Entrevista

‘Antes de morrer, minha mãe me pediu para não operar’, revela Nany People

Neto Lucon ( revista JUNIORl/ 2010)

Em 2002, a drag Nany People foi convidada para participar do reality show Casa dos Artistas, no SBT. Negou. Afinal não queria aparecer de homem na televisão. Oito anos depois, já como mulher transexual, ela apareceu linda, siliconada e desbocada na terceira A Fazenda (Record). Quinta eliminada, há quem diga que o programa valeu somente até a sua participação, repleta de gargalhadas, brigas e cuidado de mãe com os participantes. 

Entrevista foi feita em 2010, na mesma semana em que Nany saiu de A Fazenda. Foi a primeira que fizemos. 
"O mundo gay encarou muito mal quando deixei de ser
drag queen e me assumi transexual"
Na Casa dos Artistas você disse que entraria como Nany e acordaria como Dunga, mas atualmente você é 100% Nany. Como se descobriu transexual?
Eu sempre soube. Quando eu tinha uns quatro anos já era bem visível essa minha condição. Com seis anos eu mudei para Poços de Caldas e foi um choque. Na escola, eu não pude sair no recreio no dia seguinte. Todo mundo percebeu que eu era muito diferente dos meninos e gritavam “mulher do padre, mariquinha”. Não era nem bullying, era Tieta sendo escorraçada mesmo. Minha mãe foi até chamada e eu não pude ficar na escola. Fui para um colégio de padre e lá eu descobri a carreira artística. 

Você se montou pela primeira vez com quantos anos?
Com 18 anos eu me montei em Poços. Era um bloco de carnaval de caricatos, mas eu fui de bonita. Meu irmão foi para brincar, mas eu fiz a gostosa, eu acreditava. Ali não parei mais. Quando tinha festa a fantasia de aniversário, eu ia de mulher. Eu me realizava e me realizo até hoje. Lembro que na Fazenda, depois do trabalho árduo que a gente desenvolvia todos os dias, eu me maquiava. Neste momento, o Carlos Carrasco dizia “Nany, é o seu melhor, né?” É aquele lance de olhar para o espelho e dizer: Hora do show pessoal!

Hoje a Nany People é uma personagem ou é seu alter-ego?
A priori era um personagem. Mas eu consegui fazer uma coisa que pouca gente reconhece. Eu trouxe para a Nany People os dotes éticos, morais e pessoais do ator que a faz. Porque tanto como Drag ou como trans eu não correspondia à expectativa do que achavam que fosse. Não fiz o que esperam que uma trans faça, que é andar com o peito na bandeja. Na Fazenda, mesmo, os vestidos eram todos no joelho.

Você foi uma das primeiras drags a querer colocar peito, investir na aparência 100% feminina. Foi difícil?

Foi muito difícil, pois isso implicava muita coisa. Implicava, além de uma mudança radical no meu jeito de ser, na minha própria sobrevivência. Eu deixei de ser drag e a comunidade gay reagiu muito mal. O público em geral achou um absurdo. É por isso que eu faço uma critica à comunidade GLS, que fala sempre em respeito. Como é que querem ter respeito, sendo que não respeitam a própria classe? 

Quando decidiu definitivamente assumir a Nany transexual?
É assim: Quando você tem 20 faz tudo para ser aceito. Com 30, você olha para o seu umbigo. Com 40, quando você descobre que a metade da ampulheta já caiu a areia, você não pode mais fingir que sabe, você tem que estar declamando. Então quando eu cheguei perto dos 40 eu disse: Não quero fingir que eu tenho, quero estar possuindo. Fui para Portugal fazendo uma matéria e voltei deprimida, porque eu estava namorando um cara, que sempre me via montada e bonita. Quando eu cheguei de viagem, ele foi me visitar sem me avisar. Ao abrir a porta, ele perguntou: “Por favor, a Nany está?” Pensa bem, ele conhecia a Morticia, daí a abre a porta e aparece o Tio Chico. Tive uma crise e decidi fazer as mudanças. 

E a cirurgia de transgenitalização?
ENTÃOOO... a cirurgia é igual a fazer lipo, mas ninguém fala do pós. Tenho uma amiga que fez buceta há 8 anos e não conseguiu dar até hoje. Quando alguém fala que é trans não é porque cortou, que tem o papel masculino na cama. Ser trans tem a ver com o seu comportamento. Me perguntaram se eu era ativa, e eu respondi: “Sim, eu dou primeiro”. Eu ia fazer uma cirurgia com 28 anos, mas minha mãe pegou um ônibus e me proibiu: Pelo amor de Deus, não faça isso. Se você acha que buceta prende homem, buceta não prende ninguém. Aí eu entendi!

Você tem uma personalidade forte, não pensou que participar de um reality show fosse prejudicar sua carreira?

Sou respeitada na minha vida pessoal justamente por ser assim. O problema é que na televisão tudo fica muito maior. Tenho como filosofia de vida que as pessoas fazem com a gente o que a gente deixa. 

Chegou a ver alguma coisa antes do programa?
Não cheguei a ver nada. Procurei um vídeo no Youtube e vi a briga do Theo Becker. Achei uma bobagem. Mas quando você está lá, descobre que qualquer conceito daqui não se aplica. Lá é outra coisa. Ficar sem água, sem gás, com um microfone gritando na sua orelha não era tão simples. Vi que temos uma sociedade muito complicada, serviu para confirmar a tese: vivemos numa total inversão de valores. Quem é bom é idiota. Quem é honesto é babaca. Quem é carinhoso é carente. Quem fala a verdade é besta. A gente criou um comportamento de transgredir tanto que a transgressão hoje em dia é normal.

'No Brasil fazer sucesso é
ofensa pessoal'
Quando A Fazenda começou a comunidade gay apoiou principalmente você e a Monique Evans. Mas na primeira semana vocês duas, que estavam na mesma equipe, brigaram. Por quê? 
 Foi o próprio caráter da Monique de ser leva e trás. Ela disse para a Carol que eu disse não gostava dela. Mas essa conversa nunca aconteceu, eu nunca disse isso. Daí a Carol veio conversar comigo, mas não contou quem disse. Daí fiquei louca, porque detesto essa coisa de “falaram”. Eu cheguei e comentei com a Monique, com a próóóópria Monique!!! Depois, quando descobri toda a verdade, entrei com tudo no quarto. É que não mando recato, sou muito transparente, não tento rabo preso com ninguém.

É verdade que você sentiu medo do Tico Santa Cruz? 

Senti. Eu tinha certeza que ele seria o Dourado da minha vida. Eu fui com o discurso todo pronto, armada até o sovaco. Tive algumas diferenças com ele, pois ele é de apavorar o povo, e eu falava “calma aí, pois tem gente que está descarrilhado.” Mas ele foi um lorde comigo. Até no auge daquela briga, eu não entrei para defender o Dudu, entrei para ele parar de gritar daquele jeito. 

E quando ele falou para o Dudu: “Ela é mais homem que você", o que sentiu?
Que ele estava certo. Ele queria dizer homem no sentido de maturidade, caráter, de hombridade. Quis dizer: “ela tem mais caráter que você, tem mais tutano no talo para falar que você”. E isso ficou inquestionável na Fazenda. Eu dei muito baile nele. 

O Dudu só teve alguma popularidade por conta de você... 
Eu criei uma serpente. O Carrasco disse isso para mim: você está criando uma cobra. 

Você defendeu o Dudu em brigas e ele acabou se virando contra você no final da participação. O que sentiu? 
Fiquei magoada. E disse: Como posso ter mergulhado em alguém tão raso? Eu sabia que era raso, mas nem tanto. Eu acredito na redenção, na segunda chance. Acreditava na mea-culpa dele. Mas quando você vê uma coisa atrás da outra, daí você já vê que é um desvio de caráter. Acho que é um mal dessa geração. É uma geração de 20 anos que acha que para chegar ao topo não tem medida. É “o meu”, “para mim”, “da senha”, “do perfil do Orkut”, tem que estar contente, tem que ter um carro bom, tenho que ter um celular da hora, mas não preciso ter crédito porque eu ligo para um idiota a cobrar. Estão acostumados a ter sem ter que pagar por ter. Mas não existe liberdade sem ter liberdade econômica. Canso de ver bichinha que pega a aposentadoria da avó para ir ao Day Gay, sendo que eu paguei para ter o meu Day Gay. 



Apesar das muitas discussões, não vi você chorar no programa. Quando a Nany chora?

Talvez eu tenha mais defesas por ser mais madura. Mas chorei sim. Chorei na primeira briga com a Carol. Quando ela ficou dizendo “ai, não gosto de gente que grita” e eu respondi: “Se for falar alguma coisa sobre mim, fala comigo, pois comigo o buraco é mais em baixo.” Depois veio outra coisa com o Dudu, em que ele disse: “Você nunca transou com mulher?” Eu falei que não e ele soltou “Você não sabe o que está perdendo.” Daí eu respondi: “E você também não, já transou com homem?” No dia seguinte eu fui conversar com a Carol e eu chorei. 

Você achava que seria eliminada?
Eu sabia que ia sair na roça porque, pelas táticas do jogo, eu celebrei a não-vinda dos peões que iam saindo. E no Brasil, como diz Tom Jobim, as pessoas tomam tudo por pessoal. Se você faz sucesso é ofensa pessoal.

Na Hebe você tinha um humor que não falava palavrão. Você teve que se controlar na Fazenda?
A gente fala muito palavrão, né? Lembro de uma carta muito simpática que o diretor mandou para a gente, onde tinha todas as normas, e um comunicado: sejam vocês mesmos. Além disso, o palavrão está no contexto de quem ouve. Por exemplo: bolseta quer dizer bolsa pequena. 

Com o carinho intenso da Mulher Melancia e da Carol, você disse que lá realizou o papel de mãe. Pensa em ser mãe aqui fora? 

Na minha vida eu sou mãezona, tanto que tenho dois hóspedes em casa. Na minha linha da mão também rola uma criança. Já ajudei a criar quatro sobrinhos, mas já vi que a decepção é muito grande também. A ingratidão é uma coisa que eu não gosto. Eu penso, sim, em ser mãe. Não agora porque o vagão da rodovia da vida está uma loucura. 

E os bafões com os jogadores de futebol?
Tive três jogadores de futebol na minha vida. Um foi um flerte de rala e rola, e os outros foram romance de tchaca-tcha. Só isso que posso falar. Em qual time? Eles mudam muito. Eles foram bons e eu não sabia que eles eram jogadores. Fui saber depois. Sou uma porta com futebol. O que me atraiu foi a postura. Eu gosto de postura, pessoa com pegada, atitude. 

Já conhecia o outro participante da comunidade gay, o Carlos Carrasco?
De nome, em algumas festas. E a gente deu muito certo, virou meu amigo, meu confidente. A gente se reunia todos os dias às cinco da tarde para tomar um chá das cinco. Eu me montava para tomar café com ele.

Como pode definir o contato com os animais?  
Foi mágico, de medo e paixão. Eu nunca coloquei a mão na massa, pois não é uma coisa que eu goste. Mas aprendi como a natureza é sábia. A hierarquia funciona. O bicho grande não gosta de bicho pequeno. No nascimento da ovelha, o quintal inteiro ficou quieto. Eu nunca tinha visto. Eu chorava de um JEITO! Acho que de agradecimento ou de inveja (risos). Porque ela pare, e eu não vou poder parir nunca. Filho de Drag é o que? Telletubies. Agora as galinhas eu falava que eram minhas primas. Eu conversava muito com elas. Também lavei as ovelhas e me senti lavando meus poodles. Tenho quatro cachorros. 

Pegaria o modelo bonitão Daniel? 

O tempo todo, e fácil ainda. E até sem tomar banho, porque ele não gosta de tomar banho. Ele é bobo porque não tem pegada. Mas ele eu pegava até assim. Dá uma cuspida e pronto!

Valeu a pena ter participado da Fazenda?

Valeu ter sobrevivido às pessoas. Agora quero projetar minha história, a minha vida, o meu gabarito. Mostrar que sou uma atriz que pode fazer personagem A, B, C, não só a Ninete de Tieta. Estou vivendo um grande sonho. Queria ser artista, queria ser reconhecida e estou conseguindo de uma maneira beeem suave.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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