Entrevista

Última entrevista com Claudia Wonder

Temos que lutar primeiro para que a palavra viado não seja mais palavrão’

"Não acho que exista movimento trans'
Neto Lucon (MixBrasil. 2010)

Atriz, cantora, compositora, escritora, colunista e militante pelos direitos LGBT. A trans multimídia Claudia Wonder (1955-2010) – a minha amig@ Claudia - completaria 57 anos nesta quarta-feira, dia 15.

Infelizmente não terei mais como dar um forte abraço, mas gostaria de relembrar com sinceros sentimentos a última entrevista que fiz com ela, em setembro de 2010, quando Claudia foi a grande atração do Stonewall 40 + o que no Brasil?, em Salvador.

Abaixo, uma conversa entre amigos.

Do rock dos anos 80, passando para o CD FunkyDiscoFashion, como é voltar aos palcos cantando?
Nunca larguei os palcos. Realmente fiquei afastada durante quatro anos, quando fui casada lá na Suíça, mas não conseguiria ficar mais tempo longe. O palco faz parte da minha vida. Na infância, a primeira vez que subi no palco e escutei aplausos, disse: “É isso que eu quero”. Hoje é exatamente a mesma coisa: O aplauso é a grande terapia para o artista. É a grande cura.

Claudia, sente saudades do rock? 
Tenho, adoro o rock. Gostaria até de lançar um CD retroativo com minhas músicas dos anos 80. Mas também sou bem eclética, tenho vontade de cantar bossa nova, músicas no estilo da Maysa. Também algo mais atual para casas gays.

Com carreira consolidada, você foi à Europa no final da década de 80 e só voltou de vez ao Brasil 11 anos depois. Qual foi mudança que você observou no cenário gay?
O brasileiro estava mais tolerante. Antes, a gente era xingado na rua todos os dias. Era “viado” pra lá, pra cá, toda hora. E, quando voltei, não tinha mais isto. Depois, notei que aumentou quantidade de gays assumidos. E também a organização. Voltei em 98 e já havia muitos grupos reunidos por todo o Brasil, a Parada. Não teve nada de negativo. Negativo eu vejo hoje, que deu uma estagnada.

De qual maneira? 
O gay já se sente aceito, mas é um aceito entre aspas. Apesar de termos uma consciência maior, é só ir a vários lugares do Brasil para ver que ainda existe muito preconceito, intolerância, que ele não é aceito coisa nenhuma. Há pouco tempo fui à feira, e um feirante gritou na frente de todos: “meu pai me fez macho”.

Atualmente muito se fala em casamento gay, beijo gay em novela nas 21h. Em sua opinião, qual é o grande direito que os LGBT deveriam ir atrás?
As coisas podem chegar por aí, mas o Brasil é um país teimoso. Foi o último a abolir a escravidão. Penso: Será que não existe algo mais próximo para irmos atrás? Primeiro, acho que a gente tem que lutar para que a palavra “viado” não seja mais palavrão. Porque, enquanto o gay não for respeitado como pessoa, enquanto for comparado a um animal e ainda achar graça, enquanto ele não tiver coragem de assumir em qualquer lugar - eu disse, em qualquer lugar - tudo fica mais complicado.

Você acredita que o movimento trans é unido? O que poderia ser feito?
Eu acredito, na verdade, que não existe um movimento trans. Acompanho grupos, discussões, mas a coisa é tão caótica que não consigo ver políticas públicas realmente eficazes. Elas querem mudar o nome, a cirurgia de mudança de sexo. Mas acompanho noticiários, e vejo que todos os dias pelo menos uma travesti é assassinada no Brasil. E quando alguém mata uma travesti, ele quer mostrar que matou um viado, um gay, que está em um alvo fácil, que é a rua. A solução seria tirá-las da rua, mas infelizmente a maioria é puta. Pois quem quer trabalhar, consegue.

Durante sua passagem pelo Centro de Referência da Diversidade, você teve contato com pessoas sujeitas à vulnerabilidade social. Qual foi seu maior aprendizado nesta experiência?
Só sai da situação quem quer. Não adianta insistir em ajudar quem não quer ser ajudado. Quem quer trabalhar, trabalha. Quem quer estudar, estuda. Uma bicha, que tinha família rica e até apartamento, chegou para mim e disse: Claudia, você já passou pela sua cabeça que eu realmente gosto da maloca?

O que sentiu ao ver toda sua trajetória retratada no documentário Meu amigo Claudia?
Foi gradual.  No começo, fiquei muito feliz, chorei ao ver meu trabalho recompensado. Depois, foi muito difícil. Porque, quando estamos sofrendo, não temos a dimensão da dor, mas quando você assiste e ouve comentários falando sobre o seu sofrimento, você começa a refletir. Fiquei muito deprimida, também pela exposição, mas agora a alegria é imensa. Principalmente pela receptividade dos jovens. Houve uma exibição em Minas Gerais e alguns gays e lésbicas me disseram: Claudia, você me deu mais gás para continuar.

Um documentário, apesar de retratar grandes momentos de uma vida, acaba deixando de lado alguns episódios marcantes. Você acrescentaria algum episódio?
A minha questão intersexo. Não sei o motivo que não entrou, mas para mim era algo muito importante.

O que diria aos seus fãs que acompanharam a entrevista aqui?
Não tenha medo de nada. O grande culpado de tudo que atrapalha nossa vida é o medo.

Claudia em apresentação em março de 1986

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

6 comentários:

henrique disse...

não ter medo!

Neto Lucon disse...

Esse é o maior ensinamento que ela me deu! :D

sidarta-sp disse...

Foi uma ótima entrevista...!ela disse verdades que normalmente as pessoas no mundo LGBTTs jamais fariam mas que é faz parte do nosso cotidiano. Agra qto a ser aceito/a eu acho que jamais seremos aceitos pelos outros antes de sermos aceitos por nos mesmos...e sempre que vejo alguém falar de ser aceito coloca sempre na sociedade esta opção mas ela só tem importância quando nos nos aceitamos.

sidarta-sp disse...

As vezes Henrique o medo nos ajuda a preservar a vida e a coragem pra continuar...Os inimigos existem e estão prontos pra tudo. Todo cuidado é pouco...a violência contra os grupos LGBTTs tem crescido as custas da impunidade e falta de leis especificas. Mas temos que enfrentar e seguir adiante neste luta desigual atrás dos nossos direitos.

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Cláudia, como toda grande artista e transgressora, era controversa, o que não é um mal em si, pode ser o contrário, pode ser até um sinal de quem se adapta mais rapidamente às mudanças e, inclusive, provoca mudanças. Tem coisas que eu concordo, outras, não. Não sei, por exemplo, se "quem quer trabalhar trabalha", no caso especifico das trans e travestis. Bem como não sei por que a prostituição têm que ser condenada sempre. Oferecer opções, ok! Acabar com a prostituição, não , por que muitas prostitutas travestis ou não podem sentir prazer e gostar dessa profissão, qual o mal? Questiono muito o que é oferecido em troca por algumas ong's: artesanato , cabeleireira e etc. , mas que não se compara aos ganhos provocados pela prostituição. Portanto, difícil escolher aí...
Cláudia, se tivesse vivido num outro país mais humano e que valorizasse a cultura e a criação seria hoje um mito mundial. É isso que eu tento chamar a atenção. Só que aqui não se valoriza a cultura e arte, e quanto mais provocação, mais marginalidade. Sinto falta dela, muito. Sentava ao seu lado no Casarão Brasil e passávamos a tarde toda papeando e assim um aprendeu a valorizar ainda mais o outro... portanto me emociona o seu carinho, Neto, na preservação de nossa sempre tão frágil memória.
Beijo e obrigado,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Tiago Bassani disse...

Acho admirável sua força e sua coragem. Ela tem licença poética pelo ser que era e que ainda é!

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