Entrevista

Modelo transexual, Felipa Tavares diz: "Ainda temos que provar que somos pessoas normais"

"Ainda sofro preconceito quando tenho
que mostrar o RG'
“A modelo transexual do exército”. É assim que a top mineira Felipa Tavares, de 25 anos, ficou conhecida depois de revelar, em reportagem do nosso blog, detalhes de sua experiência no Exército. Aos 17, ainda vestindo-se como um garoto, Felipa tornou-se recruta e vivenciou o que lhe descreveram como “passagem para o inferno”.

A repercussão foi tanta que a bela deu novas declarações e até foi entrevistada pelo apresentador Jô Soares, na Rede Globo. Lá, revelou um caso amoroso com um sargento, com quem curiosamente encontrou em uma festa gay, e a relação de amor e ódio com um tenente durão, que a fazia comer bananas por mau comportamento. 

Divulgando um ensaio exclusivo, a top da agência 40 Graus fala sobre preconceito, cotidiano e revela que se tornou mais politizada após tornar-se conhecida no mundo da moda. “As travestis e transexuais me cobravam um posicionamento mais consciente”, revela Felipa, a única a receber conselhos de outra trans top, Lea T

Leia a entrevista: 

Após a sua exposição no mundo da moda e na mídia, podemos dizer que se tornou mais politizada e engajada nas causas LGBTs? 
Felipa Tavares - Com certeza. No começo, não sabia muita coisa, não sentia na pele o preconceito, pois sempre tive amigos e amigas héteros. Depois da carreira de modelo, fui muito cobrada por outras travestis e transexuais. Diziam que eu era muito Alice, que vivia em outro mundo... Então, comecei a estudar mais, ler mais notícias, me informar. Hoje, abracei a causa e vejo a importância de se posicionar frente aos problemas da comunidade da qual eu faço parte. O preconceito que nós transexuais sofremos é muito maior que o de qualquer outra pessoa. É quatro vezes mais que qualquer gay, por exemplo. 

Qual é a sua opinião sobre manifestações LGBT, como a 16ª Parada do Orgulho Gay e outras marchas que são feitas pelo Brasil?
É o momento em que os gays, as lésbicas e as trans se expõem para a sociedade, mostram a cara, falam que são pessoas normais. Considero super importante, representam o sair do armário socialmente. Vejo que, além do viés político, ela movimenta bastante o turismo e acaba sendo um excelente argumento para quebrar preconceitos. Para quem sabe aproveitar, pode ser uma visibilidade para mostrar o amor, o respeito, a responsabilidade e a realidade de nossas vidas. 

Ainda sofre bastante preconceito em seu cotidiano?
Olha, além da carreira de modelo, também trabalho como vendedora em uma loja de óculos. Lá, muitas mulheres ficam me olhando, cutucando, comentando, dando risadinhas, fazendo piadinhas sobre mim. Isso não é legal, me deixa triste, constrangida. Têm alguns que até fazem piadas: “você tem a voz grossa”, outros perguntam “você é homem ou mulher?”. Mas penso: “Não estou aqui para falar sobre a minha sexualidade, da minha vida pessoal, de ser motivo de chacota. Estou aqui para trabalhar”. Para mim, isso é um desrespeito. 

Quais são os direitos que você acredita ser indispensáveis para a comunidade trans?
São muitas as dificuldades na vida de uma travesti e transexual, mas acho importante facilitarem a mudança do nome de registro. Sofro muito preconceito quando preciso mostrar meu RG e a pessoa nota que o nome que está lá é masculino. É risadinha, chacota o tempo todo. Fui atrás para mudar meu nome e descobri que a burocracia é muito grande. É um peso que só quem vive sabe. 





A modelo Carol Marra, que também é trans, declarou recentemente que sofre preconceito de stylists gays. Você já sofreu preconceito no mundo da moda?
Descobri recentemente que um amigo modelo, que é gay, começou a falar mal de mim, me queimar, dizer que eu não fotografava bem para alguns profissionais. Mas, na verdade, ele queria ser conhecido como um modelo andrógino, como o [sérvio] Andrej Pejic. Ele ficou bravo porque a agencia não quis, disse que ele continuaria no casting de homens e que eu fui contratada como modelo transexual, que era outro trabalho e perfil. Sempre tive humildade para entender que há espaço para todos, jamais puxaria o tapete de ninguém. 

Depois da nossa entrevista sobre sua experiência no exército, o assunto tornou-se pauta de vários programas de televisão, incluindo no programa do Jô Soares...
Nossa, essa entrevista rendeu, vi que muita gente teve curiosidade em saber como uma transexual sobreviveu em um ambiente tão machista. Para você ter uma ideia, muitas pessoas de dentro do exército vieram falar comigo, pedir conselhos, contar outras histórias. Tanto que decidi fazer esse ensaio novo, inspirado nessa experiência dentro do quartel. 


Tem alguma história que não contou ainda para ninguém sobre o quartel? 
Tenho várias... Ah, teve uma vez que aquele tenente durão [o mesmo que a fazia comer banana como punição] estava dando as instruções de sobrevivência, mas eu estava em outro mundo, vendo borboletas voarem. Ele percebeu que eu não prestava atenção e pediu para eu repetir tudo o que ele disse. É claro que não saiu nada e ele ordenou: “Está vendo aquela poça de lama? Então vai lá e senta nela”. Eu fui, sentei, coloquei o capacete na frente do rosto e comecei a chorar. No fim do dia, ele me chamou e pediu desculpas em um canto. Disse: “Você me humilhou na frente de todos, acho que suas desculpas só seriam válidas se fossem na frente de todos também”. Saí e virei às costas. 

Quais são os seus maiores sonhos atualmente?
Além da cirurgia de redesignação sexual [popularmente conhecida como mudança de sexo], gostaria de aproveitar mais trabalhos neste segmento. A moda entrou em minha vida com a intenção de fazer a cirurgia, mas tornou-se um prazer. Sei que levo jeito e tenho talento. Quero servir de referência para outras modelos que estão começando, quero quebrar preconceitos, mostrar a cara, pois, apesar de todos os avanços, ainda temos que provar que somos pessoas normais. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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