Entrevista

Transexual, Luisa Stern comenta vivência cross dresser: 'Um dia tive a ilusão que ser homem bastaria'

14/12/2010 - 17h07 - Neto Lucon p/ Mix Brasil

A palavra crossdresser (CD) ainda é desconhecida para muitos membros da comunidade LGBT. Na mídia, geralmente é utilizada para reportagens sensacionalistas ou curiosas. Já nas Paradas, baladas gays... pouco aparecem.

Com vivência crossdresser, a funcionária pública de Porto Alegre Luisa Helena Stern foi a fonte de informação para muitos internautas. Fundadora da comunidade e do site “Cultura Cross Dresser”, em que aborda assuntos referente a transgêneros, ela surpreendeu muita gente ao se assumir publicamente transexual há dois anos.

Hoje militante do movimento LGBT, Luisa esteve 25ª Conferência Mundial (ILGA), que ocorreu no início de dezembro, e conversou com exclusividade ao Mix Brasil. Aqui, ela fala sobre a vivência crossdresser, o cartunista Laerte e como se descobriu transexual.

A maioria das reportagens envolvendo crossdressers tem teor sensacionalista ou curioso, como aconteceu com o Laerte. Você, que já teve essa vivência, acha que muita coisa ainda precisa ser dita?


Ah precisa. A mídia não-especializada realmente é sensacionalista, busca por pessoas que estejam dispostas a fazer um freak show, aparecer lá como uma figura meio confusa, que nem sabem o que é crossdresser. O Laerte é um exemplo. Apesar de ter uma identificação com o termo, ter uma personagem, estar dentro de um clube, ele não tem muita ideia do que é ser crossdresser. Ele mesmo se perde muito na própria identidade, troca os termos.

O Laerte se assumiu como CD, mas nunca se desmonta. Ele não seria uma travesti? 


Discordo. O fato de sair em público com roupas femininas não significa que ele já é travesti ou transexual. E tem algumas coisas que diferem até mesmo da maioria das crossdressers, que é sair vestido de mulher e falar o nome masculino. Isso causa constrangimento para elas. Para mim, ele não se encaixa no perfil de crossdresser, quanto mais de travesti ou transexual. A travesti não quer ser chamada de João em nenhum momento. 

Você acredita que a mídia peca principalmente por nem saber o que significa. Então me explica o que é crossdresser?


Na tradução literal seria vestir-se ao contrário, com roupas do sexo oposto. Essa palavra foi adotada como símbolo da identidade de um grupo de heterossexuais que se vestiam de mulher lá nos início dos anos 60. São homens que levam duas vidas, que montam e se desmontam, que não fazem intervenções no corpo muito visíveis ou definitivas. Não significa que hoje, 50 anos depois, seja só formado por heterossexuais, existem muitos bissexuais e gays, mas os héteros são a maioria. 

A motivação de ser crossdresser é sexual? Ou é uma identificação com o gênero oposto?


A questão de ser um motivador sexual é polêmica, cai naquele conceito médico que quer patologizar essas questões. O crossdresser não tem uma motivação inicial movida ao sexo. É diferente do que chamam de “travestismo fetichista” que é puramente sexual. O travestismo fetichista usa aquela roupa até o momento de ter o prazer, depois tira e sente até culpa. Já a crossdresser procura na troca de roupa um alívio para as pressões do mundo machista, de relaxamento.

Como foi a primeira vez que vestiu roupas femininas?


Não sei ao certo, mas foi quando era criança. Ficava no banheiro, vestia roupas da minha mãe ou da minha irmã. Mas não era uma montagem completa. Depois ficou meio adormecido na adolescência, início da fase adulta. Até que passei a morar sozinha, passei a ter mais privacidade e comprar as minhas coisas. Primeiro foi com uma ou outra peça de lingerie, depois peça de vestuário, peruca, maquiagem. No começo, se eu olhar para trás, vejo que fazia uma figura bem caricata. Fui aprendendo com o tempo. 

Pelo que li, crossdressers se realizam com a montagem. É possível mesmo se contentar com essa realização somente por algumas horas? Ser crossdresser não seria um passo para ser travesti? 


Vejo que a maioria das crossdressers tem um grande prazer na hora de se montar e uma tristeza na hora de se desmontar. Existe até um apelido dentro do clube que é a “síndrome de acetona”, quando tira o esmalte, a maquiagem... Mas quem é crossdresser típico, acaba indo tranquilamente para a sua vida masculina de novo. Uma das características da crossdresser é justamente gostar da vida masculina também. No meu caso, assim como acontece com alguns, foi um aprendizado. Tanto que, quando passei a usar roupa feminina pela primeira vez, não tinha ideia onde eu iria chegar. Foi progressivo: quanto mais me vestia com roupa feminina mais eu queria usar.





A presença da crossdresser dentro da comunidade LGBT passa quase invisível. Você acha que as crossdressers são discriminadas? 


Não, eu acredito que as crossdressers se isolam e procuram se reunir em lugares fechados pela questão da privacidade, aquela coisa do “homem heterossexual que gosta de se vestir de mulher”. Ela é que não quer ir a uma balada GLS, ela é que procura se reunir em grupos fechados. No meio LGBT, o que existe em relação à crossdresser é desconhecimento. Gays não sabem se elas são transformistas, drags, travestis iniciantes. Fora de São Paulo o conhecimento sobre crossdresser é praticamente zero.


Muitas transexuais dizem que a consciência de que são mulheresacontecem desde a infância. Por que demorou tanto tempo para se descobrir? 

Na medicina dos anos 70, existe a figura da transexual primária, aquela que tem certeza do que desde a infância, e a transexual secundária, que se descobre na meia idade. Hoje em dia já se desconstrói os conceitos de transexual de primário e secundário para não dar a ideia de que uma é melhor que a outra. No meu caso tem alguns flashes desde a infância. Sonhava muito que iria ser mulher quando crescesse. Mas por ser uma família de formação religiosa, de ter todas aquelas expectativas, isso foi ficando bloqueado, reprimido. Ficou lá no inconsciente, que vinha para fora na forma de um sonho, na forma de uma fantasia.

Ser crossdresser ajudou você a se descobrir trans?


Lá no começo eu não tinha ideia de que fosse caminhar até aqui, de estar em algum momento de estar vivendo uma vida feminina. Durante o caminho eu tentei mudar muitas vezes, tentei parar, tentei voltar atrás, mas era só para descobrir que não tem volta. Depois que a gente se descobre é pior tentar resistir. Me descobri na vida adulta, quando passei a morar sozinho, passei a processar as informações e fui colocando para fora aos poucos. De fato foi uma caminhada longa.

A partir de qual momento que você disse: Chega, agora sou transexual?


A primeira vez que eu saí de casa montada. Tive certeza absoluta de que eu deveria passar a viver 100% como mulher. Foi como sair de dois armários ao mesmo tempo. Isso faz cinco anos. Comecei a me hormonizar, trabalhar isso em terapia, deixar o cabelo crescer, fazer laser, usar brincos no dia-a-dia. Há dois anos eu comecei a assumir publicamente a vida feminina.

Como as pessoas reagiram?


Não fiz a mudança de um dia para o outro, então já deu para ver os amigos que iam permanecendo e os que iam embora. Não teve uma questão muito traumática nesse momento porque eu já vinha trabalhando isso antes. O lado profissional foi a parte mais complicada. Além da questão da transição desses conflitos, passei por um problema de depressão e outros problemas de saúde. Tenho alguns colegas de trabalho que me compreenderam, mas o ambiente de trabalho ficou tenso. Não sofri agressões diretas, mas também não tive mais aceitação. 





Você assinava como Louise Stern. Por que decidiu mudar o nome?  


Gostava muito de uma atriz do cinema mudo chamada Louise Brooks. E Stern porque sou de origem alemã e “Stern” é estrela em alemão. Depois que me assumi como transexual, resolvi abrasileirar o nome: Louise ficou Luisa. E Helena foi porque seria o nome que eu receberia caso nascesse uma mulher biológica.

Silicone e cirurgia de transgenitalização... pensa em fazer?


Passa sim. A cirurgia de transgenitalização é o meu objetivo final. Estou passando por um processo transexualizador lá de Porto Alegre, no Hospital de Clínicas, e estou na fila de espera para fazer a cirurgia. E se tudo acontecer, no segundo semestre de 2012 devo estar me encaminhando para isso. Já o silicone, tive dúvidas se precisava ou não, mas agora já vi até onde pode ir as mudanças com hormônios e eu acho que vou colocar um pouco de seios e no quadril para dar um acabamento.

Você está sempre envolvida com a militância. Isso é de fato importante para sua vida?


É importantíssimo. Posso contribuir por minha formação, porque além de ser funcionária pública no setor financeiro, também sou bacharel em direito. No momento em que passei a me assumir como mulher, também procurei a militância, que me ajudou muito. Mesmo depois da cirurgia de transgenitalização, ao contrário de muitas transexuais, continuarei lutando pelos direitos LGBT.

Como você definiria a Luisa de ontem em relação a Luisa de hoje?


A de hoje é muito mais feliz, tranquilamente. Há muito tempo coloquei no meu perfil alguns versos da música Super-Homem de Gilberto Gil: Um dia tive a ilusão que ser homem bastaria/ Até descobrir o que o mundo feminino me daria. Então sei o que sou por causa da mulher. Sou feliz e realizada por já ter conquistado essa identidade feminina.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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