Realidade

ÀS AVESSAS: Travesti namora lésbica


O relacionamento entre uma lésbica e uma travesti é a prova de que a diversidade é o melhor caminho para a felicidade

Neto Lucon (revista Junior. edição 12)

João amava Marcos, que amava Pedro e Roberta, que amava Maria, que não amava ninguém. Karen amava Rhayana, que finamente, neste mundo de desencantos, a correspondia. Elas resolveram se casar. Porém, não se trata de um romance lésbico - ou pelo menos não da maneira tradicional de se entender. O fato é que Rhayana é uma travesti e Karen uma mulher bastaaante masculina.

Pelas ruas de Curitiba, o casal composto caminha de mãos dadas e chama atenção por onde passa. Os olhares, os cutucões e os apontamentos são inevitáveis: todos os dias! Mas elas não parecem de fato se impostar. Continuam andando tranquilas e apaixonadas.

De regata, boné e calça larga, a estudante Karen Katherine dos Santos apanha a cintura fina de Rhayana Houston, que vem rebolativa com vestido, cabelo solto e maquiada. Juntas há 1 ano e 4 meses, elas trocam o guarda-roupa e formam um casal nada convencional. Afinal, que apostaria no namoro de uma lésbica e uma travesti?

No filme brasileiro "Elvis e Madona", o diretor Marcelo Laffitte disse "sim" e abriu a temática sobre a relação de Elvis, uma entregadora de pizza, e Madona, uma travesti que sonha produzir um espetáculo teatral. Com toda a delicadeza que a história exige, várias indagações surgem e colocam em xeque os padrões de gênero e sexualidade

Homem ou mulher

Quem é homem? Quem é mulher? Talvez a pergunta tenha caído em desuso, principalmente nos casos envolvento transgêneros. Aliás, a palavra trans é comumente associada às pessoas do sexo biológico masculino que se identificam com o gênero feminino. Tanto que, apesar de Karem se vestir e se portar de maneira considerada masculina, ela não se reconhece como uma trans. Para ela, a orientação sexual é o que prevalece.

"Sou sapatão, lésbica, ou qualquer outro adjetivo que simbolize a vontade de estar com uma mulher." Mas para sua companheira travesti, ela é um homem. "Não consigo imaginar a Karen como uma mulher, nem como uma sapa. Falo'minha mulher' porque estou acostumada, mas para mim ela é um homem, o meu marido", define.

A retórica entre o casal é verdadeira. Enquanto Rhayana se identifica apenas como travesti, sonho realizado há 3 anos, Karen a abserva como uma mulher. "Acho o corpo dela lindo, delicado e feminino. É difícil encontrar mulheres com um corpo desses. Sinceramente, não a vejo nem como homem, nem como travesti. Aos meus olhos, ela é uma mulher mais que perfeita", elogia.

Embaralhando as normas, Karen e Rhayana são comumente bombardeadas por questionamentos de curiosos. Entre as perguntas: por que prefere uma lésbica masculina a um homem biológico? a resposta da travesti vem rápida e confiante: "O carinho que a Karen tem comigo é imenso. Garanto que nenhum homem tem ou teria igual. Então, gosto dela pelo cuidado, atenção e, claro, pelo fato de aparentar um piá (expressão que quer dizer garoto)", responde a trans. "Não sei como seria caso ela deixasse o cabelo crescer e aparentasse uma mulher. Ela é vaidosa, mas sempre pelo lado masculino."

E o que rola na cama? "Rola de tudo e mais um pouco", dispara, sem entrar em detalhes.

Casa e roupa lavada

Um casal lésbico? Hétero? Gay? Trans? "Versátil", responde Karen, que não encontra na gramática de sexualidade um termo apropriado ao seu relacionamento. Já Rhayana diz formar um casal biologicamente heterossexual. "Temos sexos biológicos diferentes: um pênis e uma vagina", explica a travesti.

Karen estuda e anteriormente trabalhou em construção civil e como lavadora de carros. A renda de Rhayana, por sua vez, vem dos shows de transformismo.

Para a lésbica, a melhor parte do dia é o momento em que passa ao lado de Rhayana. "Amo quando ficamos em casa juntinhas, comendo, assistindo televisão. Amo abraçar, beijar, estar perto dela. Faço tudo que ela me pede, pois gosto de demonstrar o que sinto, de fazer carinho, de preenchê-la", garante.

Mais fechada para demonstrações, a travesti não costuma falar muito sobre seus sentimentos e, com voz embargada, declara: "Eu amo muito a Karen, muito mais do que ela pensa. Pretendo viver muitos anos ao lado dela, pois na minha cabeça esse relacionamento vai durar muito. É...definitivamente acho que o amor a gente não explica, só sente.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Rafael Martins disse...

Acho que poderíamos chamar isso de Metassexualismo, ou seja, uma coisa que vai além de tudo isso, que posterior a toda a informação construída até agora..quem sabe.. ;)

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