Pride

Lana Miranda, a cover de Carmem Miranda

"É claro que não dá para viver apenas
das apresentações, mas sempre terei
tempo para a Carmem."
"Carmem Miranda é minha irmã"

Foi aos 12 anos que o pequeno garoto de descendência japonesa sintonizou a rádio Cultura/AM e escutou, pela primeira vez, a música “Tico-Tico no Fubá”, canção imortalizada na voz de Carmem Miranda. Nem ele sonhava naquela época que, após 23 anos, fosse ser conhecido como um talentoso cover de sua musa: a apoteótica Lana Miranda.

Vindo de uma depressão profunda ainda na adolescência, o pequeno encontrou em Carmem e sua música a alegria de viver e seguir em frente. “Fora o mito, é uma pessoa que considero da minha família. Apareceu e me ajudou em um momento muito difícil e de depressão. Considero uma irmã”, diz Lana, que não deixa a memória da artista - 55 anos depois de sua morte - acabar.

“O que mais gosto da Carmem é o sorriso. Ele transmite a alegria e eu fico automaticamente feliz quando vejo”, declara. Os primeiros passos e trejeitos inspirados em Carmem deram-se aos 22 anos e, desde então, nunca mais pararam.

Com um belo trabalho de maquiagem e 17 réplicas à lá baiana, ainda é possível ver A Pequena Notável viva e alegre em festas coorporativas, bailes de debutantes e casamentos. “No começo, tentei dublar em casas noturnas gays, mas o trabalho não era reconhecido. Parti, então, para o circuito hétero, onde sempre fui muito bem recebida”, explica ela, que também passou a cantar sucessos, como Tic Tac do meu Coração, Diz que tem e I Like Very Much com sua própria voz.

“Dizem que meu timbre chega a se aproximar ao de Carmem.” A maior emoção da “Jornada Miranda” aconteceu quando Lana tentou representar a artista no evento Brasil 500 anos, pelo Museu carioca Carmem Miranda, nos Estados Unidos. Ela enviou fotos para a organização e foi escolhida entre outras mulheres covers. Ninguém desconfiou que tratasse, na verdade, de um transformista.



“Só quando eu desembarquei é que eles souberam que era um homem. Ficaram ainda mais surpresos com meu talento.” Ao lado de 40 componentes de uma escola de samba, Lana Miranda arrasou. “Era cerca de três shows diários com toda estrutura necessária. Fui muito elogiada”, conta orgulhosa.

Considerando-se irmã espiritual da artista luso-brasileira, Lana também teve a oportunidade de conhecer Aurora Miranda, irmã de Carmem, que morreu em 2005, aos 90 anos. “Foi emocionante, pois parecia que estava com a própria artista.” Hoje, após negociação com a família, a cover está prestes a receber licença para utilizar oficialmente o trabalho de Miranda.

“É uma conquista extremamente gratificante. Claro que não dá para viver só das apresentações, afinal os convites são esporádicos. Mas não importa o que eu estiver fazendo, sempre terei tempo para a Carmem”, frisa Lana, agradecida à eterna notável pela transformação em sua vida. Coisas de irmãs.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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