Entrevista

Entrevista: Ariadna Thalia

“Meus problemas não acabaram com a cirurgia
Por Neto Lucon (Yahoo!/ junho 2011)

"A sociedade é hipócrita. Fala que respeita o gay, respeita a travesti,
mas é muito difícil conseguir emprego. Só tem respeito quem vive no
anonimato"
Ela foi a personalidade mais falada em janeiro de 2011. Após a polêmica - e rápida - participação na décima primeira edição do "Big Brother Brasil" (Rede Globo), a cabeleireira Ariadna Arantes, 27 anos, foi alvo de inúmeras entrevistas, reportagens e falou abertamente sobre sua transexualidade e vida pessoal.

Com trajetória exposta para o Brasil, a sister conseguiu a façanha de quebrar o jejum de 20 anos da "Playboy", desde que Roberta Close posou nua. E, seis meses após o reality show, voltou aos noticiários com um novo anúncio: carreira como performer em casas noturnas voltadas ao público gay. 

Sua estreia está marcada para este sábado, 25, na boate Le Boy, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, e conta com figurino de Marta Love, que é dona da confecção “MLove” e ex-mulher do jogador Vagner Love. 

Ariadna conversou com o Yahoo! e falou sobre novos projetos, "Playboy", preconceito e necessidade de abandonar o rótulo de transexual. Leia a seguir:

Yahoo - Você vai estrear como dançarina em casas noturnas. Como surgiu essa ideia?

Ariadna - Eu fiz uma apresentação em Brasília, em março, mas não tinha experiência. Também não queria ficar naquela coisa de ex-BBB que marca presença, tira foto e dá tchauzinho. Agora estou tendo aulas de dança e pensando em algo diferente. Será uma performance com dois bailarinos e quatro músicas: duas dançantes, da Beyoncé e Britney Spears, e duas em que eu faço dublagem, da Thalia  e Anahí. 

Yahoo - O que está achando de dançar?
Ariadna - É cansativo, mas estou me esforçando bastante nas aulas. Sempre gostei de street dance e já tinha feito há um tempo, mas agora estou pegando pesado. Estou aqui com a Marta Love para gente desenhar os figurinos e dar continuidade no espetáculo. A última roupa será surpresa... Aquela coisa bem diva, bem swarovskis, muito brilho! 

Yahoo - Vejo que em muitas entrevistas você rejeitou o rótulo de transexual. Não se sente pertencente ao universo LGBT?

Ariadna - Não é isso, jamais... Só fico chateada quando as pessoas usam a transexualidade como uma forma de me diminuir. Quando me vêem junto com a Sabrina Sato, e colocam: “Sabrina Sato e a transexual Ariadna”. As pessoas já sabem que eu sou operada, que sou mulher, que quero ser respeitada como tal... Sinto que falar disso é pura maldade, uma maneira de dizer que sou menos mulher que a outra. Mas nunca me esqueci do meu passado de travesti, de transexual. Sempre digo que o mundo é gay.
"Quando vou a um centro de estética, sinto que
algumas mulheres não gostam, têm aquela
imagem, fazem comentários. Sempre arranjam
um jeito de dar uma alfinetada em mim"

Yahoo - Recentemente tivemos alguns avanços nesses direitos, como a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Embora você já pudesse se casar antes (pela mudança dos documentos), acha que a sociedade evoluiu?

Ariadna - Acho ótimo que a união civil seja aprovada, pois o amor não tem sexo. Mas a sociedade ainda é hipócrita. Fala que respeita o gay, a travesti, mas é muito difícil conseguir emprego. Só depois que eu fiz a operação, mudei meus documentos, é que consegui me colocar no mercado de trabalho. A gente só consegue quando vive no anonimato, e as pessoas não sabem do nosso passado. Antes eu não conseguia, é difícil.

Yahoo - Mas você falando isso dá a entender que todos os problemas se resolvem com a cirurgia. Todos os seus problemas se resolveram?
Ariadna - Não, é claro que não. Só serão resolvidos quando as pessoas tiverem uma mentalidade melhor. Quando vou a um centro de estética, por exemplo, sinto que algumas mulheres não gostam, têm aquela imagem negativa, fazem comentários. Sempre arranjam um jeito de dar uma alfinetada em mim. Para fazer essa operação, a questão social não deve vir nunca em primeiro lugar. Deve vir a sua necessidade de adequar a alma ao corpo. Tem que se sentir mulher, tem que se ver como mulher, de todas as maneiras.

Yahoo - Como foi posar para a "Playboy" vinte anos após a Roberta Close?

Ariadna - Fico lisonjeada por ser escolhida, mas também acho que sou merecedora. Sou bonita, me cuido e fiz história na televisão. Pelo que eu soube, a revista esgotou no Rio em três dias, e no Brasil todo em 14. Não me falaram a vendagem, mas muita gente disse que não conseguiu comprar.
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Yahoo - Muita gente também disse que o “enigma não foi desvendado” e que as fotos ficaram muito artísticas, muito comportadas...
Ariadna - Eu fiquei satisfeita, mas é verdade que muita gente queria ver fotos mais ousadas. Quem sabe mais pra frente, um trabalho diferente. Afinal o leitor paga para ver o que a revista promete que vai mostrar, né? Quem sabe em outro ensaio...

Yahoo - E o namorado te acompanha nos eventos? Ele é ciumento?

Ariadna - Ele vai sempre que dá certo. Ele é modelo e goleiro, embora não esteja em nenhum time no momento, e sempre está tendo trabalhos também. Ele não sente ciúmes de mim quando sou assediada, é bem tranquilo. Claro que os homens dão em cima até hoje. Mas sou fiel e respeito meu namorado. Além do mais, não preciso procurar em outro homem o que já tenho com ele. 

Yahoo - E pretende se casar?
Ariadna - Com certeza, mas não agora. Ainda estamos nos conhecendo...

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Entrevista foi home do site "Yahoo!"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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