Entrevista

Viviany Beleboni diz: ‘Sou travesti por acidente’

Por Neto Lucon

Com grandes asas negras, a modelo travesti Viviany Beleboni, de 23 anos, dançou nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo e encarnou a personagem Nina, do filme “Cisne Negro”, para o mais novo editorial de Evandro Gueiros, “Reflexo da Alma”.

Ao lado do modelo Willian Santana, de 27 anos, Viviany se dividiu entre cisne branco e negro e demonstrou versatilidade em mais um trabalho artístico. Modelo desde os tempos de garoto, ela investe em editoriais diversificados e criativos há dois anos.

“Não consigo viver sem fotos, me alimento de fotografias”, declarou com exclusividade ao blog NLucon. 

De acordo com ela, sua maior recompensa depois de um dia cansativo de trabalho – e de muitas fotos, claro - é sentar para ver o resultado das imagens. “Me modifico a cada ensaio, me entrego de cabeça. Tanto que a fotógrafa Simone Morales diz que poderia fazer teatro, que nasci para isso”.

Seus ensaios fotográficos transpiram ousadia e arte. Como entrou nesse universo dos editoriais?
Sou modelo há dois anos, mas já trabalho na área desde quando era menino. Estava até no casting da agência Mega Models (risos). Gosto desse universo e acho que contribuo com minha criatividade e empenho. Não consigo viver sem foto, me alimento de fotografias.

Também dá palpite nos editoriais? 
Eu mesma crio meus ensaios, desenhos e às vezes até faço algumas coisas. Adoro criar, divulgar uma visão futurista da moda, chamar atenção para o que é diferente (veja foto de Viviane). As primeiras fotos que fiz profissionalmente foram para uma loja de sapatos diferenciados, que faz sob medida e entrega em casa. Apareci como uma robô, com uma bota transparente até as coxas. Deu o que falar...

Em um período em que as transexuais Lea T, Carol Marra e Felipa Tavares ganham destaque na moda, você encontra dificuldades de trabalhar por ser uma modelo travesti? 
Sem dúvidas a aceitação era maior quando ainda era menino. Quando sou chamada para alguns trabalhos, eles dizem que não faço o perfil, pois sou travesti. No Rock in Rio, por exemplo, uma menina da produção me convidou para ficar nos estandartes, mas disse depois que não dava. Ela não sabia que eu era travesti e desconversou quando enviei os documentos. Ela chegou a perguntar se eram meus mesmo.


Acha que esse mundo da moda não está totalmente aberto para as travestis? 
Acho que beleza não tem sexo. Não acho que alguém é mais ou menos bonita por ser travesti, gay, hétero, homem, negro... A beleza está em todos, sem preconceitos. Mas, ainda hoje, as pessoas limitam demais as travestis, nos tratam como ser de outro mundo. O Evandro Gueiros é um dos poucos que dão oportunidades. Foi o maior prazer trabalhar neste editorial expressivo, profissional e criativo.

Como você se descobriu trans? 
Amor, virei travesti por acidente. Até me arrependo em partes. Hoje me sinto mais desejada, chamo mais atenção, mas não tenho mais paz onde quer que eu vá.

Explica-me melhor: travesti por acidente? 
Minha família sempre me deixou de lado, me sentia excluída quando era gay... Morei em uma cidade onde faziam fila para me agredir e minha família não tomava nenhuma atitude. Tenho muitos traumas de bullying na adolescência, mas ao mesmo tempo sempre tive de tudo financeiramente. Quando meus pais se separaram e meu pai não me bancou mais, comecei a fazer shows de drag. Aí, me incentivaram a ser travesti, dizendo que ganharia muito dinheiro e seria linda. Acabei escutando e fui para esse caminho.


Então você, ao contrário da maioria, não tem aquele histórico de se sentir feminina desde a infância? 
Nunca me senti feminina. Isso foi acontecendo com o decorrer da transformação. Na maioria das vezes, as travestis se sentem mal com a sua forma física e tem cabeça de mulher. A minha transformação foi diferente. Mudei o corpo e depois a cabeça. Eu não faço mais plástica, porque penso em virar homem de novo algum dia se me der na telha.

Assistiu ao filme “Pele que Habito”, do Almodóvar? A história é mais ou menos esta... 
Ainda não, mas estou louca para assistir.

Com tantas transformações e mudanças, você se considera uma pessoa feliz? 
Acho que felicidade é um estado de espírito, se faz com pequenos gestos. São momentos com pessoas que vivem mais perto do seu mundo, que são confiáveis e que te respeitam. Na vida profissional, o que me faz mais feliz é ter um dia cansativo de muitas fotos e ver o resultado logo depois. Acho que nasci para isso.

Alguma novidade para 2012? 
Tenho um programa de televisão voltado ao público LGBT que está pintando por aí neste ano. Darei a informação para vocês em primeira mão. Aguardem...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

13 comentários:

Anônimo disse...

Adorooooo... TOP

Anônimo disse...

Nossa parabens pela desenvoltura, e é muito linda, se não foi a mais linda que ja vi até hj parabens

Anônimo disse...

classe... parabens

Eva Ander Muniz disse...

O fato de termos de nos descobrir sozinhas e administrar esta questào tào delicada sem uma ajuda experiente e lùcida,dà margens à todas estas variaçòes de opiniòes sobre oque é a transexualidade realmente.E' um eterno aprendizado que necessita de muita coerència e maturidade para se tomar o rumo certo da coisa.Claro que seria exigir demais que se acerte sempre.O pròprio termo "travesti" que eu usava antes para me definir,jà nào me agrada mais.Pensando na minha condiçào e aprendendo que "travestir-se" significa "disfarçar-se",eu me dei conta de que seria uma injustiça para com todo o meu percurso de vida e busca por uma autenticidade sincera,se eu me considerasse alguém que se "disfarça",como se estivesse numa situaçào de enganar os outros.Quando eu me visto pela manhà,eu nào estou me disfarçando de nada,muito pelo contràrio...eu estou tendo a coragem que poucos tèm de revelar quem sào de verdade,e pago um preço alto demais por isto para considerar este gesto como uma espécie de covardia.Nào sou um "travesti",simplesmente porque nào me disfarço de mulher ou de qualquer outra coisa que seja.Nào me visto para esconder a minha suposta masculinidade,mas para revelar uma feminilidade que existe em mim,e nào existe nada mais honesto doque isto.Serà sempre muito difìcil,por exemplo,tentarmos ser tratadas por "elas",enquanto continuarmos nos definindo com uma palavra que,na verdade,nào nos define...Muito pelo contràrio.Hoje,se alguém me trata por "travesti",eu tento explicar educadamente isto que acabei de dizer...E se por acaso a pessoa insistir,tomo como uma ofensa.Somos TODAS transexuais,independente da maneira como decidimos ou podemos lidar com esta condiçào.Cada uma à sua maneira.Creio que jà passou da hora de continuarmos alimentando esta divisào incoerente que sò nos enfraquece e gera toda este desentendimento ao redor de um assunto que que,na verdade,é muito simples de ser compreendido,quando se tem um mìnimo de boa vontade.Lògico que precisarà partir de nòs mesmas.

Giuliana Zambotto Furlan disse...

Nossa que complexo, é quase como ser trans ao contrário, nascer como se quer e se tornar o que não se quer, vixi

Cindy Nilseen disse...

Muito bonita a Viviany Beleboni.Gostei!

Carolina Almeida disse...

Léo áquila e ela têm a cabeça meio parecidas,a primeira já tá falando em tirar os seios e a segunda de voltar a ser homem.#Tenso!

Giuliana Zambotto Furlan disse...

Bom, eu acho, julgando pela entrevista, que ela não quis nesse caso chamar a atenção e nem a matéria foi sensacionalista, claro que tem gente que fala qualquer besteira, se queima, só para ficar na mídia.

Mas nesse caso específico foi algo ruim que aconteceu com um homossexual, que não queria ser trans, mas por força maior teve que fazer isso tudo para ganhar dinheiro, provavelmente porque não achou outra forma.

Hoje ela aproveita os recursos que tem, mas lá no fundo tem o desejo de voltar a ser o que é, é mesmo uma trans ao contrário.

Digo mais, não é raro isso acontecer, outro dia mesmo ví uma travesti dizendo que queria ser marinheiro, o sonho dele era ser marinheiro, mas como não teve oportunidades acabou se prostituindo.

Esses casos é que complica nossa vida, pois esses são os travestis que são "curados" em igrejas ou psicologas "cristãs", são esses que geralmente confundem a sociedade.

Mas também não é culpa deles, não são os vilões da história, a culpa é da falha da sociedade em promover oportunidades iguais a todos e direcionar os "diferentes" para os guetos da marginalidade, para que façam o "que nasceram pra fazer" (como eles dizem).

Cindy Nilseen disse...

Muito complexo tudo isso,como querer padronizar um grupo , e ainda exigir que se tenha respeito por esse segmento , e que as pessoas reconheçam a seriedade da nossa parte feminina ,se 90% das travesti-trans estão em sites de acompanhantes com o seu orgão sexual que é masculino exposto e até ejaculando ,pois , eu sou muito humilde e pouco romântica quanto a querer que as pessoas nos vejam como mulheres se apenas uma pequena parte de todo esse batalhão de gente se comporta como tal...Eu sou muito desencanada com tudo isso ,não sou mulher mesmo ,gosto de ser feminina ,adoro o meu peito de silicone, gosto de me maquiar e fazer as unhas ,mas eu reconheço a mim mesma como uma pessoa na qual a união dos sexos se manifesta.por isso me sinto muito bem como travesti ,e,não culpo que não me entende aliás eu também não entendo muitas pessoas e situações da vida.

Anônimo disse...

Se todo gay ou travesti tivesse MESMAS oportunidades que o grupo ''heterosexual'' obviamente nao teria tantos garotos de programas e travestis, nesse meio quem mais sofre hj em dia é travesti, hj dia gay , e praticamente normal, agora travesti ó meu deus é como se fosse fim do mundo, eu entendo ela, tenh amigas travestis, que tem talento em muitas coisas, mas nao tem oportunidade de trabalhar no setor que tem talento, e o que resta? programa... como ela mesmo disse as pessoas substimao de mais, é lamentavel

Marcia Lima disse...

Amadas e amados , sabemos como seres humanos que somos que primeiro temos que nos amar,pra depois amar-mos os outros,estametodologia de se odiar para ser o que realmente vc ja o é, é criminoso ,ninguem se torna nada por acidente,que falta de humanidade profissional para com o ser criado pelo criador,tristezatudo isto,mascabe as sofredoras lutarem por seus direitos , desistir nunca ,ok

Luiz L. Marins disse...

Viviane,

Por gentileza, poderia explicare melhor esta frase:

" ... mudei o corpo e depois a cabeça. Eu não faço mais plástica, porque penso em virar homem de novo algum dia se me der na telha..."

Anônimo disse...

Eva Ander Muniz você fala sobre a coerência? Como se atreve? fez um exame de consciência, se envergonhar

Tecnologia do Blogger.