Realidade

Garotos de programa abrem o jogo sobre dilemas da profissão: "Sinto vontade de estrangular os homens com quem deito"

 

Na edição de março da revista “ACAPA”, escrevi a reportagem “Profissão GP - Afinal, quem são esses homens que, na maioria das vezes, se dizem héteros e que e saem com outros homens a troco de dinheiro?”. A reportagem revela pensamentos de quatro profissionais e traz reflexões jamais vistas em outras matérias. Em uma delas, o garoto diz que sente vontade de estrangular cada cliente com quem deita.

Veja reportagem completa: 

São 16h de quinta-feira e o moreno Bruno S., de 20 anos, começa a se preparar para curtir a noite de São Paulo. De regata branca, calça justa e gel no cabelo, o jovem deixa o flat em que divide com quatro rapazes. Às 17h30h, está no badalado parque Trianon, no centro, ao lado de dois de seus colegas de quarto. Com o pênis já enrijecido, não demora a ser abordado pelo primeiro cliente. Bruno é um garoto de programa.

As ruas, saunas, baladas e sites estão tomados por eles. Os corpos, perfis e preços são distintos, assim como quem procura – novos, velhos, gays assumidos e casados com mulheres. Porém, apesar de o número de profissionais do sexo masculino ser cada vez mais visível – e de esta ser uma realidade para muitos homossexuais - as histórias ainda são repletas de dúvidas, mitos, medos e estereótipos.

Na mídia, foram raras as vezes em que reportagens e obras de ficção conseguiram retratar as experiências e pensamentos dos chamados “boys”  ou “michês”. Um bom exemplo ocorreu na novela “Fina Estampa” (Rede Globo), que simplesmente mudou o destino do garoto de programa Leandro, interpretado por Rodrigo Simas. Após notar o espanto do telespectador – o mesmo que rejeita o beijo gay - Aguinaldo Silva decidiu que ele seria lutador de MMA.

 “Como se fosse fácil e não existisse nenhum problema para sair disso, né?”, desabafou o carioca Thiago, de 19 anos, que assistia a um capítulo na Sauna da Lagoa, em São Paulo. “Depois de ver o dinheiro no seu bolso, rápido, você não quer saber de esperar um mês inteiro para ganhar uma mixaria”.

    Você, você quer? Paga pra mim!
 
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- Arthur, tudo bem?
- Tudo. Quem é?
- Sou jornalista e escrevo uma reportagem sobre homens acompanhantes e...
- E quanto é o cachê? Se não tiver, não quero.
 
Foram mais de 40 telefonemas para profissionais cadastrados em sites destinados a programas, três abordagens no Trianon e cinco em saunas gays. Deles, 35 declararam que só topariam mediante pagamento de um cachê, que giraria em torno de um programa – 80 a 200 reais - os demais simplesmente desligaram o telefone ou me ignoraram ao saber o propósito da abordagem.

“Pensam que queremos tirar proveito de tudo. E essa... É uma realidade (risos). O único propósito de estar ali é o dinheiro, só. Até existe a excitação do proibido, mas duvido que um boy se sujeitaria a trepar com viado sem que a questão financeira não estivesse em primeiro lugar. Falo isso daqueles que são héteros”, defende o baiano Carlão, de 35 anos.

Casado com uma mulher, que não sabe de sua profissão alternativa, Carlão passa temporadas em um hotelzinho no centro de São Paulo. E garante: atende somente executivos de fino trato. O motivo seria seu dote de 27cm, que estampou até revistas internacionais. “É uma Coca-Cola de 2 litros”, gaba-se.

  “Tomei 10 banhos após o primeiro programa”

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Com olhos azuis e cabeça raspada, o jovem Thiago A. faz a linha ninfeto em saunas e atendimentos a domicílio. A primeira experiência ocorreu há um ano e, embora já superada, rendeu momentos de sofrimento: “Me senti sujo, agredido, tive vergonha. Só entrei nessa porque minha família estava passando apuros, sem gás, sem comida na geladeira, uma situação bem tensa. Como já havia tido propostas, resolvi fazer. Mas minha família pensa que sou modelo”, explicou.

Rômulo, de 24, revela que o primeiro programa ocorreu em uma das maiores baladas de São Paulo, em 2009. Com corpo malhado, definido e sob efeito de drogas (ectasy e muita bebida alcóolica), ele despertou a atenção de um executivo, que o abordou no camarote e ofereceu dinheiro para uma noite a sós. “Não aceitei, mas daí ele foi aumentando a proposta. Não aceitei, e ele aumentando... Meu, quem ganha mais de mil reais em um dia?”, questiona o jovem, que aceitou a proposta e teve sua primeira experiência homossexual.

Para ele e Thiago, que se dizem heterossexuais, a maior agressão é sujeitar-se a trocar intimidade com pessoas que nunca teriam atração, a não ser pelo dinheiro e estimuladores sexuais. “Tomei uns 10 banhos para tirar o cheiro e o gosto do primeiro cliente. Talvez a sensação seja a mesma de forçar um gay a beijar 20 mulheres e ter contato com a boceta dela várias vezes”, compara Thiago. “Garanto que a sensação não é muito agradável”, define Rômulo.

Já Bruno diz que o pior da profissão, encarado por ele até como “humilhação”, ocorre dentro das saunas. “As mariconas (homens velhos) ficam passando a mão, te bolinando, mas depois desconversam e não querem fazer o programa: ‘Acabei de chegar, volto depois’. Dá vontade de bater”, confessa.

Na rua, todavia, ele diz que os pontos negativos giram em torno da exposição, drogas e falta de segurança. “Mas já estou vacinado e tenho minhas manhas para me proteger”, limita-se a dizer.

Mas não existem gays entre os profissionais do sexo? “Claro que tem, muitos no armário, fazendo pose de machão, mas parece que os próprios viados preferem quem fala que é hétero. Então, se você fala que é hétero, diz que não costuma fazer sexo anal, isso vai mexendo com a fantasia deles”, explica Rômulo. “Entre nós, garotos de programa, existe uma cumplicidade: cada um respeita seu espaço”.

   “Se vir um cliente na rua, não cumprimento”

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Garantir a masculinidade é uma necessidade constante dos garotos de programa. Muitos depreciam os clientes – “aquele velho só queria que eu batesse nele, nem rolou penetração. É um viado escroto”, declarou um profissional da sauna – outros fazem questão de frisar que são 100% heterossexuais e tem até aqueles que demonstram nutrir uma pitada de homofobia. Talvez para se livrarem do fardo e do preconceito que a comunidade LGBT carrega e explicar sua imersão nesse mundo.

Ao falar sobre o que pensam de quem paga por sexo, as opiniões se dividem. “Não vejo o rosto, idade nem corpo, vejo o quanto ele está me pagando”, disse Bruno. “Com os mais frequentes, eu acabo trocando uma ideia, sabendo um pouco mais da vida. Mas a maioria, se eu vir na rua, nem cumprimento. É desagradável e acho que o próprio cliente não quer esse contato”, argumenta Thiago.

Já Carlão demonstra ter o pensamento e comportamento mais agressivo. “Tenho vontade de estrangular cada homem com quem eu deito. Sinto muita raiva desses viados velhos, mataria cada um, até dou umas porradas no programa. O problema é que a maioria gosta”, dispara. É por essas e outras que este universo é marcado por vários crimes contra homossexuais – de roubos, golpes e até assassinatos.

  “Tenho ereção, não prazer”
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- Rômulo, qual foi a melhor transa da sua vida?
- Ah, não foi nos programas.
- Explica melhor.
- Rola ereção, mas não prazer. Duas, três relações por noite e a maioria sem gozar. Tudo com remédio, senão o pau não sobe.
- E isso não pode dar alguma complicação em sua saúde?
- Ainda não fui atrás para saber.
- Já pegou alguma doença?
- Graças a Deus, até hoje só fiz sexo com camisinha.
- E as namoradas?
- Tenho, mas ela não sabe e eu prefiro não comentar sobre isso.

Segundo os garotos, para quem se relaciona com eles, a profissão fica, na maioria das vezes, na clandestinidade. “Tenho três filhos e uma mulher maravilhosa lá na Bahia. Ela nem desconfia que eu faço programa em São Paulo, mas nem tem porque reclamar. Dou uma vida de rainha para ela e meus filhos, que não existiria se eu continuasse como segurança”, revela Carlão.

Thiago diz que após começar a trabalhar no ramo perdeu a namorada e a segurança de flertar com o público feminino. “Minha ex descobriu quando começaram a fazer fofocas. Nossa, me humilhou de uma maneira, falou tantas coisas para mim que até hoje eu não consigo mais chegar em mulher na balada, ficar, ter aquele jogo de sedução. Me sinto inseguro para falar com mulher e isso é muito sério”, desabafa.

  “Meu sonho é...”


Ao contrário da protagonista do filme “Uma Linda Mulher”, os boys não sonham em encontrar o amor de sua vida que os tirariam da profissão. Longe disso. Para Thiago, seu grande objetivo é conseguir um emprego confortável e poder falar sobre sua vida tranquilamente com seus familiares. Além de encontrar uma mulher e uma alternativa para apagar o passado. 

Rômulo quer juntar dinheiro, comprar alguns imóveis e viver de renda. Bruno sonha em ser veterinário. E Carlão, o mais velho, se diz realizado em todos os sentidos: “Para mim é tranquilo trabalhar com isso. Tenho carro na garagem, casas e muito conforto”. Nenhum dos entrevistados investiu em um curso profissionalizante até o momento. 

Ao serem perguntados se pretendem deixar os programas, todos dizem que sim. Mas num futuro bem distante: “Ainda não sei. Talvez com uns 35, 40”, diz Bruno. “O dinheiro vem rápido, mas vai rápido também. Então vou demorar mais um pouco antes de parar”, declara Thiago. Sinal de que, embora a vida não seja fácil, ela tem os seus benefícios. Como em qualquer profissão.

Às 4 da madrugada, Bruno volta do último programa, com 180 reais no bolso. A noite rendeu...
 

    Quer comprar?
www.acapa.com.br

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

11 comentários:

Luuh Pereira disse...

Eu tinha ouvido falar da matéria mas soh tinha lido o começo,ñ tinha conseguido achar na integra.. Adorei!!! Achei interessante para conhecer ainda mais sobre esses tipos de caras. Eu senti pena deles, sei lá... Não ue eu acho o que eles fazem ée errado, mas se submeter a algo q eles normalmente não gostam de fazer e com pessoas q eles não gostam também... :\

Marcia Lima disse...

Ate que enfim alguem resolve levantar a bandira das vidas destes rapazes PROFISSIONAIS DO SEXO,parabens,pois defendo a muito tempo aproximar estes rapazes do Governo por seus direitos,ok!!!

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Enquanto sexo for um tabu para a nossa sociedade - e ainda será por muito tempo, devido ao fundamentalismo religioso, ao machismo e ao conservadorismo que cresce e grassa - veremos esse horror todo aqui narrado, onde não há apenas "uma pitada de homofobia , mas muita homofobia, na medida em que querem até estrangular clientes e não se consideram homossexuais ou bi. Penso que, em primeiro lugar, a prostituição deveria ser encarada como uma profissão como outra qualquer, tem que cair o tabu, INSS e benefícios, tornar-se algo entendido como normal. É justamente o tabu que provoca tudo isso. O heterossexismo também fazendo parte e contribuindo, até mesmo a idosofobia entra no molho, pois se entendessem que em sexo e amor não há idade e que todos os corpos são desejáveis e produtores de amor e de prazer, as coisas mudariam.Quero ainda acreditar que há garotos de programa que se assumem como gays e que são felizes com sua profissão e não assassinos enrustidos. E , pensando bem, acho uma estranha hipocrisia: penso que todas as pessoas deveriam ganhar bem e um salário justo, como sair da prostituição se as empresas pagam mal e empregos são raros, gerando uma competição insuportável e sufocante? todos teriam a obrigação de se encaixarem nisso? não sei... E mais, acho também que uma pessoa homossexual que busca a fantasia de transar com hétero - e exige isso dos garotos de programa! - tem baixa estima, homofobia internalizada e colaboram com esse quadro. Não sou ninguém para julgar fantasias de ninguém, mas posso procurar entendê-las. O culto da heterossexualidade imposta é que leva a essas fantasias e perpetuam o ciclo de crueldades, vicioso. As pessoas, clientes gays, também precisam entender que têm direito ao amor e sexo sem precisar comprar, que corpos envelhecentes não são abjetos e que o comprar seja realmente uma escolha, não a única saída, nunca a única.
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

╔(((√iP)) Caio Torres ╔(((√iP)) disse...

Garoto de Programa Em São Paulo Caio Torres!

http://caiotorres93.blogspot.com

RALF disse...

OLÁ MEU NOME É RAIFF, TENHO 22 ANOS DE IDADE, GOSTARIA DE TRABALHAR DE GAROTO DE PROGAMA, EM CAMPINA GRANDE PB] TENHO 1,90CM DE ALTURA, PESO 77 QUILOS, OLHOS VERDES E 24 CM DE DOTE...

GOSTARIA DE SABER, O QUE DEVO E COMO FAZER, PARA VIRAR MICHÊ E ATRAIR CLIENTES...

E TAMBÉM ACHO QUE SE EU NÃO FOR HÉTERO SOU BISSEXUAL ATIVO...

POR FAVOR MIM AJUDEM AGRADEÇO...

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto!!!
Trabalho com carteira assinada e esporadicamente faço programas mais pela adrenalina e fantasia do que por dinheiro - apesar de esse nunca ser demais. Por isso só faço com clientes com os quais eu já transaria mesmo só por prazer. Não consigo me imaginar sendo obrigado a transar com qualquer pessoa só pelo dinheiro. O estado psicológico de uma pessoa assim deve ser bem crítico.

Novin disse...

Adorei a matéria! Precisamos de jornalistas assim, que fazem juz à sua profissão. Parabéns!

Anderson biankii lorentini disse...

Olha se caso alguem tiver interesse de me ajudar cm palavra amiga agradeco..moro soh em santa catarina maior parte.de quando cheguei passei por necessidades..hj 09 do 5 2014...estou em ksa lendo essas reportagens e digo a vcs nao tenho nada em minha geladeira..meu armario apenas um pc1 kg de arroz isso pq me vi obrigado a vender minhas coisas...nao sei gnt...tenho fe em deus que ele me ajudara...queriaa apenas ajuda de vcs velhos que trabalham nisso...jah fiz sim programas mas nao consecutivo mas nao quero sair da minha cidade deixar minha mae que eu amoo vc mae sozinha e vir pra e passar dificuldades racismo por ser moreno nao quero velhos..achei unika forma de desabafar aki...me ajudem por deus nao quero passar nunca mais fome..peco que nao leiao pensando que seja brincadeira..por fvr gnt me ajuda..se possivel conselhos por fvr vou deixar meu numero caso queiram apenas dizer nao faca isso e tal apenas conselhos...por fvr nao zuem cm meu numero..quero apenas ajuda de vcs pq sabem mto bem oke eh dificuldDe...que deus gnt esteja sempre cm vcs..47 97453491

Anônimo disse...

Ola então achei a matéria incrível. Acho muito interessante que pessoas assim falem sobre temas que são pela sociedade "odiondos" ( não no meu caso sou uma pessoa que não vê nem aceita nenhum tipo de preconceito) Parabéns! Se alguém quiser conversar sobre o tema ou outros temas do gênero fala aí

Alexandre Zuppo disse...

GALERA! SOU GP A POUCO TEMPO E ESTOU PROCURANDO ALGUM OUTRO GP PARA DIVIDIR UM FLAT PRÓXIMO A AVENIDA PAULISTA - SP SE ALGUÉM SOUBER OU QUISER ENTRE EM CONTATO VIA SKYPE (Alexandre.zuppo.gp) OU E-MAIL (Alexandre.zuppo.gp@gmail.com).

Anônimo disse...

Me chamo pedro moro no Rj procuro gp entre 18 ha 25 anos preferivel loiro sou negro,32 anos sou atv e bem sucedido atendo n zap 994733265 so atendo pessoas com foto otima recompensa.

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