Entrevista

Funkeira trans, Xuxú Vieirah fala sobre preconceito, Lacraia e chuca: 'Escrevo e canto o que eu vivo'

“Sou magrela, sou pintosa, mas não me confunda com a pantera cor de rosa”. Foi com esse refrão que a cantora Xuxú Vieira, travesti de 24 anos, tornou-se conhecida na internet em 2009. Com participações em programas do SBT e até indicação ao VMB [Video Music Brasil], da MTV, a morena chegou a ser apontada como uma das possíveis musas do público LGBT.

Três anos depois, Xuxú mudou o estilo musical. Virou funkeira, turbinou o visual, mas continua com o mesmo bom humor de sempre. Lançou recentemente a música “Eu fiz a chuca”, com letra humorada sobre gírias da comunidade gay, e “Desabafo”, sobre o preconceito que a acompanha.

Em entrevista ao blog NLucon, Xuxú fala sobre a carreira, oportunidades, Lacraia e comenta sobre o concurso de Valesca Popozuda, que irá trazer uma dançarina transexual ao Gaiola das Popozudas.

- Hit da internet em 2009, sua vida mudou bastante depois que se tornou conhecida na web?

Bom, financeiramente não mudou nada, ao contrário do que as pessoas pensam. É claro que não rodei o Brasil a troco de lanche (risos), mas a maior recompensa é o carinho das pessoas. Passei a ser mais conhecida e requisitada para cantar nos espaços. Hoje, faço shows em diversas casas e baladas. Tento aproveitar as oportunidades e mostrar o meu trabalho.

- Depois do inofensivo “Pantera Cor de Rosa”, você aparece com uma nova aposta mais ousada: “Eu fiz a chuca”. Como surgiu essa música? 

Aprendi, depois da Pantera, que um dos segredos para bombar na net é trazer o humor. Cheguei a essa conclusão depois que gastei dim dim com o clipe da música Desabafo, que tem uma letra forte sobre preconceito, e só tive 2 mil exibições. Já com a Chuca, que tem esse tom humorado, conquistei 7 mil e pouco só nos primeiros dias. As pessoas não entendem de cara [o que significa chuca], mas a intenção é essa, receber perguntas, confundir, causar. O povo gosta do que é engraçado, inusitado.

- É você mesma que compõe as músicas? Vi que, além das brincadeiras, você procura passar uma mensagem contra o preconceito.

As composições são minhas e procuro agradar a todos. A música Desabafo foi criada bem na época do sucesso da Pantera. Fui rodeada por pessoas de muita energia negativa, amigos falsos, pessoas que hoje nem falam comigo. Isso é muito triste porque já parei refeição para dar entrevista e, quando quis aparecer com um novo trabalho, não me deram oportunidade. Escrevo e canto o que vivo.

- Está mais preparada hoje para lidar com essa exposição?

Estou começando tudo de novo e acredito que tudo que vai volta. Acredito que ainda vou voltar a aparecer e, quando isso acontecer, vou estar mais preparada. Não estou com pressa, mas também não vou esperar o sucesso cair do céu. É por isso que divulgo minhas músicas e corro atrás. Uma hora vai acontecer.

- O funk aparenta ser um ambiente em que a comunidade gay não é tão bem aceita assim. Tanto que em um show da Valesca Popozuda houve pancadaria depois que um casal gay se beijou. Como você é recebida? Já passou por alguma experiência de preconceito? 

Acho que o beijo gay choca em qualquer ritmo, as pessoas ainda estão se acostumando com a realidade. Sou bem recebida em qualquer lugar, pois sei entrar e sair. Caso eu não seja, sei muito bem dos meus direitos e chamo a policia. Sou cidadã e exijo respeito. Mas todo mundo passa por preconceito, infelizmente é uma fraqueza do ser humano.

- Você sempre curtiu funk? De qual maneira o funk surgiu em sua vida? 

Quando eu comecei a cantar, eu pensava: “será que vão gostar?” Hoje canto funk porque tenho sangue de “tchuntchá”, essa é minha paixão, sou feliz neste estilo. Quando sentimos prazer com o que fazemos, é mais fácil chegarmos onde queremos.

- E onde você quer chegar? 

Onde as pessoas nos aceitem como seres humanos, filhos de Deus. Em um mundo onde as pessoas tenham compaixão, amor, assim como pede a palavra de Deus. Quem sabe a humanidade não começa a caminhar para a verdade e menos para a hipocrisia? Quero acabar com a homofobia. Existe a Madonna como Rainha, o Michael [Jackson) como Rei, quem sabe um dia exista a Xuxú? As pessoas metem o pau no funk, mas quando toca (risos). Se estão dançando ou ouvindo a minha música, é sinal de que estão nos aceitando melhor. Quem curte meu som não é só o público LGBT, não...
"Se estão dançando ou ouvindo a minha música, é sinal de que estão
nos aceitando melhor"

- A Lacraia foi a primeira travesti a surgir neste cenário. Em sua opinião, qual é a importância dela no movimento do funk? Teve contato?

Tivemos... Encontrei-me com a Lacraia em várias baladas por aí. Digo que, depois que ela colocou a cara para bater, ficou mais fácil para a gente. Isso todos nós temos que admitir, pois ser a primeira não é para qualquer um. Como o João Nery [o primeiro homem transexual do Brasil], a Roberta Close, Clodovil...

- Nos shows, a Lacraia beijava alguém da plateia. A Mulher Filé deixava os homens passar o cartão de crédito no bumbum. Tem algo inusitado nos seus shows?  Que história é essa de ter uma cobra em suas performances?

Sou a primeira rapper travesti a meter a cara na periferia. Hoje, existe outras, mas não entrei no funk por acaso e vou mostrar isso ao Brasil, me aguardem. Recentemente, trouxe uma cobra para as apresentações. Minha intenção é chocar o meu público e acho que consegui. Todo mundo me pergunta dessa cobra, mas não tive tanto medo. Tive mais medo da aranha [que está no clipe Desabafo].

- A Valesca lançou uma vaga para uma dançarina transex entrar para o Gaiola das Popozudas. O que achou dessa iniciativa? 

Um ato de luta contra a homofobia, transfobia. A gata está de parabéns.



- Nunca quis ser uma mulher fruta?

Conheço, respeito o trabalho delas, mas nunca quis ser conhecida assim. Afinal, já sou a Xuxú e o povo já faz piada. Dizendo que vai comer um chuchuzinho com linguiça (risos).

- O que podemos esperar de Xuxu? Está sempre pronta e com a chuca feita? 

Com certeza! Sempre com a chuca feita, pois sou passivona. Adoro dar... O que falar e, se não fizer, é “cheque” na certa (risos)!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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