Realidade

Beijo no asfalto (parte final)

Uma esmola, uma promessa e um beijo a um morador de rua

Por Neto Lucon

Você prefere o beijo ou o dinheiro? 

Durante quase todo o mês de junho, nunca vi Luciano bêbado ou drogado. Mas depois de um mês, numa noite em que demorei para chegar do trabalho, encontrei-o bêbado em frente ao hotel Dona Lú, onde fiquei hospedado. 
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Estava sem barba, chinelo e roupa nova, mas cheirando pinga. Pediu R$5,00 emprestado para pagar uma dívida na maloca. Hesitei, dizendo que não tinha, mas ele disse que, caso não ajudasse a apagar aquele dívida, amanhã não o veria mais. Insisti que não o ajudaria e ele foi embora, irritado.
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Quando fechei a porta do quarto, imaginei tudo o que poderia acontecer a ele. Deitei na cama, liguei a televisão, mas as imagens de uma possível agressão não saíam da minha cabeça. Lembrei de tudo que a gente vivenciou junto. O primeiro contato no supermercado, as risadas, as reflexões de cabeça baixa, a ida à maloca, a promessa do beijo, a apresentação de Bia, o refrigerante devolvido... Saí correndo!
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Cheguei até o supermercado, mas ele não estava lá. Olhei para os lados e nada. Porém, antes mesmo que eu o procurasse ou voltasse para o hotel, Luciano me seguiu.
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- Veio me dar o dinheiro, é?
- Vim, né? Não queria ver um defunto logo pela manhã.
- E o meu beijo? – gelei.
- Vim só te dar o dinheiro. Aliás, disse que só daria beijo se você tomasse banho.
- Eu tomei. Você falou que ia me beijar...
- Você tá com cheiro de cachaça.
- Mas eu tomei banho...
- Mas tá com cheiro de cachaça...
- Não importa. Você falou que ia me beijar se eu tomasse banho...
- Pois você prefere o dinheiro ou o meu beijo?
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Luciano pegou o dinheiro da minha mão e, sem dizer nada, correu para a maloca. Senti-me a pessoa mais insensível e idiota do mundo. Mas antes de chegar ao hotel, ele apareceu novamente, aparentemente arrependido, e me chamou para dar uma volta ao lado de dois novos moradores, André e Lurdes. Perguntei por Bia e “De Menó”, mas Bia havia sido levada pelos irmãos e “De Menó” levado pela assistente social. Estranhei o novo grupo, mas resolvi seguir.
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André é um rapaz negro, tem 19 anos, e é pai de uma criança. Ele abandonou a esposa para viver na rua, pois não conseguia se fixar em nenhum emprego. A responsabilidade de sustentar o lar era muita para quem nunca trabalhara antes. Já a senhora Lurdes, de lenço na cabeça, leva uma história mais dramática. Seu marido foi queimado enquanto dormia em 2007. E os filhos foram levados pela assistente social. Agora, sozinha, ela se afunda em corote.
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Durante a conversa, nunca imaginei que Luciano, Lurdes e André fossem comer marmita com feijão azedado e que pudessem...roubar! Eles queriam pinga, mas o movimento estava fraco – principalmente sem o “De menó”. Caminharam próximo dos bares e avistaram um bêbado no chão, dormindo.
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André se aproximou como quem não espera nada e, mais rápido que um gato, enfiou as mãos no bolso do bêbado e levou sua carteira. Quem via de longe, imaginava que os dois eram amigos e que André estava apenas ajudando-o a se levantar. Corremos para trás de um caminhão e ele contou o dinheiro: 10 reais. Todos que passavam na rua olhavam para mim.
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Lurdes propôs jogar a carteira no bueiro, mas André preferiu devolvê-la. Falou até de documentos e condenou a desnecessária brincadeira. Para sua sorte, ao entregar, o bêbado tirou mais algumas moedas e ofereceu voluntariamente a ele, como uma recompensa. Noite de “sorte” para eles, que me deixaram de lado e correram para a maloca.
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Como eu já esperava, Luciano voltou para se despedir. E, como eu não esperava, cobrou novamente o beijo, enquanto Lurdes e André gritavam para ele ir logo. 


Argumentei novamente sobre o bafo de pinga – e sobre a comida vencida que ele havia acabado de comer. Ele disse que me aguardaria e que, caso eu comprasse uma escova, escovaria os dentes. Pediu, “pelo menos, uma bitoca”. E, com os olhos fechados, pensei em dar um selinho.
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Foi tão rápido que, quando abri os olhos, Luciano já estava correndo ao lado dos outros moradores. Correu como uma miragem e sumiu.
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Depois do episódio, não o vi mais com tanta frequência. Até o dia em que ele simplesmente desapareceu das redondezas do Santa Cecília. Lurdes disse que ele havia ido para um abrigo ou para o nordeste. Nordeste?!? Ela não se lembra ao certo.
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O fato é que, a cada morador de rua, a cada cobertor envolto até a cabeça, a cada pessoa sentada e pedindo esmola, lembro de Luciano e de sua história. Talvez ele nem se lembre mais de mim, mas eu certamente jamais irei esquecê-lo.


NÃO LEU INTEIRO:
Leia a primeira parte: http://nlucon.blogspot.com/2011/08/beijo-no-asfalto-parte-1.html

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

9 comentários:

Jéssica disse...

pode ter certeza q ele lembra ;) ... Não devem existir muitos "netos" por aí que queiram saber a história de vida dessas pessoas neh?! A maioria (assim como eu) tem medo e não quer papo =S

Lah Domiciano dos Santos disse...

Com ctz ele se lembra de vc... Essa história até parece coisa de filme, achei realmente incrível!!! Se vc encontrá-lo outra vez me contaa!
Bjins.! ;*

Mel M. disse...

Nossa, ficou realmente incrível. Sinto muito orgulho de ser amiga de uma pessoas tão íntegra, de um jornalista tão criativo e competente, que anda na rua e vivencia tudo com um olhar sagaz. Você é admirável, Neto! E que texto delicioso de ler... adorei mesmo. Suas pautas são sempre as melhores, você merece ser lido pelo mundo todo! Série brilhante, jornalismo literário em seu melhor e mais sincero formato.

Parabéns! Amei. :)

Cesar disse...

Eu queria que fosse igual final de novela, td fosse lindo, Luciano se recuperasse, vencesse, sei lá..... só me esqueci que é vida real!!!!!
Netooooooo, cada dia mais sou seu fã!!!!

Aldo Quintana disse...

Com certeza lembra e sempre se lembrará de vc meu amigo!!!! Adorei a história!!!

Ivan disse...

Realmente, o beijo é coadjuvante nessa história.

Parabéns pelo ótimo texto!

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Neto,
Só hoje, dia 03 de julho de 2012, eu fui ler as partes finais dessa sua reportagem. Correira da vida, excesso de informações... Os elogios estão aí, na fala de outros leitores seus, e, claro, eles estão certos. Não daria mesmo para essa história ter outro final, não no mundo em que vivemos e como ele está constituído.
Enfim, de todo o modo é muito dolorido tudo. E o que seria de nós, os um bocadito mais sensíveis, se não fosse você, tua integridade e o teu talento, tua grande dimensão humana. Obrigado! Fiquei mais triste, por um mundo sem saídas e mais feliz por existir você.
beijo,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Marcus Bentto disse...

Fenomenark...felicitaciones.

Rodrigo Nascimento disse...

Fiquei emocionado.

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