Pop & Art

Entrevista: fotógrafo Bob Sousa


"O intuito é mostrar o lado
humano de cada artista"

“É possível captar a essência de uma peça com apenas uma imagem”

 Por Neto Lucon (Yahoo!)

“Paixão por teatro”. É assim que Bob Sousa, conhecido como o “fotógrafo do teatro”, explica a vontade de registrar imagens de grandes ícones do palco. Com a carreira que iniciou em 2003, ele eterniza sensíveis imagens de obras teatrais e a essência de nomes consagrados, como a atriz Laura Cardoso, José Celso Martinez, Denise Fraga e Marisa Orth.

Em junho deste ano, o artista lançou em São Paulo o site “Bob Sousa – Fotografia de Palco e Retratos”, que divulga suas maiores fotos em duas seções. Na primeira, um amplo panorama de peças encenadas em São Paulo. Já em “Retratos”, o fotógrafo eterniza atores e diretores em sua intimidade, longe dos personagens e holofotes.

Em entrevista exclusiva, Bob conta curiosidades da profissão, fala sobre o contato com Laura Cardoso e diz que, independente de serem estrelas no palco, artistas são pessoas comuns na íntimidade.

Foto da peça Luis Antônio - Gabriela.
Quando vamos ao teatro, somos orientados a não fotografar para não comprometer a concentração dos atores. Você, que fotografa durante as cenas, tem esse tipo de preocupação?
Claro, a grande preocupação é essa: não atrapalhar o espetáculo e nem o público. Pensando nisso, sempre fico na lateral do teatro. E tem toda uma técnica: tenho um equipamento que faz pouco barulho, não é permitido flash, não é permitida movimentação. Fico no cantinho e tento me adaptar. Os atores já sabem que eu estou lá, e sempre me dão respaldo, dizem que não atrapalho. A maior preocupação é de não atrapalhar o público que está assistindo.

Você assiste à peça de antemão para conseguir os melhores ângulos?
Não assisto. Gosto de ter a mesma reação do público, de chegar pela primeira vez e se encantar ou não com o espetáculo. Às vezes quando sabia que algo iria acontecer, não conseguia fotografar o momento justamente por ficar preocupado. Não estou indo buscar imagens para vender aquele espetáculo comercialmente ou mostrar todos os ângulos, é o meu olhar. E o meu olhar naquele dia foi aquele, uma única vez.  

Com uma grande lista de artistas no currículo, existe diferença de fotografar os mais famosos como a Marisa Orth, Denise Fraga?
Durante o espetáculo, não existe diferença. Já nos retratos é diferente, pois o acesso é diferente. Você tem que passar por produtores, assessores... Mas depois não. Eles acabam respeitando bastante o trabalho e entregam a imagem para mim. Não colocam impedimentos, nem falam  “quero assim, quero assado”. Fui muito bem recebido pela Denise Fraga, Marisa Orth, Maria Fernanda Cândido. Posam para eu fazer o que quiser, pelo meu olhar.

E qual olhar quer passar desses artistas?
O intuito é mostrar o lado humano. Por mostrá-los sempre como personagens, eu sempre tive a vontade de poder retratá-los como pessoas. É aquela coisa, o público tem a impressão de que o cara é uma coisa, e eu sempre tive a impressão que não, que são pessoas como a gente. Pessoas com necessidades, vontades, pessoas em sua casa, tomando um copo de chá, deitado numa cama. É claro que são grandes personalidades, mas no teatro, que eu sempre vi uma arte que é feita na raça, são bastante comuns.

Alguém te surpreendeu?
Tem um retrato bem marcante que é o da Laura Cardoso. Fui na casa dela e acabei sendo muito bem recebido. Demonstrou ser uma pessoa muito doce, que guardo uma lembrança muito boa. Tanto que, na hora de eu ir embora, disse para eu tomar cuidado, deu recomendações (risos). É interessante esses ensaios porque vejo a roupa que a artista levou, se ela esqueceu o sapato, como ela te recebe, se está meio desanimada...

Laura Cardoso e Antunes Filho: "O  retrato é algo íntimo entre fotógrafo e fotografado"
Quando sabe que conseguiu uma boa fotografia do personagem?
O retrato é algo muito intimo entre fotógrafo e fotografado. Quando essa relação se dá, quando as pessoas perdem as fronteiras do que ela quer passar, do quanto ela está ali inteira, a foto acontece. Ela tem que querer se entregar. Um exemplo foi o Antunes Filho (diretor de teatro). Foi uma foto muito complicada, que ele iria fazer, depois não queria mais e, por fim, me deu 5 minutos. E nesses cinco minutos eu consegui fazer um excelente trabalho. Peguei a essência dele, que é um cara tímido, um cara fechado, um cara difícil no bom sentido.

Você já fotografou Analice Vergueiro, Cacá Rosset... Pensa em registrar a Fernanda Montenegro?
Tentei fotografar no começo deste ano e não tive acesso. Passei por assessores produtores e não consegui. Mas é uma que está na minha lista.

Como surgiu a ideia de montar a exposição online?
Um site funciona como portfólio e tem abrangência bem maior de público. Quis democratizar a arte, pois também sou um cara do teatro. Minha ideia é sempre fazer com que as pessoas vejam mais, assistam mais, aprendam mais sobre teatro. A ideia é atualizar o site semanalmente com novos espetáculos, estréias, não ficar apenas nas fotos que já tenho.

Pessoas e áreas para fotografar são extensas. Por que escolheu o teatro?
Acho que é paixão. Desde a adolescência eu gostava muito, frequentava, assistia. Já pensei até em fazer quando era adolescente, mas não deu certo. Comecei a fotografar em 2003, com a chegada da fotografia digital. Antes, como não era veiculado a nenhum jornal, não conseguiria custear. A fotografia digital facilitou, pois não tem negativo, não tem ampliação...

Foto da peça "Hipóteses para o Amor e a Verdade", do Satyros
O que procura transmitir nas fotografias de palco? É a essência da peça, do personagem, da cena?
É uma mistura de tudo isso. Às vezes é possível captar em uma imagem a essência da peça. Principalmente em uma cena de desespero, de dor... Por fotografar teatro há muito tempo, conhecer as pessoas e os textos, sempre vou preparado, sabendo o que é, o que o texto vai dizer. Acabo indo com o espírito do espetáculo e isso acaba tendo uma boa sintonia.

Qual peça que está em cartaz indica aos leitores?
São duas: “O Jardim”, da Cia Hiato, que está no SESC Jardim, cuja montagem é muito bonita, e possui um texto belíssimo. Fala da memória, como a vida passa rapidamente e o que a gente acaba se apegando são às memórias. E o “Luis Antonio Gabriela”, que aborda o preconceito, aceitação. A montagem é diferente, chamam de documentário cênico. Acompanhei tudo, e produzi as fotos de divulgação, aposto muito nessa obra.

Para finalizar, o que fotografa em sua intimidade?
Não fotografo nada! São fotos dos meus filhos e olhe lá. Aliás, aviso: quando for convidado para alguma festa, não me esperem com a câmera! (risos).

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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