Entrevista

Cantora Valéria Houston diz: "Tenho que provar que não sou só um negrinho vestido de mulher"

Destaque no programa “Astros” (SBT), a cantora gaúcha Valéria Houston é uma das grandes apostas na semi-final do programa. Depois de embalar “Meu Erro”, na versão de Zizi Possi, a cantora – que curiosamente é membro do universo trans - recebe o carinho e incentivo do público, e estuda outra música para surpreender novamente os jurados.

Em entrevista exclusiva ao blog NLucon, Valéria conta detalhes do programa, carreira e vida particular. Veja:
Valéria diz que ficou em choque quando soube que
Whitney Houston morreu.
Você é um dos destaques do programa “Astros” neste ano. Nunca pensou em se inscrever em um reality show musical anteriormente?
Eu tinha medo, pensava bastante na repercussão, então evitei. Acho, contudo, que o melhor momento foi agora. Tentei me inscrever duas vezes no “Ídolos” (Rede Record), mas nas duas ocorreram imprevistos – como um caos aéreo, em que fiquei presa no aeroporto – então acho que agora é o momento para tentar. E conseguir.

Bastante carismática, você brincou com os jurados, mas soube frisar que estava ali principalmente para cantar. Sempre lidou bem com as brincadeiras?
Procuro ser humorada, mas não sou feliz 24 horas por dia. Humor a gente tem que ter, precisamos nos divertir, mas tenho a consciência de que tenho que provar a todo momento que não sou só um negrinho vestido de mulher. Sou educada, feminina, mas tudo tem um limite e eu não tenho papas na língua.

Você começou a cantar com 6 anos. Desde sempre sua voz é feminina?
Pois é. Deus tira algumas coisas e nos dá outras. Sempre fui feminina e tive essa voz. Comecei quando houve uma competição escolar e ganhei de cara o primeiro lugar. Era uma música do Trem da Alegria, Balão Mágico, sei lá (risos). Mas não foi tão simples no começo, não. Sabia que era uma menina e levei um susto quando a professora me colocou na fila de meninos.

Já sofreu preconceito pela sua voz?
Foi difícil querer cantar. Durante muito tempo, com uns 12 anos, evitei cantar, não queria porque tinha medo que fizessem piadinhas no ouvido da minha mãe: “parece mulher, tem jeito, canta como mulher”. Mas, mesmo assim, sem ter o que falar, eles faziam. Minha mãe ficava meio brava, mas depois entendeu e até dava força. Dizia que se tratava de um trabalho artístico, que era arte. Ela era uma pessoa incrível, sinto muita falta.

"Assim como a verruga de uma
tia, achava que a diferença iria cair"
Sofreu por desempenhar papéis masculinos durante tanto tempo?
É bem curioso... Eu tinha uma tia que tinha uma verruga no rosto, que tirava e depois a verruga voltava. Teve um dia em que vi minha mãe pelada no banho e perguntei: ‘Meu corpo vai ficar igual ao seu?’. E ela, achando que eu estava referindo ao fato de ter pelos, disse que sim. Pensei: ‘É igual a verruga da minha tia, vai cair um dia’. Então, quando era colocada na fila de meninos, pensava que era uma questão de tempo. Que uma hora iria cair a diferença.

O público GLS está acostumado com shows de dublagem. Como se deu sua entrada cantando de verdade neste universo?
Meu maior medo quando vim a Porto Alegre era não ser bem recebida pelas outras artistas. Ninguém cantava e eu era a única. Mas pensei: posso não ser um exemplo máximo de beleza, mas prezo pela minha inteligência. E, para você ver, as outras artistas me receberam bem logo no primeiro dia... Vi que era um preconceito que eu mesma tinha.

E o público, como reage?
Quando chego, sei que as pessoas pensam: “Xi, vai dar merda” (risos). Mas digo: “Sou estranha, mas canto direitinho”. E depois todos se surpreendem, elogiam... Teve uma festa hétero em que um importante empresário veio me pagar o cachê e disse: “Você não sabe o que você causou aqui. Está todo mundo confuso, sem saber se você é homem ou mulher. Você tem uma voz fantástica, arrasou”.

No “Astros”, você foi anunciada como transexual. Você se identifica com o termo?
É muita sigla para minha cabeça. Eu não tenho papas na língua e, quando me perguntaram o que eu era, respondi: sou cantora e isso é o que tem que parecer para o público. Já pensei que fosse travesti, eles me anunciaram como transexual... Bota aí que eu sou feliz, e isso é o mais importante.
"Gostaria de cantar Per Amore
no programa da Hebe. Adoro ela!"

Whitney Houston é a sua inspiração. Quando passou a admirá-la?

Foi em 1992, quando assisti ao filme “Guarda Costas”. Fiquei paralisada com a voz, com a técnica, com tudo. Fui pesquisar e descobri que já conhecia muitas músicas dela. É uma cantora incrível! O sobrenome surgiu em 2000, quando fui Rainha do Carnaval, em Santo Ângelo, e uma amiga travesti, a Maria Eduarda Venturini, disse que eu precisava de um nome. Falou: “Você pode unir o gingado da Valéria Valenssa e a voz da Whitney Houston”. Fechou!

Onde estava quando soube que ela morreu?

Estava saindo de um show, indo para outro show. Veio um segurança e falou: “Você acaba de ficar órfã, Whitney Houston morreu”. Eu não acreditei de cara, porque já “mataram” ela tantas vezes... Mas depois, quando me confirmaram no intervalo, levei um choque. Parece exagero, mas quando você gosta de um artista, tem como uma referência, você se sente próximo da pessoa. Fiz uma homenagem para ela no show. Cantei “I Will Aways Love You” chorando do início ao fim.

O que podemos esperar de você na próxima fase do “Astros”?
Ainda estou estudando a música e tenho que me superar. E superar uma música da Zizi Possi não é fácil. Vamos aguardar.

Qual é o seu maior sonho hoje em dia?
Meus sonhos estão vindo devagar, como eu gostaria que viessem. Quero levar minha música para as pessoas, cantar... Dentre eles, quero conhecer a Hebe Camargo e cantar Per Amore no programa dela (risos). Seria o máximo! Adoro a Hebe!


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

5 comentários:

Julio Marinho disse...

Muito bom, adorei essa mulher de cara. Achei o máximo o bom humor e a inteligência. Parabéns pela entrevista.

Ashlley disse...

Canta muitoo!
Parabéns a elae muito sucesso.Neto Lucon otima entrevista adorei!

Marcel Souza disse...

Olha Neto! Vc como sempre ARRASA nas tuas matérias.
O que mais me encantou nessa moça, não foi só o talento e voz notável, mas a inteligência e a grandesa de espirito dela!

Amei a Valéria, não sei se será um grande nome da música brasileira, por conta de uma sociedade preconceituosa, mas acredite, não esquecerei desse nome jamais.

Carlos Marinho disse...

Digníssima, Excelente voz e técnica, além de muita simpatia.

Estarei torcendo por ela.

Anônimo disse...

Adorei essa lindonaa!!!!

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