Entrevista

Maurício de Sousa anuncia Marina como sucessora e diz: 'Muitas crianças foram alfabetizadas com a Turma da Mônica'


Conversar com o homem que me ensinou a ler precocemente, através de seus gibis, foi uma sensação única e inesquecível. Em 2008, entrevistei o cartunista Maurício de Sousa, o pai da Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e companhia..

Na época, ele estava lançando a "Turma da Mônica Jovem" - com os personagens do gibi na adolescência e contou detalhes da nova empreitada, bem como os possíveis novos projetos. Pela primeira vez, ele falou sobre um gibi jovem com Chico Bento! Veja:

- Mais que entreter o leitor, você acredita que os gibis auxiliam na educação de uma criança?


A proposta original não é essa. Mas ele tem potencial para se transformar em educativo. Tanto que milhares de pessoas são alfabetizadas com a turma da Mônica. É um incentivo à leitura. Eu mesmo aprendi a ler com o gibi. Depois queria mais, daí parti para os livros .

- Existe a preocupação de trabalhar a inclusão social?

Tranquilamente. Já que temos consciência da força do carisma dos personagens e de que estamos falando do leitor criança, por quê não trabalhar a inclusão? Vamos trabalhando bem suavemente. Falamos como se estivéssemos na mesa de café, e sobre qualquer assunto. Você deve escolher as palavras, o clima, a informação, a mensagem.

- Você lia muitas histórias em quadrinhos quando criança. Quais eram os gibis?


Ixi, os gibis que eu li são tão velhos que o pessoal é capaz de não saber (risos). São Popeye, Ferdinando, Brucutu e Espírito, este último é uma história policial que é considerada a melhor história em quadrinhos do mundo. E outros de ficção, claro.
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- São décadas de sucesso. Como você explica a contínua popularidade da Turma da Mônica?

O sucesso não tem segredo, nem fórmula. Ele acontece em cima de fatores que vão se somando. Eu me preparei para fazer o que faço, gosto de fazer, e aprendi administrar o processo. E é claro que tem que ter um pouquinho de sorte.

- Atualmente você acompanha a produção das histórias?


Acompanho toda a produção e roteiros. Procuro orientar, avaliar, sugiro algumas coisas. O desenho fica na responsabilidade de Alice Takeda, que é minha esposa.

- Quais são os comentários que mais escuta atualmente?


O que mais ouço é: “Aprendi a ler com você”, “Eu sou publicitário, advogado, escritor graças a você”. E outros do tipo: “Meu filho era cascão até pouco tempo”. Para essas mães digo que essa fase sujinha vai passar, que todos vão sobreviver (risos).

- É verdade que você pretende criar novos personagens inspirados nos seus filhos?


Apesar de ter muitos filhos (são 10 ao todo), eles vão esgotando os personagens. Estavam faltando as gêmeas, que estão no número 2 da Turma da Mônica Jovem. Falta o Marcelinho, o meu caçula, que é tido como organizadinho. Até desenhei o personagem, mas ele está evitando. Todos ficam lisonjeados, menos a Mônica, que fala que não é tão brava assim. Mas ela continua sendo (risos).

- E como está a Mônica atualmente?


Ela é diretora comercial da empresa Mauricio de Souza. E está cada vez mais atuante nessa área.

- O público tem aceitado a mais recente versão a Turma da Mônica, a jovem?

Está me surpreendendo. Os leitores jovens, inclusive crianças e adultos, estão indo atrás e gostando. Em termos gráficos, a Magali tem sido bastante elogiada. Ficou elegante, bonitinha.

- A que se deve a ascenção de determinados personagens, como a Tina (ela ganhou uma revista própria)?


Eu acho que é o nicho do mercado que o personagem vai preenchendo. Não é tão fácil de você planejar. É meio bolsa de valores, você não sabe quando vai cair, subir. E quando vemos que vai subir, temos que investir mais.

- A sua filha desenhista Marina, que também é uma das personagens, trabalha com você?


A Marina trabalha comigo, está me ajudando nas avaliações das histórias em quadrinhos. Ela também ajuda a Alice (mulher de Maurício) na avaliação de desenhos. Ela está com 23 anos e caminha para ser minha sucessora.
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- E o Chico Bento?

Ele deve ficar jovem?Inevitavelmente virá, mas não quero pensar nisso agora. Quero fechar o ciclo da Turma da Mônica jovem para depois pensar no Chico Bento Jovem. É um desafio. Não sei se ele vai plantar soja, se vai se formar em algo voltado a agricultura. Preciso pensar.

- Li em uma entrevista que Bidu, Horácio e Jotalhão têm muito da sua personalidade. Eles retratam o próprio Mauricio de Souza nas histórias?


Não é bem assim. Quando usamos animais, podemos fabular mais, dizer mais do que achamos, satirizar, fazer gozações. E com os personagens humanos você tem que ater à característica da personagem. Uma menina como a Mônica, por exemplo, não pode ter determinados tipos de comportamentos. E o animal pode falar mais da porção das coisas, fazer paródia sobre a sociedade. Pelos animais falo mais de mim. É assim com todos os fabulistas.


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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