Entrevista

Ao comentar romance com modelo, travesti Viviany Beleboni diz: "Os homens preferem viver uma mentira"

Dona de um corpo escultural, a modelo Viviany Beleboni, de 23 anos,  foi um dos grandes destaques da 16ª Parada do Orgulho Gay de São Paulo, que ocorreu no domingo (10). Ela esteve em cima do carro do ABC e representou a beleza trans.

Com charme, desenvoltura e simpatia, ela foi convidada para falar sobre o evento e preconceito contra LGBTT no programa Manhã Maior (RedeTV!) desta segunda-feira (11). E comentou sobre um caso amoroso com um famoso modelo, que a deixou por medo do preconceito.

Leia conversa com o blog NLucon:

Criticada e elogiada, a Parada ainda gera debates dentro e fora da comunidade LGBT. Quais são as suas considerações?
Gosto muito do evento e considero importante para a quebra de preconceitos. Lamento não ter sido bem tratada no carro da Disponível, que negaram minha presença pelo fato de eu ser travesti. Achei contraditório e uma falta de amor ao próximo. Neste ano, participei da Parada com um figurino de Roberty Moon no carro do ABC, onde existe uma Ong muito interessante que organiza um trabalho para dar emprego a travestis e transexuais. Lá, fui muito bem tratada.

Neste ano, um grupo de travestis e transexuais disseram que os organizadores gays são misóginos e transfóbicos. Você acredita que existe muito preconceito contra travestis no meio gay?
É evidente que sim. Acho engraçado ver os gays pedirem respeito, sendo que eles mesmos têm preconceito contra outras pessoas do próprio grupo. É feio, revoltante. Esquecem que toda transexual ou travesti um dia já foi gay. Na verdade, acho que existe um pouco de inveja. Sentem receio de que nós vamos roubar os “homens” que vão na Parada. No carro da Disponível, por exemplo, ao saberem que eu sou travesti me vetaram na hora. Disseram que o carro estava cheio, mas curiosamente meu namorado foi chamado de ultima hora para subir.

"Pessoas gostam de falar mal das outras para se sentirem melhores"

Hoje, você foi ao programa Manhã Maior e conheceu o transhomem João Nery, autor do livro Viagem Solitária. Já conheceu um transhomem anteriormente?
O João é impressionante, jamais diria que um dia ele foi mulher. É um homem em todos os aspectos, além de ser muito inteligente e culto. Me emocionei quando ele disse que perdeu o currículo e teve que trabalhar em outras profissões porque mudou o nome nos documentos. Fico indignada com o preconceito desse país e fiquei curiosa para ler o livro dele.

No programa, você revelou que teve um romance com um modelo muito famoso e que ele terminou por receio do que os outros iriam achar. Como lida com esse amor escondido e a rejeição pública dos homens?
Sabia que surgiria essa pergunta (risos). Então, o modelo não era conhecido quando começamos a sair, acho que estava começando. Não queria falar muito dele, porque não quero me promover em cima de outros nomes. Só posso dizer que ele é um homem muito bonito e que o apelido dele é príncipe (risos). [Sobre o término,] fico triste porque, por mais que seja uma pessoa maravilhosa, ele abriu mão de um amor por causa da carreira.

A vida amorosa de uma trans é complicada? Você também sofre com isso, mesmo sendo tão bonita?
Aprendi que podemos ser lindas, mas se é travesti já não existe mais beleza. Só pelo fato de ser travesti, da palavra travesti vir acompanha de bonita, já não somos mais bem vistas. Até mesmos os homens que nos admiram, preferem viver dentro de uma família de faixada, viver em dois mundos diferentes, sendo infelizes e promovendo uma mentira. Os homens não querem enfrentar aquilo que vivenciamos no dia a dia.

Vivi no carro com a cantora Adriana Ribeiro

Você afirmou que as pessoas geralmente têm preconceito para se sentirem melhor. Fale um pouco mais sobre isso...
Hoje em dia, as pessoas se fecham em seus mundos e se esquecem de respeitar as diferenças. Se você não faz parte do mundo delas, você está descartado. Hoje em dia, ninguém mais senta com a família, pergunta como está a vida, quer saber como está o outro... Está todo mundo no seu Facebook, nas redes sociais, via fone, se aproximando das tecnologias e se afastando de alguns valores que considero importantes. Se afastam dos outros seres humanos. Como eu disse, vejo que muita gente aponta o defeito dos outros para se sentirem melhores em seus mundinhos.

Quais são seus próximos projetos?
Quero continuar trabalhando como modelo e, com a minha exposição, lutando contra o preconceito e pelos direitos de todos da comunidade LGBT. Tenho alguns projetos e farei algumas participações em programas de TV (Vivi estará no Qual é o Seu Talento do SBT, e no Tudo É Possível, da Rede Record), mas tudo tem seu tempo. Falarei com exclusividade para vocês. 

VEJA COM EXCLUSIVIDADE O MANHÃ MAIOR

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

7 comentários:

Lunna Barreto Gomes disse...

Muito boa entrevista, mostra um pouco da realidade de muitas travestis e transexuais, só discordo do tom generalista no quesito relacionamento com os homens , nem todos são assim, eu sou transexual e sou casada a 2 anos e meio, meu marido me assumiu em uma semana para a família e amigos e olha que ele nunca teve outras experiencias com mulheres transexuais ou travestis, era casado com uma mulher biológica e logo depois da separação me conheceu.

Eduardo Lobato disse...

POxa, a entrevista deste vídeo cortou meu coração ao meio.

Anônimo disse...

a maioria nao quer dizer todos lunna, vc deve saber o quã dificil eisso vc é uma mulher de sorte =]

Lorena disse...

Fiquei sensibilizado com o depoimento no vídeo, mas é uma realidade os preconceitos enfrentados por estas meninas. Mas por outro lado são corajosas, enfrentam com objetividade seus desejos
de serem integradas no seu interior. Não sou jovem, mas vejo com nitidez as mudanças ocorridas na sociedade bem mais acolhedora....mas a luta ainda é grande. Estão ganhando espaço, fico contente com isso. PARABÉNS!!

Anônimo disse...

"Esquecem que toda transexual ou travesti um dia já foi gay"

Eu adoro gente que acha que a própria experiência é universal, só que não.

Anônimo disse...

Não sei até que ponto uma pessoa pode se considerar transexual, sendo completamente satisfeita com os órgãos genitais e ainda se dizendo um "homem feminino". Ela pelo menos se assumiu travesti... o que é diferente.
Discordei totalmente da frase: "toda transexual ou travesti um dia já foi gay." JAMAIS!
Transexual nasce transexual... e JAMAIS será gay ou travesti. As pessoas acham que é tudo um caminho com fases menino/gay/travesti/transexual. JAMAIS!
O máximo que acontece em se tratando de fases é que, após o período de transição e cirurgia, a mulher transexual é MULHER. É claro que biologicamente não, mas o que é biologia no que diz respeito a identidade?
Será mulher com mente e alma feminina e num corpo adequado à sua psique e espírito. Já o corpo é modificado mas hoje em dia quem nunca mudou nada no corpo? Vão dizer então que uma mulher que faz uma plástica na bunda, no peito e no nariz deixa de ser quem é???? Mudou o corpo mas a essência continua ali.
O mesmo com transexual primária: muda-se o corpo errado, mas a essência feminina continua como sempre foi.
A travesti é outra história. Ela não é e nem tem pretensão de se passar por mulher, se assume como travesti e faz uso do seu órgão.
Ngm aqui está dizendo que uma é melhor ou pior que a outra... Mulher, travesti ou mulher transexual, todo mundo tem o direito de ser feliz como é.
Não misturemos as coisas, apenas isso.

Enock de Araujo disse...

Gostei do assunto,é uma forma mais esclarecida ,e entender melhor. Sobre os travesty, transexual etc. parabéns.

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