Pitacos

Claudia Wonder: dois anos de saudade!

Algumas pessoas estão tão ligadas à gente que, mesmo após suas mortes, exercem muita influência em nossas vidas. Hoje, dia 26 de novembro, faz exatos 2 anos que minha amiga Claudia Wonder virou estrela de verdade, foi brilhar lá no céu. E, sem me dar conta, passei um dia inteiro “borocochô”, acamado, sem ir até ao trabalho. 

A coincidência foi tão grande que, como se ela enviasse uma mensagem ou tivesse deixado antes de partir, deparei-me com um antigo depoimento de Claudia no Orkut – quando procurava uma antiga foto para a entrevista com Sabrina Boing Boing que eu republiquei ontem, dia 25 de novembro. A mensagem foi escrita no dia 20 de agosto de 2009 e dizia:

“kd vc pergunto eu!!! pensei que tinha ido para juiz de fora, mas foi em mim que vc deu o fora!!! ...snif...vc sumiu...snif...não me procuras...snif...fico sozinha pensando se me amas ou apenas me seduz...snif....não suporto mais essa vida de amargura...snif...NOSSA CHEREI TUDO!!! KKKKKKKKKKK. ESTOU A SUA ESPERA, MEU ANJO, MORRENDO DE SAUDADES! BEIJINHOS MIL E ESPERO TE VER AMANHÃ!!! :)”.

Após saber que completaria 2 anos a data de sua partida (através de uma foto publicada pelo amigo Edu Moraes), meu coração se entristeceu, murchou, pois sabe que jamais poderá dar novamente um forte abraço, ter momentos de cultura e confidencias. Mas se confortou pela bela amizade que conseguimos nutrir, pela admiração que trocamos, pelo carinho e carências divididas. Sei que Claudia me ofereceu uma amizade que jamais terei - como uma "plantinha" rara. Sei que ela continua torcendo por mim e que, em alguns sinais, mostra que continua brilhando em minha vida.

Abaixo, segue um artigo de março de 2007 em que ela menciona o meu nome. E que eu só fui ler recentemente. Claudia, sempre wonder. 

VISIBILIDADE COM DIGNIDADE
A sociedade precisa se sensibilizar para um convívio com a diversidade

Por Claudia Wonder (edição 114 – capa Bira e Caio)

O começo deste ano foi marcado pelo segundo Dia da Visibilidade Trans. Fico feliz com esse tipo de evento, porque mostra que no Brasil as pessoas trans estão se articulando cada vez mais em busca da dignidade. Apenas não concordo com o termo “visibilidade”. Tendo em vista que o segmento trans é o mais visível entre os GLBT, essa palavra soa-me redundante.

Na minha modesta opinião, o mais apropriado seria “dignidade”. Esse é um dia apenas para a afirmação do segmento trans, porque infelizmente no Brasil ainda não temos nada para comemorar. Nem em conquistas nem em visibilidade.

O que vemos a respeito do segmento trans é a injustiça com que a sociedade o trata. Renegando sua maioria ao mais baixo grau de marginalização.A televisão, que é a “janela” do país, só nos mostra em programa de debates nos quais dificilmente você vê em pauta outro assunto que não seja a prostituição, a pornografia, rixas entre travestis ou qualquer outro tema que beire a baixaria.

Com o intuito de mostrar uma realidade diferente, e com isso desmistificar a imagem que fazem de nós, meu amigo e militante da causa trans, Neto Lucon, propôs ao mais conhecido desses programas uma pauta com travestis bem sucedidos que trabalham em áreas profissionais fora do circuito que estamos acostumados a ver, como cabeleireira, costureira, artista, prostituta. A respeita da produção foi enfática: “No momento não estamos interessados!”. Isso prova que em termos de visibilidade ainda temos muito que fazer para atingir a dignidade.

Em termos de conquistas também não temos nada para celebrar. Acredito que as medidas políticas que estamos pleiteando estão aquém das nossas necessidades mais urgentes. A alteração de nome na carteira de identidade é um exemplo. Claro que é um grande constrangimento ter uma figura feminina com um nome masculino nos documentos. Mas creio que antes de ter nossos nomes alterados no RG, deveríamos ter nossa identidade de gênero reconhecida juridicamente.

Assim como nas ilhas de Sulawesi ou do Taiti, onde a pessoa trans é reconhecida e respeita como um terceiro gênero. Lá, o que determina a identidade sexual de uma pessoa não é o que ela tem no meio das pernas, e sim o sexo com que ela se identifica. Mas nossa cultura pode mudar e espero que o projeto de lei seja aprovado e, quem sabe, uma coisa leve à outra.

Acredito que existem mudanças mais urgentes a fazer. Como a sensibilização da sociedade a nossa respeito para um convívio com menos preconceito. A implantação de treinamento obrigatório dos professores, tanto das escolas públicas quanto das escolas privadas, visando a um maior entendimento e tolerância com a diferença. Criar dinâmicas junto às trans profissionais do sexo, focando no fortalecimento de sua auto-estima e mostrar a elas, a exemplo de tantas outras, que é possível viver fora da prostituição. E, para isso, criar mecanismos e cursos que possibilitem perspectiva de futuro profissional.

Acho que tudo isso seria mais oportuno. Conheço pessoas inteligentes e sensíveis que estão injustamente à mercê dos homofóbicos, das cafetinas e da polícia. As lideranças deveriam se movimentar a esse respeito para acabar com essa vida de horror e escravidão. Depois, quem sabe, o dia da visibilidade será o dia da dignidade trans. E então teremos motivos para comemorar! Beijo a tod@s!


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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