Realidade

Outros Sentidos (Parte final)

"O maior problema da deficiência não está no cego,
está nas outras pessoas que pensam que não
somos capazes, que somos tristes..."
A rotina, os amores e o armário de gays cegos

Por Neto Lucon

“Nem sempre os olhos dizem tudo. Creio que eles até ajudam, mas se fosse tão necessário enxergar, as pessoas não teriam tantas decepções amorosas”, enfatizou Alexandre, que teve o primeiro namoro com uma mulher e o segundo com um amigo. “Morávamos juntos, ele se declarou e eu fiquei confuso. Depois deixei rolar”. 
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No total foram dois anos de namoro e momentos inesquecíveis. A primeira relação sexual, segundo ele, foi “inusitada e maravilhosa”. “Nunca vou esquecer daquele momento”, diz, sem entrar em detalhes.  A relação terminou depois de uma viagem internacional do amado. Desde então, o publicitário namorou mais três vezes. 

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Ao contrário de Alê, que nunca namorou outro deficiente visual, o primeiro amor de Luciano foi por outro cego. Eles se conheceram via internet e partiram para encontros às escondidas. O namoro, que perdurou por um ano, foi marcado por experiências agitadas. Com a ajuda de pessoas, funcionários e suas bengalas, eles iam a danceterias, bares, restaurantes e viajavam por todo o Brasil de avião.
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“Adoro dançar. Já fui com meu namorado ao Rio de Janeiro e Curitiba, e frequentamos várias festas”. Aliás, a primeira relação sexual só se deu depois de cego. “Estava muito envergonhado. Demorei uns dois meses até pegar confiança, mas depois foi natural”, revela com timidez. Devido ao ciúmes, o namoro terminou. 

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A beleza para quem não vê 
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Corpos músculos, altos, bronzeados, de olhos azuis ou verdes, roupas de grife... Nada disso importa... TANTO! Para quem é cego, os sentimentos de amor e tesão são despertados por outros sentidos. “O físico não importa mais. Agora vou muito pelo calor”, afirma Luciano que, ao gostar de uma pessoa, pede para que os amigos não revelem se ela é esteticamente bonita ou feia. “Isso pouco importa. Eu gosto de abraço, do calor da pessoa”, diz. 

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Para o publicitário Alexandre, um bom papo e a voz são as características que mais chamam sua atenção no momento de admirar alguém. “Não dá para viver só de pinto e bunda. Uma hora um ou outro esfola”, brinca.  Apesar disso, ele diz preferir corpos magros e homens com voz máscula. “Adoro magrelos e inteligentes, mas é claro que ninguém precisa ser um doutor para atrair minha atenção. Inteligência não tem a ver com diploma, tem a ver com comunicação e interesse”.

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Reportagem ganhou quatro páginas da revista Junior (edição 12)
Baladas e amigos
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Eles vão normalmente à padaria, bares, shoppings, parques e restaurantes. Somente as danceterias é que se tornam um problema. De acordo com Luciano, as pessoas não sabem abordá-lo quando não está acompanhado. “Geralmente o segurança vai me deixar em uma cadeira do barzinho. E eu vou ficar a noite inteira lá, sem ir para a pista. Ou vão me deixar na pista, mas o que eu vou fazer caso queira ir ao banheiro?”. Já com os amigos, uma combinação antecipada resolve o problema. “Vou sem bengala e peço para eles me avisarem até quando alguém se aproxima de mim”.
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Como nem tudo são flores, os amigos que frequentavam danceterias ao seu lado se reduziram drasticamente depois da cegueira. “De 100 sobraram dez”, diz ele, que justifica a ausência pela falta de informação. “As pessoas não estão preparadas (para lidar com um cego). Elas pensam que você vai fazer tudo errado, que não é capaz. E eu sou capaz de tudo”.
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Bastante agitado, Alexandre adora ir à balada, embora confesse não ir muito às voltadas ao público gay. “Não vejo problemas ou dificuldades para ir”. Quanto ao jogo de sedução, ele diz que “basta estar com bons amigos que deem coordenadas”. “Depois é só ter uma boa lábia. Até porque não basta ser cego e gay, tem que ser uma pessoa bem arrumada e com a aparência que chame a atenção do outro, né? Eu também não fico com ninguém por pena”. 
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Quem é cego afinal?
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“O maior problema da deficiência não está no cego, mas nas outras pessoas”, diz Luciano. “Muita gente pensa que só andamos com a família, que não damos risada, que não fazemos sexo e que não somos felizes. Isso atrapalha muito as nossas vidas, pois é totalmente o contrário. É uma vida tão agitada que muita gente nem sabe que existe. Eu sou capaz de tudo e muito mais”.

Enxergou?


Leia a primeira e segunda parte dessa reportagem. 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Cesar disse...

Neto... pode escrever mais!!! rsrs..... Mto bom!!! Já t disse e vou publicar aqui.... eu vi um casa de gays cegos em uma praia em Salvador e sempre fiquei pensando como seria isso, até onde vai o meu preconceito e coisas do tipo!!! Eterna reflexão!!! Mas eu amo conhecer o desconhecido, tenho várias dúvidas, várias curiosidades....... vamos sentar e conversar!!! bjus Cesar

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