Entrevista

"Padrão de beleza é um crime para toda sociedade”, diz Caroline Bittencourt

Ela promoveu a "Marcha das Famintas"


Neto Lucon (Yahoo!)

Caroline Bittencourt, de 29 anos, se surpreendeu ao fazer uma pesquisa para uma peça teatral sobre anorexia, durante o curso na escola de teatro Célia Helena, em São Paulo.  Ela constatou que, apesar de o distúrbio atingir mulheres de diferentes idades e classes, não é tratado com o devido cuidado pela sociedade.

Disposta a colaborar com a causa, a modelo e atriz se reuniu a outras mulheres que sofrem com a doença e decidiu liderar a “Marcha das Famintas”, que acontece nesta sexta-feira, 28, em São Paulo.

Em entrevista exclusiva ao “Yahoo!”, a loira fala sobre padrões de beleza, bastidores do mundo da moda e revela as histórias que a levaram refletir.  Confira:

Nesta sexta-feira, 28, você vai liderar a "Marcha das Famintas”. De onde surgiu a ideia?
CB: Tive vontade fazer uma peça de teatro sobre o tema e, pesquisando, vi que apesar de ser uma doença muito comentada, pouca informação é passada. Descobri também que a doença não é tratada com o real respeito. O Ambulim, que é referência no tratamento desta doença, só possui 10 leitos. O governo precisa atentar e voltar a atenção para a anorexia, que é um caso de saúde pública.  Falo isso porque as pessoas sempre ligam a anorexia às modelos, quando na verdade ela está atingindo muitas mulheres de diferentes idades e classes sociais.

Uma amiguinha da sua filha te surpreendeu ao falar sobre corpo e medidas, né?
CB: Escutei uma conversa de uma amiguinha de minha filha, de apenas nove anos, preocupada com o quadril. Preocupação muito cedo para uma criança, mas que, infelizmente, já cresce sendo pressionada com uma "imagem de corpo ideal". Conversei com muitas mulheres que já enfrentaram este drama e resolvemos lançar uma campanha contra a anorexia. A ideia é que a informação chegue à população. Queremos captar recursos para o aumento do número de leitos no Ambulim e a criação de outros centros para tratamento.  

Sendo modelo, certamente você deve ter ficado perto desse tema diversas vezes. Como é que esses distúrbios alimentares se dão no mundo da moda?
CB: Escutei, inúmeras vezes, meninas magérrimas que estavam prontas para entrar nas passarelas insatisfeitas, dizendo que se sentiam gordas ou inchadas por terem comido um tomate! Infelizmente, é uma doença muito escondida e camuflada no mundo da moda. E as próprias pessoas que sofrem de anorexia, sejam modelos ou não, sentem uma grande dificuldade para assumir a doença, pois ela vem mascarada como se fosse uma vaidade ou até um cuidado com o corpo de se fazer uma dieta "inofensiva". Assisti recentemente a um documentário no Discovery dizendo que 40% das modelos sofrem de distúrbios alimentares! Isto é muito preocupante.

Receber um "não" de uma agencia ou de uma campanha por estar pouquíssimo acima do peso indicado me parece bastante perturbador para uma modelo...
CB: Acho uma situação muito complicada, pois às vezes estamos falando de meninas ainda adolescentes que saíram de suas cidades rumo a São Paulo com o sonho de ser modelo. Essas meninas acabam vindo sozinhas, e a referência de segurança para elas é a agência. Eu mesma já escutei várias pessoas do mundo da moda falando absurdos para muitas meninas, incentivando-as a perder ainda mais peso e sem preocupação nenhuma com a saúde e com o psicológico delas.

"Quem define o que é corpo perfeito? Se pensarmos no
século passado, o belo eram mulheres
rechonchudas e cheias de formas".
Chegou a conhecer alguma história que te assustou?
CB: Por eu ter ido algumas vezes no Ambulim, em minha pesquisa, me deparei com muitos casos assustadores. É muito difícil compreender a imagem distorcida que essas mulheres tem de si mesmas. Mesmo muito magras e com um IMC (índice de massa corporal) muito abaixo do considerado saudável, elas continuam se vendo gordas - e estou falando de mulheres que às vezes estão pesando somente 30kg! Fiquei muito impressionada com uma paciente que substituía a alimentação por cimento para saciar a fome. Ela acreditava que dando peso ao estômago não iria engordar, por não ingerir gordura! Também vi um documentário sobre uma menina de oito anos que precisou ser internada com anorexia nervosa.
O que acha desse padrão magérrimo e, muitas vezes, surreal proposto pela moda? De qual maneira ele repercute para as demais mulheres (não-modelos)?
CB: Acho realmente um padrão surreal, pois normalmente uma modelo inicia sua carreira muito nova, por volta dos 14 anos. Nessa fase, é normal que o corpo seja muito magro e ainda sem formas e curvas de um corpo de mulher. Mas o impossível é manter esse corpo conforme a idade vai passando, é uma luta contra a própria natureza feminina! Este padrão imposto é um crime para toda a sociedade! Se pensarmos no século passado, o belo eram mulheres rechonchudas e cheias de formas, visto pelas pinturas renascentistas. Mas quem define o belo? Não existe beleza em todas nós, mulheres, independentemente do peso, da raça, do tipo de cabelo?
Para você, um corpo bonito é um corpo magro?
CB: Não necessariamente. Para mim, ter um corpo bonito é ser feliz e saudável. As próprias mulheres com quem conversei e que já passaram e superaram a anorexia, me disseram que elas sempre achavam que a felicidade estava em 1kg a menos e que se sentiam prisioneiras e escravas do próprio corpo, pois, além de dispensarem muita atenção à ele, quando estavam muito magras, apresentavam um corpo muito frágil, sujeito à muitas doenças, e, muitas vezes, não tinham nem energia para andar. Então considero belos os corpos de mulheres que são felizes e não fazem dele uma prisão. E, na minha opinião, não existe um único padrão de beleza, jamais!
E o uso de remédios inibidores de apetite?
CB: Eu acho o uso destes remédios um absurdo, assim como o uso frequente de laxantes e diuréticos.

Sua filha de 10 anos quer ser estilista e você já declarou que apoiaria caso ela quisesse ser modelo. Engajada na "Marcha das Famintas", tem conversado com ela sobre o assunto?
CB: Minha filha está sempre comigo e inevitavelmente ela já me ouviu falar muito do assunto e até já me observou lendo alguns livros sobre anorexia. Ela inclusive chegou a me questionar se eu estava doente, achei bonitinha a preocupação dela comigo e acabamos conversando muito sobre o assunto. Ela anda muito atenta com toda a informação que acabei passando para ela. A minha filhota nunca foi de comer muito, mas depois que conversamos, ela passou a comer mais e melhor!
Entrevista foi home do Yahoo!
Sendo contra todas essas alternativas, que parecem comuns no mundo da moda, como você faz para estar com um corpo considerado perfeito?
CB: Acho complicado falar em corpo "perfeito". Teria que perguntar sobre o referencial que você usa. Apesar de ainda trabalhar muito como modelo, desfiles, etc, não tenho o considerado "corpo perfeito" para o mundo da moda, que aceitaria no máximo os 90cm de quadril - meu quadril já passou de 97cm! Mas me considero feliz e saudável desta maneira.
Além da Marcha, sei que você participa da campanha contra o "Câncer Bucal". Aliar-se a algumas causas que considera importante traz que tipos de benefícios para sua vida?
CB: Sair em defesa de causas nobres me traz muitos benefícios pessoais. É sempre um fator social positivo. O prazer em ajudar o outro libera a felicidade e nos aproxima da realidade de uma forma muito específica. É o momento em que paro de olhar para mim e começo a me doar, tornando-me mais humana e sensível aos problemas que a sociedade vive. 
Para finalizar, qual sua opinião sobre a safra de modelos plus size (as gordinhas) e trans como Lea T?
CB: Como já disse, não acredito em um único padrão de beleza e fico muito feliz quando abrem espaço para outras belezas que foram esquecidas.
Serviço: Marcha das Famintas
Sexta-feira, 28, às 17h.
São Paulo
Sai do Hospital das Clínicas rumo à Oscar Freire.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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