Pop & Art

Com 40 anos de carreira, Angeli confessa: "Ainda tenho crises para desenhar"

"Se algum político me ligasse e falasse
que achou alguma charge legal, dava
um tiro na minha cabeça". 
Neto Lucon (Virgula)

“Tenho crises desde 1956”, declarou o cartunista 
Angeli, de 55 anos, no Espaço Cultural Itaú, em São Paulo. No último sábado (5), ele encerrava a Ocupação Angeli – exposição de seus trabalhos - e explicava para o público as motivações, conquistas e dilemas no processo de criação de sua arte, charges e personagens urbanos.

Em tom humorado e dizendo-se um pouco esquecido, Angeli afirmou que ainda sofre em fazer charges e que não gostaria de retomar a extinta revista Chiclete com Banana, sucesso dos anos 80. “Não voltaria. Para mim, morreu, morreu. Faria uma revista nos tempos de hoje, com a cabeça de hoje, com uma turma nova”.

Ao todo, ele soma mais de 8 mil desenhos, personagens memoráveis como Rê Bordosa,Skrotinhos e Wood & Stook, e garante ser feliz com a sua trajetória. “Vejo com bons olhos, sou orgulhoso do meu trabalho. Mas ainda entro em crise quando tenho que enviar uma charge para uma revista. Sempre penso: ‘Será que vou corresponder? Não vou aprontar agora, né? (risos)’. Fico inseguro e acabo me explicando demais”.

No bate-papo, o chargista revelou que não tinha consciência política no início da carreira, que pensou em ser um desenhista infantil e entregou as personalidades das quais mais gosta de criticar: Paulo Maluf e José Sarney. “Ultimamente bater no Maluf dá até dó. Mas o Sarney está ali até hoje, um dos últimos coronéis, parece irreal, com ideias que viraram pó”.

Rê Bordosa: a porralouca dos anos 80
Crítica de Angeli em Charges

Ele comentou que, durante toda a carreira, nenhum político telefonou para reclamar ou elogiar o seu trabalho. E que acharia um absurdo se o fizessem. “Se algum ligasse e dissesse que estava legal, eu dava um tiro na minha cabeça (risos). Uma vez encontrei o Sarney e ele fez cara de bobo, de paisagem”, lembrou, salientando que chegou a ter uma coluna ao lado da coluna do político naFolha de São Paulo.

O cartunista falou ainda sobre cada um de seus personagens principais e contou o motivo pelo qual matou Rê Bordosa, a junkie mais “porralouca” dos anos 80, musa de um dos seus quadrinhos mais famosos de todos os tempos. “Não queria ficar marcado por causa de uma personagem só. Estava de saco cheio dela, das cobranças e decidi matar a Rê Bordosa. Muita gente me para na rua até hoje para falar sobre ela, foi uma personagem marcante”, reconhece.

Antes de finalizar o encontro, Angeli revelou os temas que inspiram novos trabalhos. “Tenho raiva de políticos como o Sarney, religião que se impõe, preconceito e militarismo”. Tudo isso, além de muitas, muitas e muitas crises. O resultado fala por si há quarenta anos: crítica, humor e reflexões inteligentes sobre o mundo.

  ONDE MAIS SAIU?

Reportagem com cartunista Angeli foi home do UOL
Reportagem foi home do Virgula

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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