Livro Por um Lugar ao Sol

Educadora de Sereias - Livro

Sob o céu de estrelas, a poça d’água refletia a imagem da jovem sereia. Não aquela da cauda de peixe e busto de mulher, tampouco a do corpo de pássaro conhecida pela antiguidade homérica. A sereia refletida possuía pernas e formas femininas, como qualquer mulher. Porém, a magia continuava na voz e em sua intimidade. Som calado pela sociedade que teme entendê-la. Intimidade que desperta o desejo de tantos homens.

Milhares de nomes e formas de sereias existem em todo o mundo. De Iemanjá, Boto, Iara, Mucunã, Inaê, à Ana, Clovis, Dita e Sofhy. Muitas refletidas nas poças das esquinas. Poucas além das margens. Naquela noite, a jovem se deparou com Janaina Lima, sereia de 33 anos, que saiu das águas para caminhar. Caminhou, reergueu-se e, hoje, ajuda outras iguais. É uma educadora social.

- Gosto de trabalhar com educação social, de educar para a sociedade. Pelo CEDAP (Centro de Educação e Assessoria Popular de Campinas), atuo no projeto “Firmeza”. Nossa ação visa suprir as necessidades dos adolescentes que trabalham com programas e combater a exploração sexual comercial. Também sou universitária do curso de pedagogia na UNIP (Universidade Paulista) e coordenadora das travestis e transexuais do grupo Identidade, de Campinas.

A vida é corrida, principalmente pelos projetos paralelos, como palestras, encontros e a ação quinzenal de distribuir preservativos na praça Bento Quirino. E ela dá conta de tudo, inclusive conciliando duas atividades em um mesmo horário - um segredo de sereia 

INFÂNCIA NUBLADA
- Estava entre seis irmãos, logo passava despercebida

Janaína nasceu no Rio Grande do Norte, mas foi registrada como menino na Paraíba. É de lá que acredita ter vindo o sangue quente, que muitas vezes pulsa à flor da pele. Durante muito tempo dizia ser paraibana, atualmente fala que é Potiguar. 

As raízes, todavia, é fruto apenas da consciência familiar e dos traços físicos. Afinal, chegou ainda bebê a São Paulo e foi no interior que viveu as maiores experiências. As primeiras aparecem somente aos quatro anos, em Salto, interior localizado na região de Sorocaba, 107km da Capital.

Eram seis irmãos e o pequeno estava entre os três mais velhos (dois homens e uma mulher) e os dois mais novos (um homem e uma mulher). Birincavam o tempo todo juntos, mas no fundo sentia-se isolada. Não nutria o mesmo bom relacionameno que os três mais velhos, assim como não se entrosava tão bem como os dois mais novos. No meio da turma, não era nem tão notado pelos pais metalúrgicos, que viviam trabalhando.

- Não ficávamos muito com meus pais, eles estavam sendo no trabalho, ocupados. Eram os mais velhos que cuidavam dos mais novos, que tinham mais responsabilidades. Por conta disso, a gente sempre achou que os menores eram os mais paparicados, enquanto os mais velhos eram os mais cobrados. Como eu estava no meio, ficava neutra nesta história, não fazia diferença. Posso dizer que passei meio despercebida, pois a cobrança era menor, assim como as expectativas.

Aos cinco anos, deixou de ser sombra e tornou-se notado pelos irmãos. Numa brincadeira de esconde-esconde, o pequeno entrou dentro de um guarda-roupa com um menino do bairro, chamado Simão, de 12 anos. Apagaram as luzes e calaram-se. O silêncio só foi rompido quando Simão abriu as portas do armário e, aos berros, saiu escondendo o pênis. Gritou: “ele me mordeu, ele me mordeu!”, referindo-se a Janaina.

- Acho que ele pediu para eu chupar, ficou insistindo e, de raiva, eu mordi. Não senti vontade, não tinha nada a ver, mas ficou marcado. Todos meus irmãos comentam até hoje sobre esse episódio. Chamam de “Episódio Simão”.

Veja mais trechos do capítulo "EDUCADORA DE SEREIAS"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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