Pride

Divine: a drag mais obscena do mundo

 

A mais nova edição da revista “Bear Mais Magazine”, cujo tema é SEM CENSURA, conta com uma reportagem especial que escrevi sobre Divine, a drag mais obscena do mundo. Nela, além de detalhes sobre a artista americana, falo sobre a referência para artistas brasileiras como Kaká DiPolly e Laura de Vison.

Leia a reportagem completa

Quando o assunto é ousadia e perversão, um nome aparece fácil na memória LGBT: Divine, a drag do século XX. De barriga farta, peruca e nenhuma censura, a americana chocou os gays dos anos 70 – e certamente ainda choca os mais descolados da atualidade. No filme “Pink Flamingos”, de John Waters, ela quis provar ser a pessoa mais “obscena do mundo” e, para isso, chegou a comer o cocô de um cachorro.

E não se trata de nenhum truque, efeito ou montagem do diretor. A cena ocorre na integra e, por isso, tornou-se histórica: Rebolativa, Divine aparece lambendo os beiços, enquanto o cachorro defeca na rua. Na sequência, ela apanha as fezes com as mãos, leva à boca, mastiga, sorri, quase vomita e sorri novamente – com o close da câmera. Um escândalo!

Na mesma trama, ainda brinca com a cabeça de um porco morto, fez sexo oral no próprio filho (na ficção, que fique claro) e, após entrar em um açougue, escondeu um generoso pedaço de carne entre as pernas – e depois serviu a todos em um churrasco. A ousadia era tanto que, quem a visse na época, confundia facilmente a personagem com a artista.

A imagem esdrúxula – uma mistura de musa dos anos 1950, clown e ostentando certa obesidade – também ajudou na repercussão de seus trabalhos. E, apesar do inusitado tamanho, não se falava em baixa autoestima. Divine era desejada, bem amada e orgulhosa. Em um desabafo, ela diz: “Já faz três dias que eu não amo ninguém”. Quem dera...

Porém, como tudo tem seu preço, a drag, ou melhor, o ator Harris Glenn Milstead penou para conseguir livrar-se do estigma da obscenidade. Em uma entrevista à revista “Interview”, ele desabafou: “Noite passada eu jantei com um amigo que há tempos não via e ele me disse que foi avisado para não comer comigo porque provavelmente eu iria subir na mesa e vomitar em todas as pessoas. Eu não vivo montado”.

O ator também esteve no primeiro filme “Hairspray” (1988) – sim, aquele que ganhou versão com John Travolta, em 2007 – e foi convidado para interpretar tio Otto, no famoso seriado “Married”. Mas não deu tempo. Harris foi encontrado morto na cama de seu hotel, no dia 7 de março de 1988, após uma parada cardíaca em decorrência de problemas respiratórios.

Levou com ele Divine, uma personagem cuja obscenidade jamais conseguiu ser superada, uma referência para tantos outros artistas. É até hoje a pessoa mais obscena do mundo.

AS FILHAS DA DIVA
Kaká e o gogoboy Rick e com a drag Tchaka

No Brasil, vários artistas surgiram tendo como referência a diva Divine, principalmente aqueles que estavam acima do peso e não encontravam espaço ou inspiração para brilharem. Dentre elas, estão a carioca Laura de Vison (1939-2007) e a paulista Kaká Dipolly (foto), que ainda hoje aposta na figura espalhafatosa da drag.

Enquanto Laura repercutia performances chocantes e escandalosas – como aparecer completamente nua ou comer um miolo de boi durante uma performance – Kaká investia na imagem, figurino e maquiagem dentro dos eventos de moda, aparições e militância. Na primeira Parada do Orgulho Gay, por exemplo, Kaká se embrulhou na bandeira do Brasil, deitou em frente aos carros, peitou os policiais e, só assim, possibilitou a caminhada do público por toda a Avenida Paulista. “Sempre quis ter atitudes políticas, irreverentes e com conteúdo”, disse.

Ela conta que ouviu falar de Divine aos 16 anos e, assim que soube de suas peripécias, ficou em choque. “Soube que ela era a musa do underground nova-iorquino e que, durante uma performance, chegava em cima de um bebê elefante e levava a plateia para o banheiro. Ela fazia coco, se limpava na frente de todos, vestia calcinha e depois partia para o show. Enlouqueci. Era tudo o que eu queria”, lembra Kaká, que também se inspirava na atriz Wilza Carla e Elke Maravilha.
.
Com a maquiagem inspirada na drag internacional – olhos puxados, enormes e cheios de traço – Kaká conquistou seu primeiro trabalho em uma feira de cosmético, no pavilhão do Ibirapuera. “Quando cheguei ao evento, ao lado do sósia do cantor Boy George, paramos tudo. O foco e as fotos eram voltados para nós. Depois disso, o Marcelo Beauty – que na época nem era conhecido - nos contratou para ficar até o último dia de feira”, conta orgulhosa.
.
Laura também herdou a ousadia de Divine

Kaká também foi a sensação das primeiras edições do São Paulo Fashion Week e da casa noturna Madame Satã. Ela jogava queijo, banana e pão velho ao público, que delirava. “Eu não queria copiar, queria agregar. Tanto que o primeiro show que fiz sobre a Divine foi somente há dois anos, na Trash 80. Levei um cachorro de pelúcia e fiz um doce de leite virar cocozinho. Comi e joguei no público, que jurava que era coco de verdade”, diverte-se.

Pioneirismos também não faltaram: “Fui a primeira a criar uma agência de drag queen no Brasil, a aparecer em uma festa dentro do caminhão da Granero, a levar as drags para os eventos de moda e a única a receber o título de Rei Moma do Carnaval. Até hoje sou reverenciada pela corte oficial do Carnaval”, revela.

E o que Kaká herdou de Divine? “A extravagância, a irreverência, a ousadia de ser uma pessoa diferente, de ter uma atitude diferente. Chamar atenção para os modelos além daquela coisa quadrada da família, do cristianismo quadrado, das atitudes moralistas. Foi o que busquei na minha história”. Certamente deu certo!

+ DEPOIMENTOS SOBRE DIVINE:

Eduardo Moraes, fotógrafo: "Divine foi a prova viva da ousadia de sua época. Dos poucos filmes que participou causou polêmica e viraram clássicos. O que mais me marcou foi 'Pink Flamingo' que traz cenas escatológicas, sexo explícito e acabou se tornando cult".

Elloanigena Onsassis, performer: "Ela era luxuosa, arrasava nas atitudes, no make, modelões e, o melhor, não copiava ninguém. Teve uma vez que me inspirei nela e fiz o 'melô do cocô', em que entrei de calcinha e, conforte abria as pernas na performance, ia caindo cocô no palco. As pessoas ficaram em choque e até hoje se perguntam se era um truque ou não"


Veja a reportagem completa clicando aqui.


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Adorava a Divine e todos os filmes do John Waters. Eu não chamaria a Divine de "obscena" por que tal palavra ganhou uma conotação moralista na nossa sociedade, mas de transgressora. Como pode ver, os/as transgressores/as estão tod@s morrendo ou já morreram - aqui, Cláudia Wonder; Lennie Dale; Roberto Piva ; a Laura de Vison e etc. - e hoje temos o conservadorismo se impondo e boicotando tudo, felicidade inclusive. Harris Glenn Milstead fez filmes também como homem, inclusive o bem sério noir "Trouble in Mind", do diretor Alan Rudolf. Transgredir cansa e mata logo? não sei... Sei que acaba sendo referencial para as gerações seguintes. Eu admiro profundamente @s transgressores/as e a coragem de dar a cara à tapa.
Beijos!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Sinto saudades extremas dessa época e lembro-me bem das primeiras paradas, evidentemente mais transgressoras que a de hoje e mais contundente em tudo, não procurávamos a heteronormalidade e nem pedíamos pelo amor de deus para sermos aceitos. Kaká diPollY foi muito importante e abriu portas e espaços, nem que fosse à força. E Laura era talento transgressor puro, desses que não existem mais, todos são, hoje, normais, discretos e bonzinhos, não ultrapassam limites e nem os ampliam. Também acho que a Parada deveria sair das mãos da Associação da Parada e ser oferecida para outras ong's, novas e cheias de força de trabalho, que poderiam se exercitar nessa luta. A APOLGBT já cumpriu o papel dela e mostra cansaço, já há uns dois anos, conflitos internos graves e coisas que não são explicadas, acham que o público não precisa ficar sabendo. Mas precisa! Acerto de contas, em todos os sentidos, é fundamental! Por que a Parada de Sampa tem que ser monopólio de uma única ong, há l6 anos?
Beijos,
Ricardo Aguieiras

Tecnologia do Blogger.