Pitacos

AIDS: não dá para relaxar

São 7 mil novas infecções por dia
em todo o mundo
"Você relaxa na foda e aí se fode literalmente"

Por Neto Lucon

Aids definitivamente é um assunto sobre o qual pouca gente gosta de falar. Inúmeras vezes, quando meus amigos e amigas discursavam sobre a vida sexual ativa (repletas de parceiros diferentes e situações de risco), fui taxado como chato e antiquado só porque perguntava se a relação contava com preservativo.

E só porque ninguém gosta de comentar – e por conta da doença já não ter a cara de Cazuza nos anos 80 – não quer dizer que ela tenha desaparecido. Em pesquisa divulgada nesta segunda-feira (28), o Ministério da Saúde informou que há 630 mil pessoas com Aids no Brasil, e que o maior risco de contágio está – prestem atenção - no grupo de mulheres jovens e em gays.

Confesso que me sinto desconfortável (e pouco feliz) ao falar também que a probabilidade de rapazes gays, de 18 a 24 anos, contrair Aids é 13 vezes maior que em homens heterossexuais. É chato dizer que o maior aumento foi entre jovens gays, jovens travestis e nas mulheres de 13 a 19 anos. E que, de 1980 a 2010, foram registradas 241.469 mortes por Aids no Brasil. Mas não há alternativa, é necessário falar.

É importante ter essa consciência, divulgar aos amigos e evitar que esse número se torne ainda maior – ou até mesmo continue o mesmo - nos próximos anos.

No ano passado, visitei algumas vezes uma amiga que estava internada no CRT – Centro de Referência e Tratamento, DST/AIDS – em São Paulo, e fiquei extremamente angustiado quando vi alguns pacientes aparentemente terminais nos quartos. Estes, sim, que se assemelhavam ao fim de Cazuza. Não conversei com nenhum deles, mas fiquei tocado com os seus olhos: tristes e sem perspectivas. Mais tocado ainda quando não os via nas visitas posteriores.

“Você relaxa na hora da foda e aí se fode literalmente”, disse uma mulher na recepção. É, realmente não vale arriscar no calor do momento, do tesão, do fogo de palha. A consequência pode vir para a vida toda e o arrependimento também. Aproveitando a visita, fiz todos os exames necessários (todos, todos, todos) e confesso que, mesmo não tendo tido relacionamentos sem preservativo, fiquei com receio de ter contraído alguma coisa. Com o coração na mão, descobri pela assistente social que não havia nada. Ufa!

Fiquei impressionado quando não via mais os pacientes no CRT
Mesmo assim, continuo de olho. Afinal a tendência de crescimento da doença entre o público jovem é mundial, informa o relatório do “Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS”. Houve mais de 7 mil novas infecções POR DIA em todo o mundo, dos quais 34% eram entre jovens de 15 a 24 anos. Eu tenho 24 anos. E é exatamente por saber desses dados que continuo sendo chato e antiquado em minhas relações. Também por isso, sou chato quando comento as relações dos meus amigos. 

E para quem já é soropositivo, calma, não é o fim do mundo. Há vida após a AIDS. É necessário buscar ajuda e seguir os cuidados médicos, bem como os medicamentos, à risca. É possível ter uma vida absolutamente normal, tranquila e sem maiores danos. Mas é necessário se cuidar, MESMO.

Hoje, infelizmente tenho que dizer que minha amiga morreu por ter relaxado com os tratamentos. Era muito inteligente, mas relaxou, infelizmente. 

Pense nisso... 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Neto, vou comentar aqui a mesma coisa que comentei em outro blog, hoje mesmo e que trata do mesmo assunto. Peço a você e aos seus leitor@s que, antes de me atacarem, reflitam um pouco, ao menos...
"Sinceridade? Mesmo? ok, mas me defenda se o ataque for muito forte, contra mim, tá?
Vamos lá: Um dos erros, graves para mim, é toda a população LGBT , HSH e mais a sigla que for que tenha vida sexual ativa AINDA não ter se apoderado e EMPODERADO de algumas conquistas científicas já provadas: O Estudo IPREX, que é a profilaxia pré-exposição e a PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO, esta última já existe e está disponível no SUS. Pergunta no meio gay se sabem disso??
Dois) desculpem, ninguém suporta sexo seguro a vida toda! E como Aids e HIV já existem no nosso meio desde 1981 (EUA), por que que as pessoas não poderiam se cansar, em algum momento? Por que as pessoas , em vez de serem ouvidas e compreendidas, são condenadas pelos próprios LGBT’s quando, em algum momento abandonam a camisinha??? Se não houvesse essa condenação, talvez as pessoas procurassem mais esses recursos e procurariam também o diagnóstico precoce, evitando sofrimentos, doenças e morte. 3) A informação tem que envolver, também, essas questões. A Medicina Preventiva tem que parar de lidar com o IDEAL e exigir o ideal, que seria tod@s usarem camisinha. E sim lidar com o REAL, as pessoas falham, muitas não gostam de usar camisinha e nem por isso devem ser queimadas em praça pública. 4) assim como há a política de redução de danos para drogas, deveria haver também para o sexo, ou seja: se uma pessoa não usou camisinha, que no dia seguinte vá a um posto de saúde e comece a profilaxia. Mesmo que ela seja cara ao governo, ela sairá muito, muito, muito mais cara se a pessoa, com medo de julgamentos (inclusive o próprio) não buscar o que já existe e depois o governo terá que pagar internações, remédios bem mais caros e etc.
5) ter o discursinho politicamente correto sobre a prevenção na boca e na ponta da língua é muito bonitinho, mas na prática o papo é outro.
6) Que o conservadorismo e os moralismos, mais o fundamentalismo religioso sejam deixados de lado quando o assunto é sexo e prazer. Não funciona, nunca nuncionou e nem funcionará. O medo nunca foi uma boa política de prevenção. O medo e o pânico provocam uma retração inicial, a pessoa para até de fazer sexo, mas depois volta com tudo, sem nenhum cuidado.
7) Apoderem-se da Ciência! Ela está aí e vale bem mais que qualquer estatística numérica. Quantos enormes conhecimentos científicos vieram ao mundo DEPOIS do surgimento da Aids? Vocês têm noção disso? Então, que VIVA A CIÊNCIA e não o moralismo da sociedade!
8) Sinto falar, vão me atacar outra vez, mas a camisinha não é algo “natural”. Antes da Aids ela só era usada para evitar gravidez, em relações heterossexuais e só tinha uma única marca no mercado, a Jontex. Então, por que achar4iam que as pessoas usariam camisinha para todo o sempre? De que adianta ficar falando apenas “tem que usar” milhões de vezes e não levar em conta que em determinado momento ou ocasião, por “n” motivos, nem precisa “estar bêbado” a pessoa pode não usar? vai matar o cara que não usou?
Enfim, é isso o que penso. E ninguém precisa me seguir. Estou apenas tentando colaborar com a reflexão."
Beijos,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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