Realidade

Transhomens falam de seus sonhos e pesadelos durante a infância e adolescência

Sammy sofre preconceito para ser aceito como homem pela família

Por Neto Lucon / revista Junior (2010).


Para a família, o universo cor-de-rosa estava traçado desde a maternidade. Mas nos primeiros anos de vida, um universo azul-claro desbotou as bonecas, os vestidos e trouxe uma afirmação inesperada na preparação do oitavo aniversário: Natália S. não queria uma festa com decoração de princesa. 

O motivo? Ela garantia ser um menino. De cabelos curtos e roupas folgadas, a garota não foi levada a sério pelos pais _ “era apenas uma menina que gostava de coisas de garotos” _ até que a afirmação começou a ser visível nas atitudes. Levada a uma psicoterapeuta, os pais se viram diante de um possível caso de transexualidade. Agora eles buscam a “cura”.


     UM A CADA 100 MIL

Menos visíveis que as mulheres trans, os homens transexuais muitas vezes estão escondidos na caixinha nomeada “lésbica” e vivem um sofrimento sem nomes. No ano passado, o militante Chaz Bono, o filho da cantora Cher, assumiu a transexualidade aos 41 anos. Antes ele era visto lésbica e garantia não ser completo. 

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Em Campinas, interior de São Paulo, a história se repete. Até os 18 anos, o estudante Samy Samassa era visto apenas como uma mulher que gostava de mulheres. Após fugir de casa, voltar, ter crises e ir a uma psicóloga, ele teve a revelação iluminadora: “você é um homem transexual.” 

“Nesse momento foi tirado um peso das minhas costas”, recorda o jovem, que aos 19 obteve um laudo de transexualidade e começou a usar faixa para esconder os seios. Era o início de sua felicidade e o começo dos maiores problemas familiares.



Cher, Chaz e Bono

Há 20 anos trabalhando com pacientes transexuais, a psicóloga Angélica Soares, também especializada em violência contra crianças e adolescentes na USP, afirma que a reação dos pais nestes casos geralmente é a pior possível.
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“A família busca o especialista para convencer a criança ou o adolescente de que isso é errado, que ele mude de ideia. Realmente é difícil aceitar que a menina não é mesmo uma menina. Mas tentar mudar isso a todo custo é uma luta insana”, frisa a psicóloga. 
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Ela pondera ao informar que apenas 5% das crianças com disforia de gênero são de fato transexuais, mas alerta que isso nem sempre é uma fase. “Pesquisas apontam que existe um homem transexual a cada 100 mil mulheres”, argumenta.
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  NÃO LIGAVA EM GANHAR BARBIES. EU AS NAMORAVA 

De cabelo moicano e piercing no nariz, Samy emposta a voz, anda de pernas abertas e chama a atenção das mulheres. Poucos desconfiam de seu passado e dos documentos femininos. Às vezes é visto como um adolescente gay, jamais como mulher. Segundo ele, o pensamento e o comportamento masculinos são nítidos desde a fase escolar. 

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“Eu sempre estava na fila de garotos, não me sentia bem por entrar em banheiro feminino, e adorava ficar sem camiseta. A direção falava para eu me comportar como menina, mas eu agia normalmente.” afirma. Nas brincadeiras, preferia as pipas e os carrinhos do irmão mais velho. Porém, esperto e com uma imaginação fértil, ele não encarava as Babies como rivais. Elas eram suas namoradas! Não era raro flagrá-lo beijando “suas esposas” pela casa.
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“Tenho essa consciência desde os quatro anos”, garante ele, que prova com fotografias o desgosto pelo universo feminino. “Nesta foto, estou chorando porque minha mãe colocou um vestido”, aponta. Outro momento que destaca é quando fingia se barbear. “No banheiro, com 12 anos, eu passava o creme de barbear no rosto. Mesmo sem pêlo nenhum, eu sentia bem fazendo isso. Era como se fosse me tornar menino.”.


Regis Vascon acredita que não precisava passar por certas experiências na infância

  BATIA NOS MENINOS PARA ME SENTIR HOMEM 

“Minha infância foi traumática. Aos seis anos, eu sequer andava e raramente falava”, afirma o guarda municipal e estudante de direito Regis Vascon, homem transexual de 38 anos. “Se eu não passasse por tantas coisas, hoje eu poderia ser uma pessoa muito melhor”, reflete. 


Com uma estrutura familiar de pilares frágeis, Régis conviveu na infância com um avô agressor, uma mãe de pouco diálogo, ensino tardio e muito medo. “Eu me sentia diferente, pois sabia que não era igual às meninas. Mas não conversava a respeito por medo de as pessoas pensarem que eu era louco”, declara. 

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Na escola, Regis virou motivo de chacota pela aparência masculina e tornou-se agressivo. “No 1º colegial, adorava bater nos meninos que faziam piadas sobre mim. Parecia que eu reafirmava que era homem quando eles apanhavam. Sentia que era mais homem que eles, entende?”
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 ADOLESCÊNCIA E HORMÔNIOS 

Adolescência. Flertes. Namoros. Explosão de hormônios... FEMININOS! Algo desesperador para qualquer homem transexual, que se vê diante de seios crescentes e questões extremamente femininas como a menstruação. 


“Passei os 14, 15 anos sofrendo. Quando tive minha primeira menstruação fiquei um ano e meio sem contar para ninguém. Eu morria de vergonha”, declara Samy. 



Regis só se descobriu trans aos 33 anos

Na adolescência de Regis, as amigas balançavam seu coração, mas... “se apaixonavam pelos nossos amigos, os homens.”  Com uma raiva impronunciável _ Regis também não tinha consciência de sua transexualidade, era definido como lésbica _ ele abandonou talvez o seu maior dom: a arte de desenhar. 
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“Era um adolescente rebelde, mas tinha o dom de trabalhar com paisagismo. Cheguei até a ganhar uma bolsa e colocava tudo em um varal no meu quarto. Em um dos excessos de revolta, rasguei todos os desenhos. Isso me marcou muito e, daquele dia para cá, nunca mais desenhei na vida”, lamenta..
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 É UM MENINO MESMO? 

“O principal tratamento familiar nos casos envolvendo transexualidade é o luto”, declara a psicóloga Angélica. “O pai deve, sim, encarar a perda de uma filha. Mas por outro lado, vai ganhar um filho”, argumenta. 


Ela não aconselha a incentivar na infância a mudança total de gênero, pois há a possibilidade de ser uma fase. “O que os pais podem oferecer são opções: colocar uma roupa de menina e uma roupa de menino, deixar que ela escolha. Também temos que ter em mente que existem mulheres masculinas e isso não faz delas transexuais.”


Assim como em muitos lares, a mãe de Regis fazia vistas grossas. Em alguns momentos, até reclamava – “Você só usa roupa de homem, só traz mulher para casa, tem alguma coisa errada” – mas saía de fininho todas as vezes que ele tentava conversar. 



Sammy já teve depressão e tentou se matar

Até que pegou o filho com uma namoradinha na cama e o obrigou a ir à Igreja Batista “expulsar o demônio”. Com tanta pressão, Regis fez as malas saiu de casa. Aos 33 anos descobriu-se transexual, casou-se e, hoje, planeja ser juiz.

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 NA LUTA 

Samy ainda peleja os dilemas familiares. “Com 16 anos, entrei em depressão e quis me matar. Já saí de casa, voltei e hoje, aos 20, como o pão que o diabo amassou”, revela. 

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Na escola, porém, ele conseguiu o direito de ir ao banheiro masculino. Atualmente trabalha como atendente da Faculdade Anhanguera e faz faculdade para ser assistente social. Lá, depois de algumas brigas, ele finalmente conseguiu ser reconhecido como sempre sonhou: um homem
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“A maior alegria é ter o corpo acompanhando a mente. E, claro, ser reconhecido como tal”, finaliza.



 FILHA DE ANGELINA E BRAD AFIRMA SER MENINO 

Com quatro anos, a filha do casal Angeline Jolie e Brad Pitt, a pequena Shiloh, afirma ser um menino. “Ela gosta de se vestir como um garoto, quer ser um garoto. Nós temos que cortar o cabelo dela, pois ela pensa que é um dos irmãos”, disse Angelina. 

O pai Brad, em entrevista à Ophah Winfrey, concordou com a esposa e chegou a dizer que a filha só respondia quando a chamavam de John. “Se eu digo: Shi, você quer... ela me interrompe e diz “John. Sou John.” “Então eu digo: 'John,  você quer suco de laranja?' Aí ela responde: Não!


Angelina e Brad não se importam que a filha vista roupas consideradas masculinas

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

digo san disse...

netim como sempre arrazando

Anônimo disse...

Neto Arrasa :)

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