Entrevista

"As musas da TV confundem sensualidade com vulgaridade", diz ex-vedete Salomé Parísio

Dulce de Jesus Oliveira, mais conhecida como Salomé Parísio, é a história viva do teatro. Atriz, cantora e ex-vedete, ela acaba de ter a trajetória retratada no livro independente Salomé Parísio – o Rouxinol do Norte, escrito por Thais Matarazzo, Diego Nunes e Fábio Siqueira, lançado no final de julho.

A trajetória eclética mostrou talento de Salomé em rádios, novelas e peças teatrais de todo o mundo. Entre suas obras, chegou a contracenar com MazzaropiVirgínia Lane e Colé, e foi chamada para substituir Carmem Miranda nos Estados Unidos. Nos anos 50, suas pernas eram as mais elogiadas do país. 

O Teatro de Revista – gênero que teve seu auge em meados do século 20, com números musicais, comédia, sensualidade e leve crítica social – marcou a carreira de Salomé. A importância do gênero para a história cultural do Brasil é tão grande que há sempre revisitações nas obras e presenças marcantes como a de Leila Diniz, nos anos 60/70, e Claudia Raia, até hoje.

Esbanjando saúde aos 91 anos e lúcida sobre a sua trajetória, Salomé continua cantando, dançando e diz ter um corpo bastante parecido com o que ostentava há 70 anos. “Está quase a mesma coisa”, diz com bom humor. 

A gana pela vida foi motivo de surpresa no Programa do Jô, da TV Globo, neste ano. Salomé alongou-se e fez contorcionismo no sofá do humorista e conquistou ainda mais a admiração do público. Em entrevista exclusiva ao Virgula Famosos (NLucon), a artista fala sobre a obra biográfica e comenta as principais diferenças das musas da televisão. 

"Nós, vedetes, aliávamos arte e sensualidade"
É maravilhoso ver minha história em um livro. Esses jovens – Thais, Diego e Fábio - procuraram e reviraram o meu passado, a minha história. Sinto-me honrada por saber que muita gente vai tomar conhecimento daquilo que eu vi, da época da rádio, das vedetes, do teatro, do Teatro de Revista, que foi um período maravilhoso. As pessoas até têm uma ideia, mas nós éramos as maiores sensações da época, grandes referências, um frisson. Mas, ao contrário de hoje em dia, nós aliávamos arte e sensualidade, não era nada vulgar. Nossa história é diferente. Tínhamos e ainda temos talento.

"Não existe problema em mostrar o corpo, desde que haja intenção nobre"
Como eu disse, acho que a coisa atual está muito... Vulgar. É esta a palavra: vulgaridade. As mulheres da televisão confundem sensualidade com vulgaridade. Neste livro, eu até apareço com pouca roupa, mas, diferente de hoje, a intenção não era de expor a mulher a qualquer custo. Quando eles escreveram e pediram para colocar uma foto mais “assim”, eu falei: “Não, não pode”. Mas depois vi que, quando eu fiz, não fiz por querer ganhar a plateia, não fiz por querer desejar ninguém, nem levar ninguém para a cama. Fiz pela arte, por sentir a arte através do meu corpo. Não existe problema em mostrar o que é bonito, exibir as pernas, os seios, mas desde que haja uma intenção nobre. Não quer dizer que eu esteja ultrapassada, apenas tenho consciência daquilo que eu faço, visto, divulgo. 

"O amor é a beleza da vida, mas ainda temos que saber amar direito"
Ainda sou namoradeira, mas o amor mudou. Ah, o amor antigamente tinha uma parede que fazia a gente amar de verdade, querer conhecer mais, descobrir mais o outro. A gente se amava, se queria, mas o sentimento era guardado para a gente, para o dia em que tudo fosse consumado. Hoje, tudo acontece logo de cara, infelizmente. Lembro que a gente conhecia um homem em uma festa, à meia noite ele dava um beijo e depois levava-nos para a porta de casa. Hoje, o cara que a garota nem conhece entra na casa! O casamento virou mais uma questão social, para dizer que casou, mas o que tinha que acontecer, já aconteceu faz tempo. Pelo amor de Deus, o amor é a beleza da vida. A gente tem que saber amar direito. 

"Segredo da vida é aceitar os seus problemas sem reclamar"
O segredo para estar bem aos 90 anos é saber viver. Aceitar as coisas que Deus determinar. Se você vai ser rica, se vai ter que batalhar para conseguir as suas coisas, se vai ter problemas, se você tem decepção amorosa, tudo isso acontece na vida de uma pessoa, de qualquer pessoa. É ter consciência de que gente não é melhor ou pior que ninguém para ser poupado. A gente precisa é parar de reclamar, aceitar e pedir coragem para vencer. Eu fui uma criatura que batalhou muito. Desde os 14 anos que eu comecei a estudar e a trabalhar para ajudar minha família, que eu ajudo até hoje. Hoje, depois de tanta coisa, eu não tenho casa, não tenho apartamento, não tenho carro. Tenho mais amigos que parentes e sou extremamente feliz.

"É preciso saber amar"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

Um dia escreverei minha história também!

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