Entrevista

Entrevista: Thiago Reis

"Os gays têm a melhor energia que existe. A energia de saber o que é"
Neto Lucon (Junior)
"Não tive medo de ficar rotulado. E digo que faria outro
personagem gay, caso for chamado"
Nenhuma série policial brasileira teve tantos personagens gays em cargos importantes como “Na Forma da Lei”, em 2010, Rede Globo. O mais lindo de todos é o delegado Sávio, personagem do gato moreno Thiago Reis. 

Na trama, ele se apaixona pelo repórter Ademir, depois de um relacionamento hétero que lhe dá uma filha. Apaixonado, o personagem morre no penúltimo capítulo no maior estilo Romeu: salva a vida do amado e morre em seus braços após levar tiros.

Esse é o primeiro grande trabalho do ator na televisão, que garante adorar o público colorido. Em entrevista que fiz com ele para a revista JUNIOR, Thiago diz que a melhor energia que existe é a gay. Saiba o motivo.


De uns tempos para cá, as histórias dos personagens gays estão dentro de outros contextos. O que achou de interpretar um gay que é policial e pai de família?
Foi um desafio conseguir essa outra faceta. Quando o Wolf Maia falou sobre a questão da  homossexualidade do Sávio, ele disse que o personagem não teria os conhecidos trejeitos, mas que internamente seria uma explosão de sensibilidade. Essa mudança se deu porque os gays estão dominando todos os espaços. São empresários, médicos, professores, policiais... Mostraram que não são apenas cabeleireiros, donos de salão, estilistas, que a gente está mais acostumado. E a televisão procura justamente retratar essa realidade. 

Você chegou a dizer que talvez alguns policiais fossem se incomodar. Por quê?
O policial tem uma postura que não deixa transparecer no meio. Ainda não conheço nenhum policial gay. Mas acho que eles existem,sim, só que não se assumem. Cheguei a ter contato com um investigador para compor o personagem, e ele disse para eu não me preocupar com o que os policiais fossem falar, pois existem muitos gays na polícia. E até agora não tive problema com ninguém.

Chegou a receber algum comentário preconceituoso?
Tive muito respeito de todo o público, que me parabenizou. A história gay é bem sutil, mas a informação foi passada. Estou muito feliz com esse momento na minha carreira. Quando a série sair em DVD, vou guardar com muito carinho. 

Aliás, esse é o seu primeiro trabalho na televisão. Sentiu medo de ser rotulado?
O ator sempre gosta de desafios. E eu adorei ter esse desafio de interpretar um personagem gay que é policial... Não me preocupei em ser rotulado em nenhum momento e digo que faria novamente um personagem gay caso fosse chamado. É um público que eu gosto de ter contato.

Para compor o personagem, você se inspirou nos amigos da sua esposa. Como foi isso?
Minha esposa é bailarina e tem muitos amigos gays. Eles frequentam a minha casa e, hoje, também passaram a ser meus amigos. Além do contato, eles me ajudaram falando sobre o modo de pensar da sociedade. Disseram que ainda existe muito preconceito, mas garantiram que essas difi culdades estão bem menores que há cinco, seis anos.

O personagem Sávio era um delegado casado e pai de família. Ele sempre soube que era gay ou isso se deu depois de se envolver com o repórter Ademir (Samuel Assis)?
A homossexualidade se deu depois do Ademir. Mas ele nunca teve preconceitos, o que eu acho muito importante. Assim como muitas pessoas, o Sávio estava aberto a novas experiências e descobriu outro tipo de amor. Quando se viu diante do Ademir, se deixou levar... 

Sávio morre nos braços do amado. O que achou do final?
É muito louco isso. Ter um personagem gay e ainda morrer em uma cena daquelas. É óbvio que eu  gostaria de continuar na série, estar nas outras temporadas. Mas a experiência de morrer nos braços de um amor gay foi muito interessante. Gravamos durante cinco horas. Caso estivesse um beijo no script, eu daria. Seria o primeiro beijo, né? Acho que contribuiria para a cena, mas não rolou.

Agora me explica esta recente declaração: “os gays têm uma energia diferente”.
Ah, sim. É uma energia que só ele tem, ou melhor, que só os gays assumidos têm. Vou explicar: o gay que se assume para a sociedade, ele assume também a sua verdade, o respeito consigo mesmo. É a energia de saber o que quer, o que é, o que sente, é algo muito bom de se ver. Acho até que seja a melhor energia que exista. Alguns héteros também têm, mas isso é bem raro. É um privilégio dos gays.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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