura preservar a imagem.
.
“Não é uma questão de esconder ou sair contando para todo mundo. Eu não acho necessário falar, pois não gosto de rótulos. As pessoas tendem a estigmatizar as classificações. Além de ser apontado por ser cego, seria apontado por ser gay”, se explica. 
.
VIDA ONLINE
Ao contrário do que muita gente imagina, os cegos também usam (e muito) a internet. Através de um leitor de tela (que transmite pela caixa de som o que está escrito), teclados em braile e outras tecnologias, eles se comunicam em bate-papos, acessam sites de informação e outros programas de sociabilização.
.
Luciano, por exemplo, está todos os dias online. Ele escreve muito rápido,  com um português invejável e avisa que sua busca não é por sexo casual. Ele procura companhias, amizades. “Por muitas vezes sou bloqueado. É chato, pois as pessoas falam que estão apaixonadas, mas tudo muda depois que descobrem que sou cego. Algumas dizem que nada vai mudar, mas o tratamento fica diferente. No fundo, sinto pena delas, pois deixaram de conhecer alguém muito legal”, defende.
.
No bate-papo ou chat por telefone, Alexandre tem a estratégia de não dizer que é cego logo nas primeiras conversas. Ele procura revelar no “momento certo”, que varia de pessoa para pessoa, mas geralmente não costuma se preocupar com isso. “A reação das pessoas é bem diversa, até porque falta muita informação. Mas não acho que exista tanta resistência. Se você for uma pessoa bacana e demonstrar isso, tudo rola numa boa”, garante.
.
Quando o assunto é namoro, ele explica como seria a relação. “Digo que não existem regras, que a forma de aproximação é natural. É claro que andarei apoiado no ombro e que vou precisar que me avisem sobre um degrau ou outro, mas é só. Outro dia me perguntaram: como é beijar um cego? Eu respondi: com a boca (risos).”

Clique aqui e continue lendo essa reportagem.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.