Pride

Quem é amigo de travesti? A amizade e o que ficou de Claudia Wonder

Foto do primeiro encontro que tive com Claudia, em 2005
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Por Neto Lucon
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"Você precisa aprender a caminhar sozinho". Essa foi a última frase que escutei de Claudia Wonder no dia 24 de outubro de 2010. Nem eu e nem ela esperávamos que dois dias depois, no Centro de Referência e Tratamento, em São Paulo, ela diria adeus. Minha amiga Claudia morreu aos 55 anos, vitima de uma infecção causada por um fungo encontrado nas fezes de pombo.

De fato foi muito difícil passar um ano longe de Claudia e, como ela disse, caminhar sozinho. Até porque, antes mesmo de chegar a São Paulo, vindo da pequena Santo Antonio de Posse, ela orientava-me, brigava e enriquecia a bagagem cultural e política. A cada dia, novas descobertas, novas brigas, novos aprendizados, pedidos de desculpas, risos e... Ainda mais admiração, pois, como a imprensa costumava defini-la, era multimídia e inteligentíssima.

Tenho que reconhecer, contudo, que a travesti que conheci não era exatamente aquela que se jogava nua na banheira de groselha, lembrada pelos frequentadores do Madame Satã nos anos 80. Nem a que investia em dublagens na boate Nostro Mondo. Tampouco aquela das pornochanchadas, bebidas, shows de rock (Jardim das Delícias e Truque Sujo), drogas e festas memoráveis ao lado de personalidades célebres como Cazuza, Caio Fernando Abreu, Zé Celso...

A Claudia que conheci mesmo foi a do cotidiano.
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Quem é amigo de travesti? Em festas, paradas e grupos de militância é fácil chamá-las de lindas, tirar fotos, dizer que não tem preconceito. Mas quem traz uma travesti para a sua própria vida? Pois era nessa manada de respostas negativas (que muita gente vai relutar a entregar) que eu sentia nela uma extrema solidão. Afinal, era darling, respeitada, elogiada, mas cercada de amigos cometas... Aqueles que até são e foram importantes, mas que passam. E passam, mesmo.

Nos conhecemos por meio de sua coluna da G Magazine - em que eu escrevi aos 14 anos para tirar dúvidas sobre minha sexualidade com aquela simpática e inteligente senhora, que eu não sabia que era travesti - e pelos vários debates que tínhamos via MSN e Orkut, depois que ela me apresentou o universo trans. Era um exemplo de força, inteligência e experiência. Porém, quando nos tornamos amigos, aos poucos passei a sentir a pessoa além da casca e do prestígio. Não foram poucas as vezes em que escutei monólogos de solidão, choros, brigas, principalmente quando eu mesmo deixava de visitá-la em uma semana. 

“Amizade é como uma plantinha, se você não regar ela morre”, disse-me uma vez. E no mesmo dia lá estava eu em seu apartamento na nobre Haddock Lobo, local habitado por ursinhos misteriosos, pin-ups, Marylins e até Teletubbies.

Conversávamos sobre tudo, sonhávamos com um mundo melhor e cogitávamos um site em que a população trans tivesse visibilidade positiva. Dentre várias obras, assistimos juntos ao filme Milk, em que precisei dar um forte abraço após a exibição, de tanta emoção que sentiu. Claudia também adorava me assustar durante um filme de terror. E, durante as seções, fazia uma comida ótima com o que tinha na geladeira. Jamais vou esquecer como ela achou esquisito eu pedir uma pizza de estrogonofe. Ou então da noite da Virada Cultural, em que ela deixou o ladrão afoito por falar com voz grossa.

Quando saíamos para tomar um sorvete, todos olhavam para nós. E muita gente maldosa achava que eu era qualquer coisa, menos um amigo. Eu a considerava uma mãe em São Paulo, mas ela pontuava: "Irmã, né? Mãe, não". Em meu aniversário, me presenteou com um pinguim de pelúcia e, durante a premiação do Festival Mix Brasil, brigou comigo homericamente porque esqueci o RG e quase não entrei na festa. Foi ela que me levou para conhecer Rogéria, que me acordava dublando Carmem Miranda, que me deu maconha pela primeira vez e que virava noites conversando - eu dormia e ela me mandava para o sofá vermelho da sala, pois eu roncava muito [risos]. Foi ela que me fez sair com o coração na mão quando soube de sua internação.

Aliado ao preconceito oferecido a toda trans, Claudia caminhava também para outro lado da moeda: o de envelhecer e já não ser tão requisitada. O resultado era o mesmo de toda personalidade célebre à mercê da indústria midiática que busca a toda hora o novo. Assustei-me, por exemplo, quando uma revista gay negou-se a entrevistá-la. Sim, uma revista gay. Me disseram: “entrevista com travesti? Jamais! Gay não compra!”. E não fizeram, mesmo, nem após um telefonema pessoal e choroso de Claudia. Nosso projeto juntos era um site de combate ao preconceito, que acabou não vingando.

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Comemorando o sucesso do documentário "Meu amigo Claudia"
Uma imagem que ficou na memória
Quando convenci Claudia a ir ao ENUDS 2010. Foi a última aparição em público

Apesar dos pesares, há muito o que se comemorar. Além de fazer parte desta trajetória, fiquei feliz quando assisti ao documentário “Meu Amigo Claudia”, do diretor Dácio Pinheiro, que reconheceu a sua vida em vida. Fiquei feliz por acompanhar e incentivar a ida de Claudia ao ENUDS (Encontro Nacional da Diversidade Sexual) no dia 10 de outubro, em Campinas. Ela estava indisposta e eu insisti que seria positivo que ela fosse e me prontifiquei a ir de ônibus com ela. Lá, pude ver uma grande plateia de jovens a aplaudir em pé. Foi a sua última aparição em público.

Caminhei sozinho desde então, claro, mas Claudia continuou presente. Seja por tudo aquilo que conversamos e que repercute até hoje, ou pelas obras e objetos que chegaram às minhas mãos. Desde então, passei a conhecer muito mais a Claudia atriz, cantora, militante e performer graças ao material oferecido pelo auxiliar administrativo Marcelo Linardi, o fã e amigo Elzio Zoyde, e os jornalistas Vitor Ângelo e Eduardo Moraes. E me encantei ainda mais.

Depois de passar vários meses triste, relembrei por acaso de nossa última conversa, das frases que vieram antes do “Você precisa aprender a caminhar sozinho”. Claudia disse: “não tenha medo de nada. O grande culpado de tudo que atrapalha nossa vida é o medo. Tudo vai dar certo, você vai ver”. Claudia... Sempre maravilhosa, sempre Wonder. Que saudade!

Esta página é dedicada a ela!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

9 comentários:

Zozo Amaral disse...

lindo texto..... Claudia faz falta.

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Sinto falta dela, também... nossa última transgressora. Trabalhei por pouco tempo, uns dois meses bem do lado dela - separados por um metro!...risos - lá no Casarão Brasil. Claro que já a amava e admirava como um fã, desde os anos 70... lembro-me de um show que ela fez num teatrinho na Rua Apa (não existe mais!!!), fim dos anos 70 e em benefício do Grupo Somos... Ah, a transgressão, hoje tão abandonada pois as pessoas precisam sobreviver, não mais viver... Você também é muito importante para mim, Neto Lucon, você é carinhoso e honesto, mesmo como jornalista.
Beijo,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Dindry Buck disse...

Cláudia era um ser ímpar!
Saudades mil!
Brilhe mais de onde você estiver, menina linda!

Anônimo disse...

AMEI SEU TEXTO MUITO LINDO ...''LAGRIMAS''.Q SUA ESTRELA NO CEU BRILHA RELUZENTE ETERNAMENTE...SAUDADESSSSSSSS

o Humberto disse...

Lindo texto mesmo.

André Maia disse...

Parabéns pelo texto e pela sensibilidade nele transmitida ao leitor!

Neto Lucon disse...

Obrigado a todos e todas! :D

Anônimo disse...

Infelizmente só fui conhecer sua trajetoria e sua historia após sua morte. Me emocionei lendo esse texto. Que ela continue brilhando de onde estiver.

Sentimentos Sombrios disse...

Uma grande estrela, uma artista talentosissíma não recinhecida.Uma pena que só a conheci depois de sua partida e fiquei admirado quando assisti o filme "Meu amigo Cláudia"! Vc vai se sair muito bem! Cláudia está sempre do seu lado! Se precisar de um amigo, estou aqui!

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