Realidade

Assassinato de Alexandre Ivo, de 14 anos, reacende debate sobre crime de ódio e necessidade da lei anti-homofobia


Por Neto Lucon (2010/ Junior)

"A gente se prepara para perder as pessoas. Não alguém que tinha uma vida inteira pela frente. Hoje é como se eu afundasse todos os dias em um poço que não tivesse mais final”, desabafa Angélica Ivo, mãe de Alexandre Thomé Ivo Rajão, adolescente de 14, torturado e assassinado na madrugada do dia 20 de junho de 2010, em São Gonçalo, Rio de Janeiro.

Trata-se de um crime de ódio. Cogita-se um crime de ódio por homofobia. Não que Alexandre seja obrigatoriamente gay, uma vez que nunca revelou a sexualidade para a família. Mas pelas amizades, alguns delas gays, a quem defendeu numa festa de comemoração ao jogo do Brasil, na Copa do Mundo da África do Sul.

A história conta com a ação de grupos skinheads, brigas e intolerância. Três suspeitos estão em prisão preventiva e aguardam o julgamento. “Eles mataram meu filho por enforcamento. Meu filho não teve direito de defesa. Eles terão”, revolta-se a mãe.
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SEM COMEMORAÇÃO

A noite de domingo, 20 de junho, era de alegria: o Brasil foi campeão no jogo contra a Costa do Marfim, por 3 a 1. Angélica sabia que o filho mais novo comemorava ao lado de amigos, em um churrasco. Mãe e filho haviam brigado por Alexandre dormir fora de casa, na sexta-feira, 18, sem avisar. Após um leve castigo, autorizou o garoto a ir à festa. Imaginava ser uma reunião só de adolescentes. Enganou-se.

No dia seguinte, Alexandre não voltou para a casa. O que poderia ser mais uma rebeldia, algo incomum para o jovem, tido como respeitoso e responsável, tornou-se o maior pesadelo para a mãe. “De manhã, ao notar sua falta, comecei a ligar para os números que estão anotados na última página do caderno dele. Depois fui até a Praça Zé Garoto, onde os jovens costumam se encontrar”, detalha. Para Angélica, o filho estava com medo de voltar para a casa depois de desobedecê-la novamente.

Aflita, mas sem alternativas, esperou. Na manhã de terça-feira, recebeu a ligação de uma amiga. Ela dizia que o jornal local de São Gonçalo anunciava a morte de um adolescente com as características próximas às de Alexandre. Nem Angélica, nem o avô e nem a irmã queriam acreditar se tratar da mesma pessoa. “É um desespero tão grande que não dá para explicar a dimensão. Você torce para que não seja, mas infelizmente é. Quando meu pai chegou com o jornal, eu o reconheci pelas pernas. Falei: é meu filho.” Angélica foi direto ao IML.

O CRIME

Asfixia mecânica, enforcamento com a própria camisa, graves lesões no crânio, provavelmente causadas por agressões com pedras, pedaços de madeira e ferro. Esse é lado da morte de Alexandre feito pelo Instituto Médico Legal.

Saindo de uma festa, o jovem esperava por um ônibus, no bairro Mutuá, com a intenção de voltar para a casa. Às 2h30 foi a última vez que foi visto vivo.
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De acordo com depoimentos na delegacia, houve uma briga na casa da comemoração. Apesar de Alexandre não ter ligação direta na confusão, seus amigos (dois deles gays) acabaram sendo agredidos por três homens, dois de 22 anos e um de 23. Segundo depoimento, que faz parte do inquérito, “os três indivíduos chegaram batendo em todo mundo, após o telefonema de uma mulher da festa, que mentiu dizendo ter sido agredida”.

Acompanhados de Alexandre, os amigos registraram queixa de agressão na 72ª Delegacia de Polícia, de São Gonçalo, e voltaram no mesmo local da festa para passar a noite. Alexandre foi o único a querer voltar para a casa. E morrer. Às 10h da manhã de segunda-feira, 21, seu corpo foi encontrado em um terreno baldio no Jardim Califórnia.

O IML informou que sua morte ocorreu por volta das 4h, o que permite concluir que o jovem sofreu pelo menos uma 1h de tortura nas mãos dos assassinos.
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LEI CONTRA HOMOFOBIA

Alan Siqueira Freitas, Eric Boa Hora Bedruim, e André Luiz Cruz Souza serão acusados de praticar homicídio duplamente qualificado por motivo torpe. Logo nas primeiras declarações, o delegado Geraldo Assef, da 72ª DP (Mutuá), afirmou suspeitar que o crime tenha sido praticado por skinheads e motivado por intolerância à orientação sexual.

“Recebemos declarações de amigos da vítima de que esses rapazes pregam o ódio a homossexuais. Não sabemos se são skinheads, mas não temos dúvidas de que o motivo do crime foi homofobia”, declara o delegado. Caso o Projeto de Lei da Câmara 122/06, que combate à Homofobia, fosse aprovado no Senado, certamente o crime seria enquadrado nessa lei. Lei que anda a passos lentos para ser aprovada.

No plenário, a senadora Fátima Cleide, do PT de Roraima, discursou sobre homofobia segurando uma foto de Alexandre Ivo. Ela cobrava a aprovação do PLC 122/06. “Esse garoto teve muita coragem. Aos 14 anos de idade assumiu a sua orientação sexual e morreu por isso. E a nenhum cidadão deste país é dado o direito de tirar a vida de uma pessoa por conta da sua identidade de gênero ou da sua orientação sexual”, afirmou em tom de revolta.

Membro da Frente Parlamentar em Defesa da Criança e do Adolescente e coordenadora da Frente Parlamentar e da Cidadania LGBT, Fátima salientou que os crimes de ódio contra os LGBT são assustadores e lembrou que a cada dois dias um LGBT é assassinado (GGB). “O Brasil não pode permitir esta barbárie”, disse.

A mãe do garoto, apesar de não afirmar que ele é gay, não se incomodou com a referência. “Houve um crime que foi motivado por ódio, por intolerância. A senadora se portou a ele como homossexual, mas eu não me incomodei. Ela está brigando por uma lei, por uma lei que criminaliza a intolerância, acho que é válido”, disse.

Segundo Angélica, em recente conversa com uma juíza, existe a possibilidade dos suspeitos serem soltos. “Antes eu não sabia nem o que significava a palavra homofobia. Hoje vejo o quanto é difícil os direitos LGBTs.”

O presidente do grupo LGBT Liberdade, Well Castilhos, que presta ajuda à família de Alexandre, declarou que embora o crime tenha iniciado em um contexto doméstico existe a referência da homofobia. “Atos homofóbicos nem sempre acabam em assassinatos e mortes, mas muitas vezes terminam em crimes de ódio como este. E é exatamente por estes atos serem banalizados, que muitas pessoas se sentem livres para xingar, discriminar e cometer crimes de homofobia. O gay é sempre associado à fraqueza”, argumenta.
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PRESENÇA NO MOVIMENTO GAY

Uma semana depois da morte do filho, Angélica esteve na 7ª Parada Gay de São Gonçalo para pedir justiça. Quem a viu, se comoveu, apoiou e cogitou: a mãe finalmente reconheceu que o filho é gay. Mas não é bem assim. Sem preconceitos, ela viu a possibilidade de levantar o caso na mídia, que não deu a mesma importância e repercussão a barbáries semelhantes como a de Isabella Nardoni e João Hélio.

“Apesar disso, não vou dizer o que as pessoas querem ouvir. Não vou dizer o que meu filho nunca disse para mim”, confessou a mãe, que aceitaria a possível homossexualidade de Alexandre. “Não mudaria em absolutamente nada. Teria amado, respeitado, exigiria a mesma conduta que nossa família tem. A identidade sexual é o que menos importa. Ele era um adolescente maravilhoso, conversava com todo mundo, estava sempre animado.”

A mãe conta que topou participar do evento LGBT, principalmente pelo grupo Liberdade não questionar a orientação de Alexandre. “Só cheguei à mídia através desse movimento, de um grupo que me deu as mãos. São pessoas que não se preocuparam principalmente com a identidade sexual do meu filho. Afinal, ele era um menino que estava na flor da adolescência, ainda estava se descobrindo”.

De acordo com ela, alguns grupos LGBTs estão usando o assassinato de Alexandre para se promover. “Aparecem oportunistas, como o grupo Atitude, que usa o nome do meu filho para se auto-divulgar. Disseram que ele estava organizando a Parada, mas isso é mentira. Eu nunca fui procurada por eles e eles não ajudaram em nada na minha dor”, desabafou.

PETER PAN

Para dizer quem é em sua página no Orkut, Alexandre Ivo reproduz um discurso de Pedro Bial. O mesmo destinado ao participante colorido Serginho, em sua eliminação no Big Brother Brasil 10. “É Peter Pan, a criança que não cresceu e sabe voar. Quer aprender? Quer voar? Pense numa coisa boa, pense numa coisa bem boa. É só pensar em coisa boa que a gente voa (...)”.

Alexandre não teve a oportunidade de crescer, mas durante sua curta vida encheu de exemplos os familiares e amigos. “Era uma pessoa que foi criado na Igreja Católica, mas depois se identificou com evangélicos. Que estudava em escola particular, mas tinha amizade com os de escola pública. Que não discriminava ninguém, nem por cor, orientação sexual, renda, por nada. Lembro que ele vivia levando as amigas para a casa e depois voltava sozinho. Eu falava: ‘você leva os outros embora e depois vem sozinho a essa hora?’. Ele dizia: ‘mãe, não tem problema’.”  
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DIFÍCIL COTIDIANO

Alexandre foi enterrado no dia 21 de julho. No dia 29 era o aniversário de sua irmã, Paula, de 17 anos. “Foi um vácuo”, diz a mãe, que recebeu amigas da filha para distrair e amenizar a dor. Elas chegaram a levar um bolo, mas a ausência de Alexandre pesou. “A cada ano sabemos que pode faltar alguém, mas a gente nunca espera perder alguém que tem uma vida toda pela frente. Ele queria ser engenheiro e era extremamente amoroso com a família e amigos”, chora.

Dois amigos do garoto, uma menina e um menino, procuraram Angélica dias após o enterro. Eles estavam sendo ameaçados. “Ligavam e faziam ameaças para eles. A menina sofria ameaça da tia para mudar o depoimento, uma vez que o individuo que está preso é primo dela. Eles ficaram em casa”, conta. Três testemunhas do crime que prestaram depoimento estão sob proteção policial.

Tendo voltado a trabalhar em uma imobiliária, Angélica ainda sofre ao falar sobre o assunto e traça planos a curto prazo. “O caso ainda está em tramite. Nesse primeiro ano, quero que tenha um julgamento, vou acompanhar, vou cobrar. Preciso que seja falado, comentado...”

Para ela, o mais difícil é levantar da cama todos os dias. “Era meu filho que me acordava. Dava um beijo e dizia que me amava. Hoje eu não tenho mais isso. Será um buraco eterno na vida de todos nós.”

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

André Belido disse...

Era apenas uma criança, uma criança inocente, morta por adultos indignos de ser chamado de SER HUMANO. Independente de sexualidade, todos merecem respeito, somo humanos !!!!

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Obrigado por manter viva essa outra coisa que é tão vilipendiada entre nós, hoje, Neto, que é a memória. Ando extremamente cansado da tragédia homofóbica que decora este país triste há mais de 30 anos, vergonhosamente. E pior, agora corremos o risco de ter uma PL 122 traída e mutilada, de acordo com o que evangélicos fundamentalistas e políticos oportunistas querem e impõem. E ainda posam de aliad@s de LGBT's...
Memória, aqui, não é algo conveniente. Vide o assassinato de Edson Néris, em 06 de fevereiro de 2000 e hoje totalmente esquecido, apesar de ter sido o mais midiático e emblemático caso da homofobia brasileira. Edson Néris foi morto por 22 neonazistas que hoje estão todos soltos , andando por aí e alguns com perfil no Facebook e ainda promovem baladas gays em Santos.... chique, né?
No entanto, voltando nesse papo de memória, Matthew Sheppard que foi assassinado em 1998 nos Estados Unidos, tem já três filmes contando sua história, mas dezenas de sites, sua mãe fundou uma ong contra a homofobia e etc. etc. etc. ... lá preservam a memória, não são burros como aqui, pessoas desesperadas apenas pelo imediato e sem reconhecimento. Se você digita "Edson Néris" no Google, vem 25.400 resultados. E se digita "Matthew Sheppard" vem 6.300.000 ... não é para refletir? Fora que Edson Néris é um nome comum, portanto é menos ainda...
Tristemente,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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