Entrevista

"Quero ser a Deborah Secco travesti", diz Patricia Araújo


Neto Lucon (Virgula, 2011) Fotos: Carlos Costa

Nem é preciso pedir um close nela. Com medidas generosas – 1.80m, 102cm de quadril e 97cm de busto – a modelo Patrícia Araújo atrai naturalmente os olhares por onde passa. Muitos de admiração, outros de inveja, mas nenhum que atreva negar sua beleza.

Em 2008, a carioca revelou um segredo à revista feminina Marie Claire: não nasceu mulher, é uma travesti. A informação não diminuiu os olhares. Ao contrário. Foi convidada no ano seguinte para o posto tradicionalmente ocupado pela top Gisele Bündchen no encerramento dos desfiles doFashion Rio 2009.

A empreitada a arremessou para a mídia, rendeu novos trabalhos, fotos, e até a oportunidade de ter pontas como atriz. Ganhou um episódio na série “A Lei e o Crime” e nas novelas “Luz do Sol” e “Vidas Opostas”, da Rede Record.

Longe do Brasil, Patrícia desfilou e representou o País em Toronto, Canadá, no evento Brazilian Bool. E venceu quatro concursos de Miss, entre eles, o Miss T-Girl World e o Miss Universo Trans.

Em entrevista exclusiva ao Virgula LifeStyle, a modelo fala sobre preconceito, opina sobre Lea T e afirma que Deborah Secco - eleita a mulher do ano pela revista “Alfa” - é a sua principal referência de feminilidade. Confira:

"Roberta é linda, maravilhosa, uma diva"
- Você está de volta ao Brasil e já pensa retomar a carreira. Como foi começar em 2009, substituindo o posto geralmente ocupado por Gisele no Fashion Rio?

Foi maravilhoso, pois não imaginava que seria aquela bomba. Pelo menos aqui, no Rio de Janeiro, não se falava em outra coisa. Estive em todos os jornais, televisão, muitos comentários. Achei aquilo muito chique, um sonho realizado. Mas eu não estava preparada, ficava um pouco acanhada e não aproveitei tanto. De qualquer maneira, o evento ajudou muito minha carreira, pois apareceram muitos trabalhos e me deixaram conhecida.

- Em tempos de Lea T e Andrej Pejic, encontra dificuldades para dar seguimento na carreira de modelo?

Existem dificuldades, claro. Ainda rola muito preconceito, mas acho depende muito mais do esforço da pessoa, da sua vontade de correr atrás. Sinceramente, comigo, já acostumei, tiro de letra. Tive essa oportunidade, fiz inúmeros trabalhos, conheci pessoas legais, estou mais tranquila, mas sempre pinta trabalho. Fico triste com as meninas travestis que estão começando agora. É muito mais complicado.

- O que pensa sobre a exposição da modelo transexual Lea T?

Acho que ela ajuda a quebrar estigmas, é positiva esta fama, mas não a considero um furacão como a Gisele. Para mim, ela tem uma beleza normal, nada tão espetacular. Conheço outras trans maravilhosas que poderiam dar muito certo como modelo. Mas elas mandam books para agências, mas quando falam que são travestis... A Lea T deu sorte de ter um empurrão de outra pessoa lá de fora.

- Você também já tentou entrar em uma agência de modelos?

Antes de aparecer na mídia, fui a uma agência e um cara falou: “na minha agência tem muita garotinha, menor de idade. Então, apesar de você ser linda, você é travesti e os pais não vão gostar”. Eu não entendo, mas tudo bem. Fora daqui é diferente. Em Roma, por exemplo, tive um trabalho maravilhoso. Estava na rua e uma menina me chamou, falou que precisava de uma modelo como eu. Falei que era travesti e eles não se importaram. Fiz umas fotos de biquíni e foi maravilhoso. Acho que quebro um pouco o preconceito com minha presença, por ser simpática e saber respeitar a todos.


"Não sofro preconceito, sofro inveja"
- Prefere passarela ou fotos?

Gosto bastante de foto, pois sou bastante fotogênica. Para passarela, consideram meu corpo mais parecido com o de miss. Também sou alta, tenho 1.80m, cintura fina, gostosona. Não desisti de passarela, não. Qualquer trabalho que pintar neste sentido, eu vou com tudo.

- Em sua opinião, Roberta Close ainda é a trans que teve mais importância no Brasil?

Com certeza. Quando ela estourou, eu era criancinha e peguei uma grande parte deste estouro. Até hoje não surgiu um furacão como a Roberta Close. Para mim ela é uma diva, maravilhosa e desbancava qualquer mulher da época. Hoje, muita gente me compara a ela, inclusive várias amigas dela. Falam: “vocês são diferentes fisicamente, mas tem aquela mesma coisa de chegar e parar o ambiente”.

- Você disse que o preconceito é veiculado à inveja. Por ser uma travesti muito bonita, você sofre muito preconceito?

Sofri inveja de algumas mulheres. Às vezes estou em uma loja e uma mulher chega com o marido, dá um olhar de inveja, depois começa a rir... Hoje, mesmo, uma mulher passou por mim com o namorado e ficou querendo alfinetar: “não é mulher, é travesti”. Então eu vejo que não é pelo preconceito por ser travesti, é mais pela inveja por eu ser bonita. Mas entre as modelos, não sofro. A Isabeli Fontana e outras modelos que estiveram comigo nem tem por que ter inveja. Aliás, a Isabeli é chiquérrima, linda, uma fofa!


"Me sinto realizada por minha família ver o que sou"
- Você foi Miss Brasil Transex 2002, Miss T-Girl World 2004, Miss Universo Trans 2005 e ainda hoje é considerada a travesti mais bonita do Brasil. O que estes títulos representam para você?

Sempre uma vitória a mais. Nasci um menino, com corpo de menino e espírito de mulher. E hoje sou vista como uma figura totalmente feminina e admirada por isso. Me sinto realizada por minha família ver o que sou, chegar à casa da minha mãe e ver inúmeros troféus, faixas. Não é aquela coisa de vaidade, é mais uma questão de vitória. Eu consegui, consegui meu espaço. É maravilhoso.

- Existe alguma mulher que você se inspira?

Sempre achei a Luiza Brunet maravilhosa, principalmente quando eu era novinha. Mas hoje em dia acho que a Deborah Secco é a grande inspiração. Gosto do trabalho, também conheci ela pessoalmente, acho linda. Eu queria ser uma Déborah Secco travesti (risos). Tanto pela oportunidade de trabalho, quanto pela beleza.

- Para você, tudo bem ser identificada como travesti? Ou você gostaria de ser vista como mais uma bela mulher?

O que me incomoda não é ser conhecida como travesti, são os trabalhos. Quando me chamam para fazer uma ponta em uma série, em uma novela, é sempre para fazer a travesti. Não tenho problema em ser reconhecida como travesti, até porque eu sei que sou uma, sou bem amada, já tive inúmeros namorados maravilhosos. Mas gostaria de fazer outros papéis, outras participações, até porque tenho estrutura para isso. Já fiz teatro, televisão, e poderia fazer uma mulher, por exemplo.

- Qual é o seu maior sonho?

Acho que já realizei a maioria dos meus sonhos. Adoraria encontrar o meu príncipe encantado e viver feliz. Profissionalmente, gostaria de fazer mais novelas, mais séries, desfiles. Se as pessoas abrissem a mente, tudo seria mais legal. Não que eu me ache muita coisa, mas as pessoas gostam daquilo que foge do convencional. E eu tenho exatamente isso.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Gostei bastante! Realmente fica claro que, para nós, LGBT's preconceitualizad@s, o quanto é importante uma imagem positiva, como foi para ela a Roberta Close. Vejo ingenuidade nas respostas de Patrícia Araújo, mas vejo também transparência e sinceridade. Isso é ótimo! Que ela se firme em seus sonhos e tenha chances como atriz, também.
Beijos,
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Denise Cristina disse...

A Patrícia é bem linda. Podem visitar o meu blog: http://transexualidadeportuguesa.blogspot.pt/

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