Entrevista

Entrevista Mister Diversidade 2011

"Nunca tinha passado pela minha cabeça
que iria me apaixonar por um homem"
"Não sabia que era gay até os 24"

Neto Lucon *Yahoo!

O paulista Antonio Guilherme é aquele homem que faz muita mulher virar a cabeça. E até os 24 anos, o jovem que trabalha como modelo correspondia tranquilamente tais olhares. Depois, descobriu-se apaixonado por um homem e, aos 28, utilizou de sua beleza para participar e vencer o concurso que elegeu o gay mais bonito do Brasil, o Mister 
BrasilDiversidade 2011. 

A informação, apesar de comemorada, promete pegar a família do modelo de surpresa. Detalhe: ele não é assumido aos pais, nem contou que participou do concurso realizado na quinta-feira, 23, em São Paulo. Consciente da possível repercussão, Guilherme garante que não sofrerá preconceito e que não se incomoda com as piadinhas em torno de sua sexualidade. 

Em entrevista exclusiva ao Yahoo!, o gay mais bonito do Brasil contou detalhes de sua vida pessoal, a descoberta da sexualidade, e do que pensa sobre Jair Bolsonaro. 

Você é representante da comunidade LGBT. Acredita que ainda hoje eventos como a Parada do Orgulho Gay sejam importantes? 
É de extrema importância. Muita gente pensa que a Parada é só festa, um carnaval fora de época, mas não são apenas os gays que vão. São casais héteros, famílias tradicionais, avós, crianças... E eles vão com aquela consciência de prestigiar a comunidade e acabar com o preconceito, com a homofobia, que ainda é grande. 

Você sempre soube que era gay?
Não, tenho 28 anos e até os 24 só ficava com mulheres. É verdade: nunca tinha passado pela cabeça que poderia me apaixonar por um homem. Depois dos 24 descobri o outro lado muito interessante, que gostei muito. A descoberta veio com um colega do trabalho há bastante tempo. Depois de uma troca de olhares, foi me dando aquela curiosidade, querendo conhecer um pouco mais. Foi aí que tive meu primeiro caso homossexual. 

Após a primeira experiência, você entrou em crise?
Foi complicado, não sabia se era gay mesmo. Fiquei pensando no que as pessoas iriam pensar, o que iriam dizer de mim, essas coisas. Mas hoje penso assim: quem cuida da minha vida sou eu. Muita mulher fala: “ah, que pena, tão bonito e tal”, mas a felicidade da gente é que conta. Sou feliz independente da minha orientação sexual. Quando você está bem com você mesmo, isso também passa para as outras pessoas.   

Como foi assumir a sexualidade para sua família? 

Não me assumi (risos). Mas agora eles vão ficar sabendo, né? Até tive um namorado durante quatro anos que visitava a casa dos meus pais, dormia comigo no mesmo quarto, tinha o amor da minha família. Mas era aquela coisa: ele passava por amigo. Acho que minha família sabe, não pela minha boca, mas agora vai saber. 

E como acha que será a reação?
Acredito que eles vão aceitar, de boa, vão me respeitar. Sou homem, não deixei de ser homem. A postura é a mesma, a única diferença é que gosto de outro homem.

Mas você sabe que com essa exposição vai ser alvo de muitas piadinhas...
Independente de qualquer coisa, respeito vem em primeiro lugar. Até hoje não sofri nenhum tipo de preconceito e tenho certeza que não vou sofrer. Piadinha todo mundo faz, a gente também faz, inclusive entre nós. Uma piada é uma coisa, falta de respeito é outra. Se souberem diferenciar piada de ofensa, tudo bem. 

Mas afinal de contas, por que decidiu participar de um concurso que elegeria o gay mais bonito? 
Sou modelo, sempre investi nessa carreira e gosto de estar em evidência. Achei que essa poderia ser uma oportunidade para eu me lançar, ter visibilidade. Vi o anúncio do concurso dias depois do término das inscrições. Liguei, enviei minhas fotos e vim participar. Embora não seja de Rondônia, fui o representante do Estado, assim como outros misters representaram outros locais. 

Você é do interior de São Paulo e já está de malas prontas para ficar na capital. É por conta da faixa de Mister?
Independente do concurso, meus planos já era de vir para São Paulo. Confesso que, por ter ganhado o Mister Diversidade, vou antecipar a vinda e semana que vem já estarei por aqui. Até porque a organização do concurso vai precisar de mim. Nos próximos dias vou posar para a revista “ACapa”, voltada para o público gay, também estarei no carro do Disponível na Parada do Orgulho gay, além de outros compromissos com a faixa de Mister Diversidade.

Depois do concurso, passou a se informar mais sobre as notícias da comunidade? O que acha das declarações do deputado Jair Bolsonaro?
Acompanho os assuntos da comunidade gay e agora mais do que nunca procurarei informações. Vi que a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecida e considero isso muito importante. Afinal, o relacionamento é igual a qualquer outro. Só porque são dois homens ou duas mulheres não podem ser reconhecidos como um casal? Agora, é complicado falar sobre o Bolsonaro. Só digo uma coisa: todo mundo tem o direito de pensar o que quiser, mas todo mundo tem o dever de respeitar o espaço do outro. É isso.
"Todo mundo tem o direito de pensar o que quiser"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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