Pitacos

Joelma, da banda Calypso, foi de fato homofóbica ao querer converter fã gay?

A cantora Joelma, da banda Calypso, causou polêmica em 2012, logo depois que um vídeo com imagens suas caiu no Youtube. Nele, a cantora conversa com um fã gay e diz para ele “se converter, virar homem, casar e dar alegria aos pais”. O rapaz, desconcertado, diz que pensava em adotar uma criança e que já dava orgulho para a família. “Papai do céu vai ficar maravilhado”, continua a cantora.

Nas redes sociais, a loira virou o principal alvo de militantes e seguidores que abominam a homofobia (preconceito e aversão contra homossexuais). Porém, em nova declaração, Joelma afirmou que tudo não passou de uma brincadeira dela com o fã. E que só falou aquilo porque o fã permitiu tamanha intimidade. “Se eu fosse preconceituosa, meu melhor amigo não seria gay”, argumentou.

Apesar da mea-culpa, Joelma derrapou. Propagou a ideia de preconceito, da mesma forma que já fizeram Isabeli Fontana, Caio Castro, Claudia Leitte e outros. Porém, muito mais que uma tentativa de conversão ou de preconceito (ela estava abraçando o fã, em meio a tantos outros), a artista reproduziu um pensamento social do Brasil, o que a maioria da população pensa (às vezes até você), mas esconde.

Sim, a “conversão” proposta por Joelma nada mais é que um reflexo de como os gays são vistos no inconsciente coletivo - mesmo pelas pessoas que dizem aceitar, respeitar, apoiar. Pensam: “tudo bem se ele for gay, não tenho preconceito, mas certamente seria melhor (para a vida dele) se fosse hétero, seria melhor se formasse uma família nos moldes tradicionais. Ele daria mais orgulho para a família”.

Qual gay nunca escutou frases semelhantes de pessoas que consideram queridas? E a intenção, muitas vezes, não é de ferir, é (acreditem) de ajudar. Afinal, o preconceito em nosso país é visível. Está presente nas chacotas, nas agressões, nas lâmpadas que ferem a cabeça... E também em tais "conselhos"!

Porém, na mesma proporção em que os dizeres de Joelma  demonstram ser dignos de entendimento, eles também trazem consigo uma inversão de valores - embora ninguém se dê conta. É mais fácil ser hétero? Talvez sim, mas quem disse que é uma escolha ser gay?  Infelizmente, vivemos em um país em que é muito mais fácil querer que o gay mude do que se preocupar com o preconceito. É mais fácil culpar a mulher estuprada por usar uma saia curta que a atitude do estuprador.

Curiosamente, o preconceito tem raízes da intolerância religiosa. E, embora estejamos em um estado laico, a religiosidade ainda determina muitos comportamentos, pensamentos e até leis. Joelma é evangélica e, apesar de dizer que sua fé não atrapalha o contato com os fãs, sua “brincadeira” demonstrou uma opinião. A saraivada de críticas fica mais clara ao ser comparada com o racismo: “namore uma mulher branca, fique com uma pessoa da mesma cor, seus pais branquinhos vão se alegrar mais”. Brincadeira ou não, o conteúdo é ofensivo.

Mas, muito mais que julgar se Joelma é ou não homofóbica - quem é ela na nossa vida, realmente? - o importante é utilizarmos todas essas reflexões e o tempo que dedicamos a elas para nos auto-questionarmos. Questionar aquilo que julgamos ser o melhor para o outro, aquilo que ele mesmo quer, os julgamentos que fazemos sem grandes fundamentos. 

Quando entendermos mais sobre nós mesmos, sobre os nossos preconceitos, sobre aquilo que falamos, daí sim, como diz Joelma, “papai do céu vai ficar ma-ra-vi-lha-do”.

ATUALIZAÇÃO: Em entrevista divulgada no dia 30 de março de 2013, a cantora se posicionou contra o casamento gay e disse que, se tivesse um filho homossexual, faria de tudo para convertê-lo. Chegou a comparar a luta da conversão gay com a luta contra as drogas...

Em recente conversa com o NLucon, Joelma afirmou que não é homofóbica e que esta é apenas uma opinião pessoal. Disse que grande parte dos seus fãs é gay - inclusive o menino que a abordou no aeroporto -, que respeita a todos e que respeita o livre arbítrio de cada pessoa. 

A pergunta que fica é: Que tal também respeitar os direitos que são negados aos seus fãs gays, hein? Principalmente o direito de ser gay? 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Julio Marinho disse...

Pois é, e assim vemos mais e mais pessoas reproduzindo o preconceito, pior, com a desculpa esfarrapada de ser uma "brincadeira". Posso estar enganado e vendo conspiração em tudo, mas isso me parece ser de caso pensado, ou seja, eu falo exatamente o que quero, e depois digo que foi uma "brincadeira", "mal interpretado" ou "fora do contexto".

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Eu, na verdade, já perdi toda minha paciência contra essa gente, até mesmo por que a arte que criam - se é que se possa chamar de arte - é de péssima qualidade. Nunca entendi por que gays e LGBT's se aproximam dessa gente, mas , enfim, nunca vou entender muita coisa, mesmo. Outra coisa que não compreendo, e que vejo que só ocorre aqui no Brasil, é que nós LGBT's, esquecemos tudo que nos fazem de ruim, o que tira a nossa força de luta. Ou seja, se Joelma falou isso e se a tal Claudia Leitte também, deveriam ser excluídas de nossas compras de seus cd's e dvd's, excluídas de nosssas vidas para todo o sempre. E isso também com lojas, restaurantes, bares, shoppings e etc. onde já ocorreu homofobia. Mas não, aqui o pessoal fala por uma semana e logo já compra o produto da "diva" de 5ª categoria, volta na loja, volta no shopping e por aí vai. Junta-se isso à impunidade que impera aqui, ao fato de não termos uma Lei que criminalize a homofobia e está a canja morna e amarga, pronta, onde nada evolui nem acontece...
Quem precisa de Joelma?
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Eu sou gay e não vi nada de homofóbica no que ela disse, minha mãe no começo quando soube da minha homossexualidade dizia o mesmo. É a opinião dela e não devemos criticar só porque é diferente da nossa

Anônimo disse...

esses recaucados que ficam falando dela tem mesmo è inveja......o programa muito è o pior programa que jA vir....e aqueli viado que tava criticando a joelma eu quero que eli mora se eu tivesse na queli programa eu iria quebrar a cara deli toda,osso por osso.

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