Entrevista

Produtora da Globo, transexual Bárbara Aires diz: ‘Ainda não estão preparados para conviver com trans no mercado formal de trabalho’

Bárbara Aires teve que se acostumar desde pequena com uma certeza: é uma exceção. Na infância e adolescência  se via diferente dos demais nas brincadeiras, roupas e desejos. Também era diferente de qualquer outra pessoa da família, dos amigos e do próprio espelho. A peleja não foi fácil e os caminhos nem sempre foram crescentes.

Mulher transexual, ela até chegou a viver durante algum tempo no estigma do “mundo trans”: Se ingressou no mercado do sexo, protagonizou filmes, fez fotos, programas... Mas, ainda assim, confrontava o discurso da maioria e, de uma maneira única, atraía os olhares, não somente para o seu corpo, mas também para o seu conteúdo.

Em fóruns, redes sociais e documentários, Bárbara emprestava a sua vivência para desmitificar os estereótipos e até cutucar as feridas de quem estava no meio. Não foi sem pensar (e sem comprar briga) que ela disse que muitas trans comiam macarrão instantâneo para ostentar luxo durante a noite.

Disposta a mudar de vida e ampliar o leque de oportunidades, ela também foi a minoria que procurou se profissionalizar. Primeiro, arriscou-se como cabeleireira. Já em 2011, depois de suas ideias roubarem a cena do programa “Amor & Sexo”, apresentado por Fernanda Lima, tornou-se integrante da produção da Rede Globo.

Bárbara transformou suas exceções, feridas e vivências em ferramentas positivas para viver. Abasteceu-se de argumentos, inteligência e histórias de vida. É um exemplo que ainda batalha pelo seu lugar ao sol. Nesta semana, ela gravou o último programa “Amor & Sexo” e aguarda novas oportunidades. Porém, de outra certeza ela já pode estar munida: De exceção, ela transitou e tornou-se excepcional.

Fernanda Lima apresenta Bárbara durante o programa 'Amor & Sexo'


NLUCON: A primeira vez que vi algo sobre você foi há 8 anos, em um documentário exibido pelo Festival Mix Brasil. Você dizia que as transexuais viviam como vampiros, haja vista que se escondiam durante o dia e apareciam apenas pela noite. Essa é uma realidade que ainda existe? 

Naquela época, a situação era bem diferente e era complicado para as travestis e transexuais simplesmente andarem nas ruas. A maioria, como você disse, não saía de dia e só saía de casa a noite, por isso fiz essa analogia. Hoje, eu acho que ainda é latente essa questão, mas o número de travestis e transexuais que levam vida social durante o dia tem aumentado significativamente. Eu, graças a Deus, nunca vivi como vampira.

- A maioria das travestis e transexuais percebe que se identifica com o gênero feminino logo na infância. Quais foram as suas primeiras referências?

Minha família diz que quando eu tinha 3 anos já dava a entender que eu era diferente, pois sempre me identifiquei com o universo feminino. Roupas, sapatos, brinquedos e brincadeiras... Minha infância foi difícil e complicada, já que, como me confundiam como menina, meu pai me batia e raspava a minha cabeça. Aos 5 anos, levei a minha primeira grande surra e fugi de casa. Desde então, vivi mais na rua do que em casa até os 12 anos. Dos 5 aos 12 anos, se juntar todas as vezes e dias que fiquei em casa, dá no máximo 1 ano. Sempre passava pelo SOS Criança, como menor carente, abandonado ou ficava nas ruas mesmo, exceto quando alguém se compadecia da minha situação e me levava para casa. Tenho vida sexual ativa desde os 6 anos, então não sei bem até onde isso pode ser considerado infância.

- Quando foi a primeira vez que você vestiu uma roupa feminina? O que sentiu?

Depende do que se considera vestir roupa feminina... Com 4 anos, eu já calçava os sapatos da minha mãe, usava camiseta como saia, fazia top e transformava cobertor em vestido frente única. Com 10 usei uma saia de tricô, rosa, pra sair na rua e transformei uma camiseta em top. Naquele dia, me senti feliz e realizada!

- Como foi o processo de autodescoberta e o momento de assumir-se trans aos 18 anos?

Foi um processo solitário e autodidata. É triste você não se entender e não saber quem você é, porque ninguém te explica, nem apoia. Chegou o momento em que eu não aguentava mais me olhar no espelho como menino, vestir roupas de menino e decidi assumir a mulher que sou. Meus tios pararam de falar comigo e pediram pra minha mãe me avisar que não era para eu aparecer na casa deles, pois eles seriam a chacota da rua. Meus irmãos se afastaram, meu pai parou de falar comigo definitivamente. Só minha mãe tentou me entender. Virei a vergonha da família.

As modelos Carol Marra e Felipa Tavares e a produtora Bárbara Aires

-  De acordo com algumas ONGs, a maioria das travestis trabalha com programas sexuais. O fator principal é a financeira, falta de oportunidade?  Ou existe algum momento de glória, satisfação ou comodismo na prostituição?

Temos de entender primeiro que existe quem gosta de se prostituir. E devemos entender que não há problema algum nisso: a sociedade precisa parar de demonizar a prostituição. O problema está em quando a prostituição é o único meio de se ganhar a vida, e não uma opção. E isso se deve a falta de oportunidade aliada à necessidade. A pessoa trans é expulsa de casa, o ambiente escolar é discriminatório e a pessoa acaba deixando os estudos e quando se vê sozinha precisando comer, vestir e morar, vai para o único lugar onde nunca escuta “não”, a rua.

- E existe momento de glória?

Para quem gosta do mercado do sexo, sim, existe esse momento de glória. Se ver em sites, filmes e sendo comentada e elogiada em fóruns, gera isso. Mas, pra quem não gosta, é uma tortura, é tudo muito angustiante. Você tem de interpretar quase o tempo todo. E se você está na situação que descrevi e percebe que a sociedade te empurra e acha que seu lugar é só ali na rua e nos filmes, acaba se acomodando, sim.

- Tudo bem falar sobre as suas experiências durante a imersão nos programas?

Sim, sem problemas. Fiz, faço, faz parte da minha vida e nunca negarei. Devo o pouco que tenho e consegui a esse mercado, nunca negarei. Até porque, enquanto nós não mostrarmos a nossa realidade, a sociedade vai achar que somos felizes e está tudo bem assim. Sou contra essas aparições apenas para dizer que é bonita e rica, feliz e sem problema algum. Passa uma imagem de glamour e vida boa que não é bacana e não é real. Não somos coitadinhas, óbvio, mas ainda hoje as pessoas acham que somos prostitutas somente por opção e que todas gostamos disso. Não é assim. Na prostituição, o momento de tristeza foi meu primeiro programa, na rua. E quando perdi algumas amigas. Momento de alegria é sempre quando encontro um cara bacana, ativo, e que me entende enquanto mulher que sou, é um alívio!

- Você é contra a prostituição?

Não, não sou contra. Chamam de vida fácil (risos). Ledo engano... Precisa ter muito dom e talento para ser uma boa profissional do sexo. A pessoa tem o direito sobre o próprio corpo e de exercer a profissão que bem entender, gostar e tiver talento para tal. Sou contra a prostituição ser a única opção de alguém por causa de discriminação e preconceito da sociedade. É óbvio que também sou contra a exploração da prostituição.

- Lembro que você anunciou certa vez que estava vendendo os seus filmes, pois queria se desfazer. Como foi protagonizar os longas?

Na realidade, não me desfiz. Tenho até hoje as produções que achei em dvd. O que eu fiz foi anunciar a venda de cópias para tentar uma renda extra. Foi bom (fazer os longas), essa parte eu gostava, tirando os filmes em que fui ativa, com mulheres e trans. Quando era só passiva, pegava um ator bonito, gostoso, gostava né! Não me arrependo. Muitos desses filmes pagaram minhas contas e alimentação do mês.

'Não me arrependo dos filmes eróticos. Muitos desses filmes pagaram as minhas contas'

- Quando ocorreu o start de que você queria mudar de vida?

No começo, eu até achei que poderia gostar e ser a profissão da minha vida. Mas, em 2006, me peguei em estafa física, emocional e psíquica. Foi quando conheci a ASTRA-RJ, participei do projeto DAMAS e desde então busquei outras alternativas. Sim, trabalhei, ou tentei, como cabeleireira. Como disse, nunca vivi como vampira.

- Hoje, você trabalha na produção do programa “Amor & Sexo” e é uma das novidades desta nova edição. Como surgiu o convite para trabalhar no programa?

Trabalho lá desde dezembro de 2011, ou seja, desde a quinta temporada. O que ocorreu é que agora virou notícia. Eu sou uma novidade na Rede Globo de televisão. Ouvi isso na minha contratação, inclusive. O convite veio após uma participação minha na plateia para falar sobre trans. Nunca tive receio, pois sei da minha capacidade e competência enquanto profissional. Sabia que podia exercer aquele trabalho com maestria e me sair bem, tanto que fui renovada várias vezes e mantida como funcionária da equipe.

- Você é a única transexual na emissora?

Transexual, não operada, sem retificação de registro civil com identidade de gênero respeitada e reconhecida, sim, sou a única. Agora, se tem alguma operada e legalmente já mulher, não sabemos. Travestis, eu já vi algumas lá, mas com crachá e vestimenta masculinos. Me sinto normal, uma trabalhadora comum, uma cidadã. Minha rotina é deliciosa, pois não há rotina. Cada dia estou em um lugar, conhecendo pessoas diferentes e aprendendo muito. O convívio com a equipe, que é com quem tenho mais proximidade, é ótimo, não há o que dizer, simplesmente agradecer. Não só respeitam, como alguns esquecem... Algumas colegas já vieram perguntar de menstruação, TPM e outras coisas relacionadas a mulheres. Já equipe técnica, maioria masculina, e outras equipes de produção, tenho pouco contato. Mas sempre tem aquele que te olha torto, feio, não te cumprimenta... Normal, fazer o que? As pessoas ainda não estão preparadas para conviver com uma transexual.

- E arrisca alguma solução? 

Precisamos de uma política educacional que prepare a população para entender, conviver e respeitar as diferenças. E que ensine a avaliar as pessoas pelo caráter, capacidade profissional e tudo mais que realmente interessa enquanto pessoa e profissional e não por aparência e sexualidade

- O que as demais transexuais falam para você sobre esse trabalho?
A maioria não toca no assunto. As que falam, parabenizam, só.

Bárbara e artistas

- Em uma das suas presenças no programa, você disse que ganhava 1/5 do que ganhava nas ruas. O que dizer para as meninas (e as demais pessoas) que interpretaram que financeiramente é melhor continuar na prostituição?

Isso é por pouco tempo. Enquanto você está bonita, nova e é novidade, você ganha. Mas, quanto mais o tempo passa, menos você ganha. E ai está o perigo. Já em uma carreira formal, é o contrário. Você começa ganhando pouco, mas vai crescendo e cada vez ganhando mais. Além de vir junto com isso o respeito e admiração quando se é um bom profissional e se destaca. Além de toda preparação para o futuro que um emprego formal proporciona, e a prostituição não. São poucas que tem sorte e cabeça de ganhar bem e preparar o futuro na prostituição.

- Para você é importante estar dentro do mercado formal de trabalho? Por qual motivo?

De suma importância, não tem preço! Não há o que pague! Você se sente bem, respeitada, pois tem um ofício e é considerada uma cidadã de direito por estar exercendo um direito básico de cidadania, o trabalho formal! 

- Após o programa terminar, quais são os seus projetos e expectativas?

Minhas expectativas são de continuar na casa em outro programa até o início da sétima temporada de Amor & Sexo. Hoje, espero apenas não ter que voltar para rua, pois seria muito triste e doloroso para mim. Estou ensaiando uma peça, paralelo ao trabalho comecei estudar teatro, fui convidada para um documentário sobre trans e para atuar em um filme. E tem o documentário sobre minha redesignação sexual. Mas, tirando a peça, estamos em conversas iniciais ainda.

Bárbara Aires na última gravação de 'Amor & Sexo'. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

10 comentários:

Danielle Marques disse...

Muito boa entrevista, parabéns precisamos falar,ler e informar sobre as transexuais. Um bjaun

Joao Pedro disse...

Parabéns pela viagem e determinação. Que sirva de licao para a sociedade. Bjs

Fabiano disse...

Bela entevista. Ficou 10
Elucidativa e inspiradora. Perguntas inteligentes deram a oportunidade para Bárbara contar uma história de vida de alguem com alta capacidade de resiliencia e determinação, tocando em temas com transexualidade e mercado do sexo, que já não cabem serem tratados na obscuridade da sociedade. Desejo a Bárbara FÉ e FORÇA nela própria para continuar na sua BUSCA.

Ferdinando disse...

Infelizmente ela falou demais e a Globo não renovou com ela. Tinha que aprender que em boca fechada não entra mosca. Querer usar o argumento que ganhava mais na rua para tirar alguma vantagem foi uma falha dela que com certeza a Globo não irá perdoar. Tinha que ficar calada fazer o dela e esperar. Agora aposto que ela nunca mais vai ser chamada para nada. Jogou uma chance de ouro fora.

Bárbara Aires disse...

Eu não falei que ganhava mais para tirar vantagem nenhuma. Eu respondi uma pergunta a qual me foi feita, e não poderia mentir. Eu entrei na globo ganhando 1000 reais e naquele momento não havia tido aumento ainda, ia mentir que não ganhava mais como prostituta? E não fui renovada simplesmente porque a temporada do programa acabou e a próxima vai demorar, mas ná próxima eu sou certa, mas deixemos pra falar disso quando a sétima temporada do Amor e Sexo for estreiar. Obrigada pelo seu carinho e votos de felicidade e crescimento.

Lorena disse...

Barbara,......meus PARABÉNS!!!

Carmem Maura disse...

Adorei tua história, vou torcer para que tenha muito sucesso !

Liss Lovelace disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Liss Lovelace disse...

Um dia a Globo irá lamber os meus pés... Bárbara, estou contigo!

Anônimo disse...

Bela como uma valquíria.

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