Pitacos

Nas bancas

Com beijo colorido, “Trip” sai na frente das revistas gays

Trip é a primeira a trazer beijo gay desde os anos 90
Por Neto Lucon

O beijo gay ainda rende polêmica. A maioria das pessoas ainda não está acostumada (ou se diz não preparada) com gestos de carinho entre homens ou mulheres – curioso é que toleram a violência dos mesmos na televisão. Mas o que me deixa mais curioso é que, depois da polêmica promovida pela extinta revista gay “Sui Generis” nos anos 90, o mesmo beijo volta às bancas nesta semana em uma publicação hétero.

Sim, não foi uma revista gay que ousou trazer um beijo gay na capa. Foi a “Trip”, considerada uma revista voltada ao público masculino e HÉTERO. E que, muito além do beijo, traz uma série de entrevistas e reportagens sobre a comunidade LGBT... Contemplando TODAS as letras – ao contrário das revistas gays.

Muitas vezes
as capas são
as mesmas - e
com os mesmos
modelos
Entendo que o mercado colorido anda muito delicado – “Dom” fechou, “Junior” e “Gmagazine” enfrentam um massacre na equipe, “Acapa” não é vendida em banca – mas definitivamente não entendo o motivo de taaanto medo. Lembro que (na Junior pelo menos) sentiam medo dos jornaleiros boicotarem, como aconteceu com a “Sui Generis” (ela foi censurada e ensacada).

Mas é contraditório uma revista gay nos tempos de hoje sentir medo de ser... Gay! Até porque não acredito que nenhum leitor deixe de comprar alguma revista somente pelo beijo – o próprio gay é público alvo, poxa - nem que ocorra a diminuição das vendas, muito menos que tirem as revistas da banca. E, caso ocorra, é um bom sinal para que saibamos em que período histórico estamos.

Mas estamos em um período em que o gay é mais aceito quando é parecido com hétero, quando não demonstra sua afetividade ou comportamento, quando agressões homofóbicas, por exemplo, são justificadas por um casal de gays que se beijam.

Agora, pergunto: se nem uma revista gay apresenta com tranquilidade um beijo gay na capa, como é que queremos que uma novela demonstre tal gesto? Aliás, o que vemos na capa de revistas gays? Homens descamisados, malhados, másculos e... Héteros! Apelo erótico arraigado em “homens impossíveis”.

Poderiam continuar com gostosões, claro, mas que (também e alguns) fossem gays – ou declaradamente gays (por que não?). É pra lá de contraditório ter ORGULHO em paradas e manifestações políticas e não ter ORGULHO de ter um gay na capa da revista, um beijo, ou de incluir uma lésbica, uma travesti, ou achar o bofe menos atraente por ser gay (me disseram aqui que o gay gosta de héteros porque é mais másculo. Aff!).

Talvez com medo do mercado, a “Trip” optou por trazer duas capas. Ela incluiu, além do beijo gay, outra capa geral, com homens e mulheres em uma praia. Portanto, se as revistas gays também sentiam medo da repercussão, deveriam apostar em duas capas. A “Junior”, a “Gmagazine” e “Acapa” já lançaram duas anteriormente, por que nunca pensaram nisso? Não acredito que seja falta de estratégia, medo... Penso que as revistas gays estão muito caretas e subestimam o seu leitor.

Acredito que gay não queira ver (apenas) homens gostosos. Afinal, se é para praticar sexo solitário, a internet pode ser até mais interessante.   

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

5 comentários:

Mel M. disse...

Perfeito. Perfeito. Perfeito.

É interessante ver a perspectiva de quem já esteve dentro de algumas destas redações, como você. Saber de onde vem esta limitação, saber qual é o medo e qual é a prática. Excelente texto, Neto! ;)

E foi como o outro texto que eu publiquei dizia - e o que sempre defendi na comunidade LGBT - nós deveríamos parar de nos auto-marginalizar também. A responsabilidade também é nossa. Ficamos muito confortável (ou covardes) esperando que a imprensa ou quaisquer influenciadores mudem a opinião da sociedade para a gente.

É muito fácil ser minoria, é muito fácil reclamar e não fazer porra nenhuma. Não demonstrar orgulho do seu relacionamento, não desmonstrar afeto naturalmente a seu parceiro(a) antes que toda a sociedade magicamente aceite como natural. Ninguém vai achar natural se não somos os primeiro a mostrar que estamos, sim, aqui. E que homens se beijam, mulheres beijam, travestis beijam. Fácil dizer "somos uma revista gay, nosso público já é restrito e ohhhhh... como sofremos! Não podemos fazer nada! A Globo que faça primeiro!".

Ótimo ver textos como o seu, lindo! Vou divulgar... ;)

Jean Marques disse...

E é sempre a mesma coisa...revistas com muita promessa e nenhum conteúdo. Homem pelado por homem pelado vejo qualquer site grátis, não preciso comprar uma revista....as propostas são sempre as mesmas...tentam ganhar pelos olhos uma certa parte do público que pode ser fidelizado pelo intelecto...
Acabam esteriotipando o próprio nicho: "É de homens bombados e másculos que eles gostam, bora colocar qualquer um desse na capa da revista, vai vender..."
Me sinto o fendido quando vejo esse tipo de revista em circulação.

Ótima matéria Neto! =]

Lex Mendes disse...

As revistas nacionais voltadas para o publico gay precisam, ironicamente, sair do armário. Na verdade, essas revistas sao o espelho dos donos e seus socios, nao da comunidade LGBT, que é complexa e diversa. Como não me sinto representado nas capas e no conteúdo, nao compro, não assino. Quem perde, literalmente, são eles.

o Humberto disse...

A trip tem duas capas normalmente.

Muito boa sua crítica!
Abraço.

Alberto de Avyz disse...

Da maneira como vc aponta, Neto; o que se pode esperar é que assim como a SuiGeneris, a ENT&, a OK( que depois viria a ser YES) e o Lampião da esquina; todas as atuais edições voltadas aos gays sejam encerradas também. O que seria de grande pesar, pois nosso país ( e porque não dizer, o mundo todo) precisa ter pelo menos um referencial físico que possa referendar a existência da comunidade homo brasileira contemporânea.
Uma saída que enxergo é a 'fanzinelização' dos blogs temáticos, que ajudam (e muito) à disseminação de conteúdo voltado para este público. Seria uma solução? Não sei lhe responder, mas posso dizer que parece ser uma saída viável; não?..
(Deu prá perceber que estou lendo todo o blog? Rsrsrsrs...)

Sucesso!

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