Entrevista

Entrevista: Nany People


"Quanto mais sucesso você tem no humor,
mais policiamento você sofre"
"O microfone é uma arma"


Por Neto Lucon (Yahoo)

A atriz Nany People, que investe no humor desde os tempos áureos das drag queens e hoje está com o stand-up “Então...Deu no que Deu”, conversou com o “Yahoo!” e falou sobre as atuais polêmicas envolvendo humoristas e programas de humor.

Ano passado, ela defendeu o apresentador Marcos Mion, acusado por uma ONG LGBT de tê-la ofendido em uma brincadeira. Na época, Nany afirmou que não se sentiu ofendida e que daqui a pouco precisariam rezar Ave Maria antes de uma piada.

Hoje, diante das polêmicas de Rafinha Bastos e das personagens Valéria e Janete, do “Zorra Total” (Globo), ela afirma que cada caso deve ser analisado isoladamente. Ela acredita que deve existir limites, mas frisa que “é muita cadeia para pouco delito”. Confira:

Ano passado, Marcos Mion sofreu o processo de uma ONG LGBT por fazer uma piada sobre sua transexualidade. Mas você, ao contrário da ONG, não se sentiu ofendida. Como foi esse processo?
A audiência ocorreu na última semana, eu fui testemunhar a favor do Marcos Mion, mas me responda: alguém responsável pela ONG foi? Não, ninguém. Abriram o processo, mas não compareceram. Agora, depois de tanta dor de cabeça, cadê? Só me fizeram perder tempo. Havia ido ao casamento de uma sobrinha em Poços de Caldas e tive que voltar correndo para a audiência. Não me senti ofendida só porque ele falou que tenho uma surpresinha. É claro que eu tenho, eu sou uma transexual, pô. Para mim, não é ofensa, é o que eu sou.

Recentemente, Rafinha Bastos do “CQC” andou sofrendo algumas represálias. E na última – ao brincar que “comeria” Wanessa Camargo e o bebê – foi afastado do programa. O que achou?
Primeiro temos que ter consciência que cada caso é um caso. Em minha opinião, baseada nesses anos que tenho de experiência, o microfone é uma arma. E ele pode ser tanto utilizado para te fazer bem quanto para te complicar. Eu conheço o Rafinha e sei que ele tem esse humor ácido e que fez escola no stand-up. No caso da Wanessa, foi uma piada infeliz. Ele pegou o rabicho do elogio do Tas, que disse que a Wanessa estava bonita grávida, e fez uma piada para dizer que ela estava linda – que comeria ela até grávida. Foi infeliz...

Por que acha que causou tanta repercussão?
Ele sempre fez esse tipo de piada, mas quanto mais alto você está, quanto mais sucesso você tem, mais o policiamento aumenta. Sei do homem que ele é, do pai, do marido. Tudo isso é outra história. É a mesma coisa comigo: as pessoas pensam que eu sei todas as posições do Kama Sutra, mas se assustam quando chegam em casa e vêem uma Nossa Senhora. Acho que as pessoas poderiam ser mais comedidas.

Entrevista foi home do Yahoo!
Acha que ele merecia o afastamento e o processo?
Acho que é muita cadeia para pouco delito. Mas realmente acho que é preciso de limites, ele foi infeliz. Ou melhor, acho que o pensamento é esse: “Você pode, mas não deve. Você deve, mas não precisa”. A gente não precisa fazer algumas coisas para o outro rir. Eu tinha um link ao vivo na Hebe, no Amaury Junior, no Goulart de Andrade e nunca tive problema com isso. Eu sabia a hora de cair fora.

O que você acha de humorísticos como o “CQC” e “Pânico na TV”?
Eles foram um divisor de águas. Criaram uma escola, mas deveriam ter mais cuidado. Não se pode tudo, nem confundir liberdade com libertinagem. O “Pânico” adora fazer isso: convida o artista para a entrevista, mas depois tira o microfone, coloca uma música e finge que não quer mais escutar. Depois, em outro dia, quando o artista não quer mais falar, daí eles colocam o artista como arrogante e inventam a história da sandália da humildade. Aí fica complicado, né?

O que te faz rir na televisão?
Eu gosto do “CQC”, mas já não gosto tanto do “Pânico”. Ultimamente eles colocam provas que colocam o físico do outro em risco e não é engraçado. É uma bobagem, coisa de quem não tem o que fazer. Agora, o que está muito engraçado é o “Ratinho”, que ganhou uma nova roupagem. Nossa, eu me divirto quando eles colocam roupa de festa nas pessoas que vão fazer o exame de DNA. Vão prontos para saber o resultado e arrasar (risos). O Ratinho é o Chacrinha pós-moderno.

Além do caso do Rafinha, as personagens Valéria e Janete, do “Zorra Total” também sofreram represálias. O Sindicato dos Metroviários argumentavam que elas incitavam o assédio e abuso sexual contra mulheres...
Achei uma besteira. O quadro e a frase “Ai, como eu tô bandida” caíram nas graças do público e provaram que é carisma. Acho que a mulher é desrespeitada de outras maneiras muito piores. Ela é desrespeitada no salário, que comprovadamente é menor que o do homem. Desrespeito é quando temos 300 projetos aprovados em menos de 5 minutos de sessão por apenas dois políticos trabalhando. Aí vem falar de um humorístico? Estão procurando chifres em cabeça de cavalo. É como no livro de Maquiavel: “Dividir para governar”. Eles estão dividindo tantas coisas, tantas leis, tantas regras, que as pessoas não estão parando para... Pensar!

Nesses dias li uma frase assim: “O Brasil é o único país onde os humoristas são levados a sério e os políticos vistos com bom humor”. Concorda?
Não acho que seja bem assim. Qual a diferença do Tiririca para outro político? “Ah, o Tiririca não sabe escrever nem o nome”. Mas o outro que só é político sabe escrever para te roubar mais. Infelizmente somos comandados por políticos com pensamento colonial.

Que tal se candidatar a algum cargo político?
Não, não iria dar certo. Vou jogar muita merda no ventilador. Quando você se afilia a um partido, você assina um monte de coisas que não concorda em prol do partido. Prefiro falar de política no meu trabalho, na televisão, em uma entrevista... Agora, sobre a história do politicamente correto no humor, acho importante dizer que somos sacaneados e nocauteados na política todos os dias e, lá, ninguém faz nada!

Nany manda recado em seu Twitter sobre a entrevista

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Cesar disse...

Excelente entrevista e fantástica entrevistada!!!! Parabéns!!!!

Anônimo disse...

Gostei muito! Muito sensata! Concordo com ela em todas suas ideias! Tb acho o humor mais inteligente auqele que nos faz rir por rir , sem apelaçao de qq ordem! Ela citou o Ratinho e é realmente o humor de "circos" que agradam a todos nos que ainda temos muito de criança dentro de nos! Parabens a ela!Se bem que a Nany é uma pessoa muito inteligente mesmo!

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