Entrevista

Entrevista Elza Soares (1)

"Quando estou resfriada, eu canto também"
“Eu nasci agora. My name is now

Por Neto Lucon (Yahoo! Brasil)

Uma notícia pegou de surpresa os fãs de Elza Soares. Há 15 dias, a artista do milênio, que ultimamente estava se apresentando sentada, passou por uma delicada cirurgia na coluna. Ela sofria com problemas na cervical desde 1999, quando levou um tombo de quase 3 metros durante uma apresentação. Agitada, a cantora teve outras quedas e torções no tornozelo.

Ainda em recuperação, mas animada com a rápida melhora, Elza anunciou com exclusividade ao Yahoo! que fará uma apresentação na noite sábado, 25. Ela será homenageada pelo cantor e compositor JP Silva, afilhado da cantora, no Carioca da Gema, Rio de Janeiro. Garantindo estar com uma voz ainda mais potente, a artista vai cantar seus maiores sucessos: “Malandro”, “Lata dágua na Cabeça” e “Marambaia”.

Aliás, o contato com novos artistas – como os cantores JP Silva e Thiaguinho (do Exaltasamba) - é um dos segredos que mantém a notável disposição e jovialidade da artista. “Elza Soares é uma diva, tê-la como madrinha é muito mais que uma honra, muitas vezes nem acredito”, afirmou JP, que recebe elogios da madrinha. “Com esse contato você aprende, acrescenta e é muito bom. Eles ficam com “diva pra cá, diva pra lá”. E eu retruco: “não é diva, é Elza, diva ainda não foi registrado (risos)”. Veja entrevista:

"Nosso país não tem memória, as pessoas esquecem muito fácil"
Yahoo!: Após quinze dias do procedimento cirúrgico, como você está?  
Elza Soares: Estou me reabilitando, pois uma operação dessas não é brincadeira. Mas a medicina está muito adiantada, e o doutor Flávio Negri é maravilhoso. A equipe fez com tanto carinho, tanto amor, que estou me reabilitando com muita facilidade. Tive medo porque tudo é realizado pelo pescoço, na garganta praticamente. Antes, estava tentando segurar com a fisioterapia, mas chega uma hora que não dá mais, tem que partir para o definitivo, que é a operação. E foi tudo muito bem, graças a Deus. 

Yahoo!: O que mudou em sua rotina? 
Elza Soares: 
Você fica muito dependente. É colo daqui, colo dali. “Me dá um pouco de água, me bota para fazer pipi.” Agora quem está mal da coluna é o Bruno (Lucide, marido da cantora). Porque não é fácil, me carregar no colo toda hora, né? (risos) Estou fazendo mais repouso e ainda sinto um pouco de dor na lombar. Uma queda de três metros, por favor, é coisa séria. Com o passar do tempo isso vai te sacrificando, e somado às torções no tornozelo... Hoje não quero mostrar “a bonita”, me esforçar e ficar em pé. Estou sendo obediente: bonita está a voz.

"Enquanto tiver força de baby,
então continua sendo baby,
meu bem."
Yahoo!: Você sentiu medo de não andar mais?
Elza Soares:
 É lógico, qualquer um sente medo. Poxa, estão mexendo na minha coluna, na minha medula, que é o lugar onde segura toda alma da vida. Você começa a se sentir ameaçado: ixi, cadê meus salto 15, cadê minhas coisas, estou encostando tudo (risos). Senti medo de não cantar mais, de não andar. Mas não sou uma pessoa medrosa. Tenho medo de ter medo. O medo só me faz aproximar daquilo tudo. Eu tinha medo de ficar fraca, de não ter mais coragem de lutar e me entregar. Mas ao contrário, estou sempre aqui. 

Yahoo!: O que pensa sobre a morte?
Elza Soares:
 Eu acho que todo mundo tem receio dela. O desconhecido assusta muito, e a gente não sabe como é. Mas não pensei nisso quando fiz a operação. Aliás, não penso nela, pois todo mundo vem aqui para morrer um dia. Você não foge disso: a realidade da vida é a morte.

Yahoo!: Muitos artistas acabam mudando a voz com o passar dos anos, mas sua voz está cada vez melhor. Qual é o segredo?
Elza Soares:
 Acho que é uma benção. Papai do Céu me deu o maior presente do mundo que é a minha voz. Machuca o pé, machuco o dedo, machuco tudo, mas a voz continua aí. E eu tenho a impressão que depois da operação minha voz ficou muito mais forte. É uma nova voz, muito melhor.  

Yahoo!: Você vive unicamente da música e abusa da garganta. Como é a Elza Soares resfriada?
Elza Soares:
 Ih, eu canto (risos). Essa pergunta é boa... Eu canto também. O primeiro show que o Bruno produziu, eu falei: “Vamos ter que adiar, estou afônica”. E ele: “Nunca. Você já levou uma queda na Estônia, quebrou a boca, quebrou tudo, e foi para o palco. Então... solta a voz”. E fui ao show e deu tudo certo. Quando estou resfriada, falo: “Pessoal, estou resfriada, então se der um espirrinho aqui...”. Depois as pessoas comentam: “Que mentira, a Elza estava resfriada nada, como que pode?” (risos). 

Yahoo!: Qual é a pergunta que mais escuta dos jornalistas?
Elza Soares:
 Quem me deu essa força e como posso ser assim? Sei lá, as pessoas pensam que sou um pé de árvore. Eu posso ser, mas sou um fruto também, que pode chorar. Às vezes perguntam a data do meu nascimento...cacete! Eu nasci agora, “my name is now”. Digo isso porque esse país não tem memória, as pessoas esquecem. No Japão, quanto mais idade mais respeito. Aqui é uma decadência total, te jogam na fila do INSS e fim de papo. Enquanto tiver força de baby, então continua sendo baby, meu bem. 

Yahoo!: Você investe sempre em parceria com a nova geração. Esse é um dos segredos para continuar produzindo, estar na ativa?
Elza Soares:
 Estou sempre com a moçada nova, como o Thiaguinho, o João Paulo... Com isso você aprende, acrescenta e é muito bom, muito gostoso. Para eles, é uma emoção, ficam “diva pra cá, diva pra lá”. E eu retruco: “não é diva, é Elza, diva ainda não foi registrado” (risos). Dou muita abertura, fico muito amiga. A gente tem um convívio como se todo mundo estivesse começando agora. 

"Sem amor eu não vivo. Minha vida
foi feita de amor".
Yahoo!: Conhecida também por protagonizar uma das história de amor mais emocionantes do Brasil, você já teve muitas desilusões?
Elza Soares: Claro, quem ama às vezes tem decepções. Mas não podemos desistir. Tem que levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Se ficar no chão por causa de uma pancada, vai só prejudicar a sua saúde. Pô, bateu, tem que levantar! Dá um jeitinho, mesmo que seja de quatro, vai engatinhando até encontrar o seu turno. Sem ficar olhando pra trás, vai embora!

Yahoo!: O que é amor para você? Elza Soares: O amor é tudo, sem ele eu não vivo, não sou ninguém. Minha vida foi feita de amor. Às vezes penso que uso muito mais meu coração que a cabeça. Fiz tudo muito acreditando que o amor constrói, que faz sorrir. Eu sou feita de amor, dos pés à cabeça. E me dôo totalmente, me entrego. Quando eu amo, amo de verdade. Já tentei mudar, mas não consigo.  

Yahoo!: Quando pensa em sua trajetória, o que sente?
Elza Soares:
 Que nada passou, acredita? Não tive tempo para pensar na minha trajetória, pois se eu parar pensar não vai dar tempo, é muita coisa. Também não tenho saudade de nada. Acho essa palavra horrorosa, ela dói demais. Posso morrer de tristeza, mas de saudade jamais. Ela é muito cruel, quando bate é para detonar. É melhor sentir tristeza, lembranças, que saudade. Só o brasileiro conhece essa palavra, por isso que o brasileiro é sentimental demais.

Yahoo!: Você teve dois documentários sobre sua vida. Em um deles você descobriu um problema de saúde. Como foi?
Elza Soares:
 Na hora que eu fui cantar “Dor de Cotovelo” com o Caetano, não aguentei, chorei muito, e descobri que tinha diverticulite. Estava passando muito mal, com febre, mas não quis falar para ninguém. Pensei: “olha que sacrifício eu faço para viver a minha arte, para viver a glória da música”. Fui medir a pressão e já fiquei no hospital. Quando cantei o hino nacional no Pan, estava sentindo o desconforto. Fui muito elogiada, mas só eu sei o que estava sentindo. 

Yahoo!: O que diria para as pessoas que vivem reclamando por pequenas coisas?

Elza Soares: Que bom se todas as dores do mundo fossem uma unha encravada. Mas se olhar para trás, vai ver muita gente pior. Então eu sempre digo: sem esquecer o que ficou atrás, olhe pra frente, mais pra frente. Valorize a vida, pois a vida é um presente que se você não souber cultivar... sei lá. Não quero passar um lado de heroína, nem de bravura, mas quando estou mais fraca, tenho toda a certeza de que tudo aquilo vai passar. Daqui a pouco mesmo, já estarei chutando a cadeira!

                           ONDE MAIS SAIU?
Entrevista foi home do Yahoo!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Que lindo, Neto!! Fiquei super emocionado! Não apenas a Elza, mas você também é meu herói. Você fez perguntas maravilhosas e extremamente inteligentes e soube extrair dela um monte de coisa boa.
Obrigado,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Marcos Lacerda disse...

Sua entrevista está muito boa Neto Lucon. Com jeitinho, você conseguiu mostrar a artista e a mulher; uma mulher que teria tudo para ser frágil ou se lamentar, mas que não o faz. Você deve ser um homem doce e isso provavelmente respinga no seu trabalho. Ah, e compartilho da mesma vontade do Ricardo Rocha Aguieiras. Já a vi duas vezes, mas eu gostaria mesmo é de ter podido chegar perto.

Oswaldo disse...

Encontrei essa entrevista por acaso e gostei muito. Ao contrário de outros espaços que muitas vezes mostram artistas como Elza Soares e Ney Matogrosso como se fossem figuras "folclóricas", sua entrevista deu o merecido respeito à querida Elza.

Tecnologia do Blogger.