A vida de padres gays

Gay, graças a Deus
Quatro padres católicos homossexuais fazem novas (e surpreendentes) revelações sobre prática sexual, fé e a combalida culpa cristã

Eles estão à frente da Igreja, mantém contato direto com os fiéis e teoricamente não fazem sexo. A vida dos homens de batina – os padres da igreja católica – é marcada por muitas orações, doações, confissões, polêmicas e, em muitos casos, clandestinidade.

De certa forma, além dos carismáticos da televisão ou dos escândalos envolvendo alguns membros, pouco se sabe sobre as vivências, paixões ou o que pensam os sacerdotes além do discurso oficial.

Falar com padres sobre o tema homossexualidade já provoca desconforto. Imagine, então, abordar experiências pessoais (e gays!) dentro e fora da Igreja? Pois a Junior foi atrás de padres gays que estivessem dispostos a abrir sua realidade.

Vinte e dois padres foram convidados através de indicações de próximos. Somente quatro concordaram em participar. Isso desde que suas identidades fossem preservadas, com receio de represálias. Afinal, “quando o assunto se torna público, a Igreja tende adotar postura já conhecidas”, como nos disse um deles.

É verdade. A Igreja costuma relegar a padres gays que deixaram essa informação escapar, cargos burocráticos em cúrias ou dioceses, tendo seu superior a olho curto. Em casos mais escandalosos, a expulsão do sacerdócio é considerada.

Quatro corajosos padres de Salvador, São Paulo (interior e capital) e Minas Gerais, toparam dar depoimentos extremamente sinceros. Em comum, eles são padres, gays, têm vida sexual ativa e são muito felizes, graças a Deus.

  PADRE TIAGO:
"Sou padre por vocação. E, ao contrário do que muitos possam pensar, a realidade é  bem diferente da ideologia. No seminário, acho que até vi alguns héteros (risos). Mas a maioria era gay, mesmo.

Minha aceitação só veio aos 18 anos. Foi bem difícil, pois minha família era intolerante e eu tinha muito medo. Afinal, isso era década de 70, um período bem mais difícil que hoje. Não existiam modelos de vida gay pública e sã.

Graças a Deus, mesmo sendo padre, minha orientação sexual não é segredo para ninguém. Dou retiro espiritual para padres gays em diversas partes do mundo e não sofro represálias. Posso dizer, inclusive, que mais de 50% dos padres são homossexuais.

Isso depende do lugar, claro. Se a diocese for em zona rural, por exemplo, é menos. Mas em todo mundo a presença gay dentro do clero é muito maior do que se pensa. Há a rigidez da ideologia, mas também a fluidez da realidade.

Existem bispos que sabem dos retiros para padres gays? Sim, existem.  Eles apoiam formalmente? Claro que não, mas ficam felizes que esses padres tenham esse momento de honestidade e recolhimento.

Não sou celibatário e, em meus relacionamentos, as pessoas reagem bem quando digo que sou padre. Algumas, porém, apresentam rejeição. Não sobre mim, mas pela religião. Pois existe certo puritanismo entre os gays sobre a questão da religião, nas mesma proporção que existe puritanismo entre os adeptos religiosos a respeito dos gays.

Atualmente , estou em processo de namoro, na fase de aproximação. A gente está se dando bem. Nos conhecemos na rua e, como a maior parte dos encontros gays, ocorreu a troca de olhares. Com o tempo, descobrimos que temos algo a mais, como qualquer viado que se preza.

Creio que Jesus diria aos padres gays aquilo que ele disse para Nicodemos: é importante sair das trevas e viver na luz. Sendo que o mais importante é sermos amados por aquilo que somos."


Capa da revista "Junior", que contou
com esta reportagem.
  PADRE EMANUEL

Nasci negro e gay, me fizeram cristão e me fiz padre. Depois de padre fui a Roma fazer o mestrado e ali vivi a grande paixão da minha vida: um professor. Mantive esse romance por mais de um ano. Pela primeira vez me admitia como homossexual. Estava feliz com a minha missão de padre e não via incompatibilidade de amar alguém como amei esse professor.

Voltando ao Brasil, mantive um namoro de um ano com outro rapaz e, mais tarde, me apaixonei novamente em um relacionamento de nove anos. Alguns amigos começaram a saber desta minha realidade de “padre gay com companheiro” e também partilhei essa dimensão com o meu superior. Todos aceitavam. 

Naquela época, assinava uma coluna na revista “Gmagazine” e respondi, durante quatro anos, milhares de cartas de pessoas que buscavam orientação sobre sua vida de fé e atração por pessoas do mesmo sexo. Hoje tenho plena certeza de que sou homossexual porque assim Deus me criou.

Em paz com minha sexualidade, fui obrigado a pedir afastamento dos ministérios da Igreja. Não abri mão do que entendia ser a missão de Deus para mim: anunciar a outras pessoas homossexuais que Deus nos ama assim como somos. Deixei o grupo religioso e nenhum bispo me aceitou, mesmo os homossexuais.

Oficialmente a orientação da Igreja é de que o jovem pode ser gay e padre, mas não pode manter relacionamento. Há hoje uma tendência a orientar os jovens que são gays a não se tornarem padres. Acho um contra-senso. Deus chama também o jovem gay a ser padre, como me chamou aos 24 anos. Deus também quer os gays a seu serviço de amor e paz.

Hoje, muitos padres e bispos me procuram para partilhar ou trocar experiências sobre a sua vida religiosa e homossexual. Os que antes me perseguiam, agora se aproximam em busca de orientação.
.

"Tenho esperança de um dia ver
a Igreja pedir perdão aos gays"
PADRE RICARDO
.
Eu era virgem. Tinha 18 anos e estava no seminário estudando para ser padre. Foi com essa idade que tive minha primeira experiência homossexual. Era um jovem também seminarista. Tivemos muitos abraços e carícias, mas não chegávamos a tocar nos genitais. Sentíamos muito medo, vergonha e culpa.

Apesar da nossa inexperiência, a primeira noite de amor aconteceu depois de dois anos e foi algo maravilhoso. Abrimos as comportas de uma parte de nós que nos era desconhecida.

Depois disso não paramos, mesmo com todos os ingredientes neuróticos. Até que um dia ele decidiu seguir outro caminho e deixou a instituição. Nunca mais nos vimos. Eu continuei meus estudos até me ordenar padre. Porém, nas minhas noites de carência, nunca esqueço aquele amor terno.

Hoje, tenho optado por manter a castidade a maior parte do tempo. Só cedo aos apelos da carne em raras ocasiões. Os padres que praticam sexo, especialmente os homossexuais - e conheço muitos - sofrem todo tipo de discriminação e vivem na clandestinidade. Isso não faz bem para nossa saúde integral. É evidente que uma vida sexual precisa de discrição para ser mantida de forma tranquila, mas medo, preconceito e condenações não são "discrições", são juízos e, como tais, condenatórios. 

Minha convivência com padres gays demonstra que esse dado não os torna piores. Há padres bons e ruins tanto héteros quanto homos, tanto com vida sexual ativa quanto castos. O que aprendi foi que a tendência sexual de um padre, e mesmo sua prática, desde cercada de certos cuidados básicos, não atrapalham o ministério. Ao contrário, ensinam-nos a ser mais tolerante e misericordioso com os que sofrem. 

Tenho esperança de um dia ver a Igreja pedir perdão aos gays, como já fez com os índios, vítimas da inquisição e inúmeros outros que sofreram por causa de sua intolerância.

PADRE MARCOS
Durante as missas, sinto que quem olha para mim percebe que tenho esse comportamento diferente. Que sou gay. Às vezes cochicham, fazem comentários. Mas se calam quando me aproximo. Sou mais feminino que meus irmãos e sempre preferi a companhia das minhas primas. Lembro que minha mãe dizia para eu engrossar a voz e não quebrar as mãos.

Quando ela viu que não tinha jeito, me induziu a entrar em um seminário e já voltei padre para a casa. Primeiramente, acreditei ser diferente por causa da vocação. Eu não sabia que existiam outras possibilidades de amor e de prazer. Até que conheci e me apaixonei por outro seminarista.

Minha vida atual é bem normal, como de qualquer pessoa. Faço minhas obrigações, recebo as pessoas que necessitam de ajuda, celebro missas. Não sou mai santo nem mais pecador que ninguém. Muitos ativistas falam dos padres gays como uma maneira de cutucar a instituição Igreja, mas esquecem que também sofremos e enfrentamos diariamente essa ideologia arcaica.

Somos pressionados pela Igreja, somos apontados de maneira pejorativa pelos militantes, viramos motivos de comentários entre os irmãos, inclusive entre os gays, mas quem pensa que por debaixo de todo simbolismo de uma batina existe um coração que ama, sente e sofre?

Por entender melhor dessa experiência, ajudo muitos gays que enfrentam problemas dentro de casa. No fim do ano passado, apareceu um garoto levado pela mãe. Parecia que eu me via nele e via a minha mãe naquela mãe. Ela dizia que ele estava se desvirtuando e que precisava de orações para deixar de ser "bicha louca".

Meu trabalho com aquela família não foi no garoto gay, mas na mãe. Afinal, o discurso informal de todo padre é bem diferente daquele oficial. Hoje, o garoto e o namorado vão à missa. Essa é uma prova da importância da nossa presença para toda comunidade homossexual. É a minha missão.
Comentários
9 Comentários

9 comentários:

Marcia Lima disse...

A Igreja católica fez e continua fazendo muito mal para a Humanidade sendo se apoiando na hipocresia,achar que um ser humano vai realmente viver sem vida sexual é o cumulo da ignorancia sobre a libido humana,datavenias galera!!!!!

Rodrigo Menezes disse...

a minha ingenuidade me fazia acreditar que padre não era hétero e nem gay... e muito menos que tinham vida sexual ativa! axo q preciso ir mais a missa!

Miguel disse...

Onde estão os outros dois depoismentos amigo?

Neto Lucon disse...

Acabei de incluir um hoje, dia 14/06/2012.
Abraços!

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Enfim, há padres e padres, há políticos e políticos, há freiras e freiras e, na verdade, o amor e o desejo sempre vencem. Não há como controlar amor e o desejo, são soberanos! Tentaram durante séculos e séculos: igrejas, religiões, governos, poderosos, medicina e... não conseguiram! Há os/as que rompem e transgridem! Há @s que não são hipócritas e, no caso, seguem o que acreditam nos preceitos e ajudam o próximo. Aplausos para estes!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

cultlove disse...

A igreja só fez e ainda faz isso por puro interesse financeiro.
Imagina se um padre (que é um empregado da igreja), casar e constituir família, bens, à custa da igreja e estes forem deixados para os seus herdeiros e não para a igreja?
Eles se apoiam em discursos arcaicos e numa bíblia escrita a milhares de anos atrás cheia de preconceitos pra dizer o que é certo ou errado quando na verdade a maioria deles não sabem nem a que ou para quem está servindo.

Anônimo disse...

Estive recentemente em um convento onde residem 34 homens, entre seminaristas e padres... apenas 6 são hétero. Eu estava lá a convite do meu namorado, que é padre. Entre as missas e suas obrigações clericais diárias fazíamos sexo... e a experiência dele nesse campo não é pouca. Percebi ali dentro que há padres que fazem sexo com outros padres, há os que fazem sexo com os fiéis, há padres que procuram homens na internet para se relacionarem, há padres que têm uma vida sexualmente mais ativa do que um não-clérigo. Confesso que fiquei chocado com a hipocrisia de alguns. Sem querer fazer julgamentos, ninguém é obrigado aser padre. Se o fazem é porque querem e estão dispostos a seguir o que a igreja prega. Não sou moralista, nem religioso, mas ninguém enganou esses padres a fim de arrebanhá-los para o clero. Eles o fizeram de livre vontade e podem deixar a igreja quando quiserem. Esperar que a igreja mude sua postura em relação à homossexualidade é pura inocência. Não consigo entender o que leva alguém a querer ser padre sendo gyay que vive a sua sexualidade... há tantas outras opções na vida...
edouart24@yahoo.com.br

@Cajuf_verde disse...

Eu realmente não entendo. As religiões são dogmáticas, a religiosidade não. Por quê a pessoa precisa ser um Padre da Igreja Católica? Por quê precisa fazer parte de uma religião que não as aceita em sua totalidade? Ou melhor, precisamos ser aceitos? Quem é alguém nessa vida pra aceitar ou não alguém... Enfim, as pessoas deveriam cultivar mais a própria religiosidade (e sanidade mental), antes de se vincularem a uma religião.
Quando alguém chega pra mim e fala "Ah, que absurdo, a igreja condena gays, condena o uso de camisinha, que atraso, etc..." eu antes de condenar a igreja, condeno os adeptos, ninguém está sendo enganado quando se vincula a uma religião, não há truques, as regras são bem claras! Ninguém precisa ser padre pra ser um aconselhador, pra ser alguém que leva conforto à vida dos outros, pra ajudar o próximo.... Eu sempre tendo a achar que quem se torna padre, tá mais perto de uma deficiência de personalidade do que dum chamado divino.. Mas enfim..

Anônimo disse...

Tenho 24 anos, sou cristão católico, vivo minha fé e participo de várias atividades na igreja.
Apesar de sentir atrações sexuais por homens, não mantenho relação com eles, pois vivo num conflito de ideias e de valores, justamente, pela sã doutrina que aprendi ao longo desses anos. Mas, ao ler essa matéria, confesso que fiquei chocado com as declarações que li aqui. Padres, que fazem votos de castidades= no ato de sua ordenação, mantendo relações sexuais com outros homens no exercício do seu ministério sacerdotal? Penso que tais práticas são incompatíveis....