Realidade

Mendiguei a uma mendiga

"Às vezes é possível perder tudo, menos o
respeito por nós mesmos"
Por Neto Lucon

Esmolar. Mendigar... O ato de pedir dinheiro, parte da rotina de muitos moradores de rua, é visto com maus olhos por toda sociedade, que observa naquelas figuras a personificação da vulnerabilidade social ou a figura de quem não quer pescar. Enquanto muitos se incomodam com o contato, a insistência e o respirar do asseio precário, outros os encaram com a síndrome da invisibilidade. Ignoram, passam e não esboçam a menor reação com aquele que senta à margem do corrido e concorrido mercado de trabalho e moradia. Como se fossem menos gente, menos humano, menos digno de atenção.

Quando cheguei à capital, a terra do aglomerado solitário, não era difícil deparar com um, dois, três, vários, durante qualquer percurso, principalmente os destinados ao bairro Santa Cecília. No começo, distribuía cinquenta centavos, ou menos, para qualquer tipo de justificativa – da comida, à cachaça ou leite para o filho. Depois comecei a ver que os pedidos eram maior que meu bolso furado ou minha boa vontade de ajudar. Não que sejamos nobres e preocupados com o outro; muita gente dá esmolas, pois recebe como recompensa o conforto para usufruir sem culpas de suas riquezas. E assim voltar a viver em seu mundo fechado e sem chaves.

Certo dia, a regra virou do avesso. Uma cena inusitada bagunçou meu conforto, deu-me um tapa na cara, fez-me refletir por alguns momentos, tornou-se parte da minha história.

Estava saindo do lançamento do livro “A Tríade” no Espaço Cultural Terracota (Av. Lins de Vasconcelos, 1886) regado por vinho suave e a companhia de escritores de seres fantásticos, como o Kizzy Ysatis. Depois de uma overdose de histórias e informações, vagava sorridente e com pernas doloridas pela rua, que escurecia por volta das 19h. Com passos lentos, avistei uma mulher ao longe, com cabelos desgrenhados, sentada bem em frente a uma pizzaria. Era uma jovem de não mais de 30 anos.

Possuía cabelo castanho claro, ensebado, era magra, ossos expressivos e olhos moles e esverdeados. Vestia uma calça de lycra vinho, uma camiseta de numeração maior branca e recebia naquele momento 2 reais das mãos de um cliente velho, narigudo e de barriga saliente. Enquanto sustentava o ínfimo peso com uma das mãos, com a outra levantava para pedir mais, ainda segurando o valor que faturou. E, naquele momento, seus olhos fitaram os meus.

O contato visual me pegou de uma maneira que, mesmo alegre de vinho, sentiria-me demasiado envergonhado caso tentasse esquivar, atravessar do outro lado da rua, fingir que não era comigo. Desviei o olhar, torcendo para não ser abordado, até que ela ergueu o braço com o dinheiro em mãos, atraindo minha atenção.

Tentei me manter neutro. Fitei seu rosto, a mão estendida que ainda segurava o dinheiro e, extremamente debochado, soltei: “Olha! Está querendo me dar esses dois reais?”, sorri e continuei andando, deixando a brincadeira de conteúdo duvidoso no ar. Surpreendendo-me, a mulher se virou e disse: “Pode pegar!”, devolvendo a provocação. Com vergonha, agradeci e garanti que não precisava, que era brincadeira. Mas ela não se conformou com meu afronte e disse em alto e bom tom: “AGORA VOCÊ VAI PEGAR DE QUALQUER JEITO”, se levantando em um impulso só.

Meu coração sentiu uma explosão de emoção, meus pelos se arrepiaram, e a única reação, além de um sorriso amarelo, foi continuar caminhando. O que poderia fazer? Não teria como pegar aquele dinheiro. Isso estava fora de cogitação. Contudo, ela foi se aproximando, dizendo para eu concretizar a insana proposta: “PEGA, AGORA PEGA!” Ainda caminhando, disse: “Não precisa, você vai precisar mais que eu. Foi uma brincadeira”.

Esbugalhando os olhos, que agora ganharam vida, ela continuou a me seguir. E eu continuei dizendo que se tratava de uma brincadeira. Nada feito. Ela me alcançou, pegou bruscamente meu braço, cachoalhou e num ímpeto gritou: “PEGA ESSE DINHEIRO, PORRA! PEGA EM NOME DE JESUS CRISTO”, repetindo várias vezes, cada vez mais alto, desesperada, chorando. Com uma mão me agarrando e a outra aos céus, como uma louca evangélica que acabara de sair de um hospício. Desfaleci de medo, vergonha e de ter provocado aquela situação.

Funcionários da pizzaria saíram para a calçada, e diante da inusitada cena ficaram confusos. Eu aceitei: peguei de suas mãos a nota amassada de R$2,00. Troca total de papéis em São Paulo: avistaram uma mendiga dar dinheiro a um transeunte e voltar-se tranquilamente ao seu ponto.

Com coração acelerado, fui para casa perguntando-me: quem era aquela mulher de pele marcada pela sujeira da cidade grande? Quem são essas pessoas que carecem de casa nas noites de chuva, renda vinda de um trabalho digno para sustentar as necessidades mais básicas, que trocam pratos de comida pelo vício em crack, sem um sonho para objetivar o amanhã? Em qual momento a vida arremessou-os sem piedade para aquela situação? O que esperam do futuro? E qual é o futuro de quem vive para mendigar?

Todas essas perguntas se perpetuaram nas próximas esquinas, e me acompanharam no vagão do primeiro metrô que entrei. Tive uma certeza: ao aceitar aquele dinheiro não roubei a pedra ou o corote da noite, frutos das ilusões, mas devolvi àquela mulher o conforto de ainda possuir dignidade e orgulho, mesmo em uma situação de exclusão. Pois às vezes é possível perder quase tudo, menos o respeito por nós mesmos. Ou quem sabe a retórica de uma provocação. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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