Entrevista

Entrevista João Nery

‘Não me tornei homem. Sou um transhomem’

Por Neto Lucon
Foto: Alex Brito

“Estou aqui para dissolver as normas de gênero.”, declara o carioca João W. Nery, 62 anos, considerado o primeiro homem transexual a ser operado no Brasil. Sensível, humorado e questionador, ele atualmente divulga o livro autobiográfico “Viagem Solitária – Memórias de um transexual trinta anos depois”, da editora Leya – R$40,00.

Na noite desta terça-feira (3), João esteve na “Casa das Rosas”, em São Paulo, e falou ao blog NLucon sobre o mais novo trabalho, referências masculinas, machismo, preconceito e o que é ser homem em sua opinião. “Se tivesse nascido em um corpo de homem, talvez eu tivesse virado um babaca qualquer”.

Desde que lançou “Viagem Solitária”, você está recebendo muitos convites para entrevistas e palestras. Como avalia essa exposição e a abordagem dos jornalistas? 
As perguntas estão vindo de todos os jeitos, e eu respondo tudo, tudo, não escondo nada. A turma me vê como uma coisa diferente, tenho essa consciência, mas estou achando ótimo. Quanto mais diferente me acharem, melhor. Estou aqui para dissolver as normas de gêneros, aquelas arcaicas, baseadas no heterossexualismo, que considera apenas homem e mulher o normal, que o resto é resto.

Depois de uma vida no anonimato, você entrou para o ativismo LGBT. Imaginou que um dia iria se engajar na luta pelos direitos dos gays, lésbicas e trans? 
Não, de maneira alguma. Mas é impossível não ser ativista depois de saber que, somente neste ano, o número de mortes de travestis e gays superaram o do ano passado. São mais de uma morte por dia com requintes de crueldade. É um absurdo. Decidi me expor porque não tenho mais nada a perder, estou com 62 anos, já tenho seis próteses e nenhuma sexual (risos), Então, para mim, tudo é lucro.

Como lida com esta visibilidade, uma vez que não mostrou o rosto no primeiro livro "Erro de Pessoa - João ou Joana"? Teve algum receio?  
Não. Depois de tudo o que eu já passei na vida, de um enfarto, de ver a morte, o resto é o resto. Para mim, a fama só é importante enquanto servir para divulgar aquilo que eu quero. É trazer visibilidade, não só ao transexual, mas também para todas as minorias, falar contra o preconceito, violência contra a mulher, racismo, sexismo. Estou nessa luta.

Em sua infância, você teve uma excelente relação com o seu pai. Além dele, quais foram as demais referências de masculinidade que você teve?
Minhas referências de figura masculina foram os heróis da época: O Zorro, o Pinóquio e o Peter Pan... Eu me identificava muito com o Pinóquio, não pela mentira, mas por ele ser um menino no corpo de um boneco de pau. E, assim como eu me sentia, tudo o que ele desejava na vida era ser um menino de carne e osso. E também me identificava com o Peter Pan, que não queria crescer. E ele voava e, ah, voar era um dos meus sonhos... Meus sonhos maiores eram ser um super-herói, casar com uma princesa e ser pai.

Para não se curvar à incompreensão, você apostou na flexibilidade da fantasia. Tanto que brincava de ser Zeca quando era pequeno. Você ainda recorre à imaginação hoje em dia?
Com certeza, a imaginação é tuuudo. A imaginação é importante em toda a criação. É aquele colorido que a gente dá a realidade, mas desde que você saiba dosar, não alucine dentro dela. Se você puder usar a imaginação para te fortalecer, ótimo. O grande problema são aquelas pessoas que usam a imaginação para se enfraquecer, imaginar uma catástrofe, essas coisas que dão origem ao medo. Eu sou um cara que quer ser feliz, e faz por onde para ser. Nestas questões, estou com Buda: “Não há um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”.

Você revela que tentou ser mulher aos 16 anos. Foi uma busca de auto-aceitação familiar? 
Via-me mais como uma travesti. Aceitei porque já estava cansado de tanta rejeição, tendo três irmãs que me davam forças para ser mulher, então resolvi... É claro que sabia, lá no fundo, que não iria dar certo. Mas estava carente de aprovação, cansado de sempre ser marginalizado, sofrendo preconceito, machucado, então disse: “Vamos experimentar”, quase como uma brincadeira. E acabei agradando mais do que imaginava, pois era realmente uma mulher muito bonita. Aliás, como homem e andrógino eu também fui muito bonito. Na foto do livro, eu tinha 27 anos e nem tomava hormônio.

Do seu passado repleto de feridas e desafios, você considera que tais experiências foram necessárias ou as classifica apenas como traumáticas? 
Tudo o que eu vivi contribuiu para o que eu sou hoje. Tudo é válido. Eu adoro a Joana, de verdade, sem ela eu não teria chegado ao João. Comigo não tem esse negócio de “Vou apagar meu passado”, “Quero esquecer que fui mulher”. Porra nenhuma! Eu acho ótimo. Se eu tivesse nascido em um corpo de homem, talvez tivesse virado um babaca qualquer. 

Você é um grande questionador dos valores e regras. Questiona também a palavra “homem”? 
Questiono até hoje. Você acha que eu me operei e acho que virei homem? Não virei homem, não! Eu sou um transhomem. Pois se eu me defino como homem hoje, eu estarei entrando nessa categoria hétero, no sentido de só existir homem e mulher. E o que eu quero é mostrar a diversidade, é transcender essas normas de gêneros, tão sectárias, radicais, estereotipadas. Mas é complicado. Eu não vou viver para ver esta mudança social, mas um dia ela vai acontecer.

Noto que muitos homens transexuais são um tanto machistas. Mas você não é. Qual o motivo? 
Eu sou um transhomem feminista. Luto pelas mulheres e acho que elas são muito mais interessantes que os homens. E não é só no nível sexual, é de uma maneira geral. São mais interessantes porque, por serem mais oprimidas, são as que mais questionam, que mostram mais as emoções... É claro que existem homens que fazem isso, mas estou falando do nível geral. Agora, esse machismo é plenamente entendível, eu também fui assim. O corpo não facilita o entendimento, e o que vai facilitar é a gesticulação, a postura da voz, é às vezes até a forma de se comportar publicamente. Eu tive sorte porque meu corpo ajudou, sempre fui alto, magro, fiz esportes, fui campeão brasileiro de saltos ornamentais, não precisei reforçar o machismo para as pessoas entenderem minha masculinidade.

Você conta a experiência de ter sido abordado por um homem homossexual e ficou sem saber o que fazer. As possibilidades de identidade de gênero e orientação sexual são muito grandes, não? 
Claro, existe de tudo e a orientação de um transhomem pode ser muito ampla, como a de qualquer pessoa. Pode ser hétero, bi, pan e até assexado. Mas o mais comum, pelo que eu observo neste universo é que um transhomem se relacione com uma transmulher. O motivo é simples: ninguém é mais mulher que uma transmulher, assim como ninguém é mais masculino que um transhomem. A busca pela feminilidade e masculinidade é constante e maior nessas pessoas.

Para finalizar, qual o título de matéria você adoraria ler envolvendo o seu nome?
(Risos). Sei lá, rompendo fronteiras, por exemplo. Gosto muito dessa ideia de transcender. Aliás, acho esse prefixo “trans” muito bom. Não só pelos transexuais, mas de transcender as coisas, transcender os valores, transcender a mesmice, questionar as verdades. É sensacional.


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

9 comentários:

Bianca Mahafe disse...

MEU ANJO VC SEMPRE E UM ARRASO EM SUAS ENTREVISTAS, PARABÊNS!!! BJS ESTRELADOS...

Evan Ander Muniz disse...

Sensìvel,lùcido,bem-humorado e inteligente.Me pareceu um ser humano extraordinàrio.Excelente entrevista Neto Lucon.Parabéns aos dois!

Viviany Beleboni disse...

parabens, nesse mund que vivemos fazer o diferente nem sempre é bem visto, mas importante é se sentir bem é unica coisa que move as pessoas se sentir bem , e viver bem

Dindry Buck disse...

Quanto orgulho desse intrépido e inteligente repórter. Sua fã! bzus

Marcia Lima disse...

Ola amado Neto Lucon,parabéns por seu trabalho e caminhada pela Plena Cidadania LGBT,ja sobre esta declaração do João Nery de que não se tornou um Homem.mas sim um Homem Trans,algo esta errado,pois mentalmente ,psicologicamente ele nasceu Homem,porem num corpo biologicamente feminino,travou uma dura e longa batalha para construir sua identidade de genero masculino e o fez com maestria,e agora depois de por sua auto afirmaçâo ele fala numa entrevista que não se tornou homem,isto tem dois gumes:1-Tem algum problema problema,talvez algum trauma psicológico mas algo esta errado,2-È muito perigoso esta fala do querido João Nery,pois temos muitos Homens trans Brasileiros se espelhando no exemplo de caminhada de vida dele para obterem a mesma construção e auto afirmação ,que ao ler esta fala do João podem se desesperar e ir pro Suicidio,então peço ao João e pessoas que lidam com o assunto,muito cuidado com o que falam,ok.bjs

Moyses Ferreira disse...

foda. bjs

Paulo Neto disse...

Excelente a entrevista!

sidney disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sidney disse...

OLÁ JOÃO! ACABAO DE VER A SUA ENTREVISTA NO PROGRAMA DO JÔ, E ESTOU AQUI PARA PARABENIZÁ-LO POR SUA BRAVURA E LUCIDEZ! VOCE É UM " DOENTE MENTAL " ADMIMIRÀVEL .ACEITE UM ABRAÇO E PARABÉNS !

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