Entrevista

Drag ícone, Kaká Dipolly diz: "Seremos extintas como os dinossauros"

Por Neto Lucon (Virgula)

São 32 anos de carreira, 82 perucas, incontáveis figurinos e 24 maridos. A drag paulistana Kaká Dipolly, de 53 anos, é uma das figuras mais respeitadas do cenário LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros). E responsável por várias façanhas.

Inspirada na drag Divine [artista americana, ícone do cinema underground dos anos 70], Kaká tornou-se conhecida no mundo da moda e também por fazer andar a primeira Parada do Orgulho Gay – ela diz que deitou na rua, impediu que os policiais invadissem o espaço e ajudou que os gays caminhassem.

No Dia Internacional das Drags, entrevistei essa grande diva da comunidade LGBT, que acredita que as drags realmente conquistaram respeito, principalmente no universo hétero - mas podem a qualquer momento entrar em extinção. Entenda o motivo:

Hoje é o Dia Internacional das Drags. O que há para se comemorar?

Kaká Dipolly - Muitas coisas. Temos que comemorar principalmente o espaço de respeito que conquistamos dentro do mundo hétero. A gay montada [que se produz muito em roupas e acessórios], que era mal visto anteriormente, começou a ser respeitada com a figura da drag, a ser bem recebido. Hoje, temos drags que fazem telegramas animados, estão em casamentos, festas infantis, todos os tipos de comemorações. Isso faz com que a imagem do gay e da travesti tenha um pouco mais de valor.

Você tem 32 anos de carreira. Mudou muita coisa de lá para cá?

Ah, claro. Antes, nós todas nos reuníamos nos eventos, nos homenageávamos, era uma festa... Atualmente, as drags se montam apenas para trabalhar. Vão à boate e voltam para casa. Digo: As borboletas pararam de voar. Elas não voam mais em bando. Elas voam sozinhas. É triste.

Da sua experiência, qual foi o momento mais curioso que viveu?

Foi logo no primeiro dia que me montei, aos 18 anos. Fui em uma festa da Viúva Negra, do Sérgio Calil, e peguei uma peruca de velório da minha mãe – ela usava três perucas, uma para casamento, outra para o dia a dia e outra para velórios. Peguei também um lenço de crochê, um vestido preto, um livrinho e fui. Ao descer na rua da festa, vi um padre fechando a igreja. Abaixei a cabeça, com medo de ser excomungada, coloquei o terço no peito e escondi um pouco do meu rosto. Achei que seria ofendida, mas o padre me disse: “Minha filha, não chore, ele está com Deus. Em nome do pai...”. Pensei: Meu Deus do céu, eu enganei um padre [risos].
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Todo mundo te vê animada nos lugares e tem uma imagem superpositiva das drags. Em qual momento você está triste?  

Já chorei muito. Principalmente por causa de homem. Tive 24 maridos e três grandes amores. A vida de uma drag é complicada porque o homem que gosta da figura feminina geralmente não gosta da figura masculina, e vice-versa. Mas os três grandes amores que eu tive,  apaixonaram-se tanto por um quanto por outro, só que... Atualmente eles estão na Itália, e são travestis. Sim, eles se montaram a primeira vez comigo e não pararam mais. Teve um último que até roubou a minha peruca e depositou o dinheiro na minha conta. Sofri muito.

O fenômeno drag teve seu auge nos anos 90. Acha que ele está defasado atualmente?

Eu já cantava essa bola antes: Vão entrar em extinção. Vamos ser extintas como os dinossauros foram. Hoje, não temos mais drags em baladas gays, não é mais tão comum como antigamente. Se não fossem as casas do interior, que contratam drags de São Paulo, a situação seria pior. Hoje ainda existe muita drag, mas a qualidade está inferior. Outro dia, fui a um evento e vi uma drag de chinelo. Penso que as boas vão sobreviver, assim como a Márcia Pantera está aí até hoje, mas até quando Deus quiser.
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Momentos com Laura Vison e Marília Gabriela
Explica melhor... 

Quando uma drag novinha se oferece para cantar, dublar, fazer um show por uma bebida, por R$30, de graça, ela não percebe que está desvalorizando o cachê de outra, o ganha pão de quem sobrevive disso. Então, o dono da casa pensa: Se posso contratar uma por tão pouco porque vou pagar R$1.000 para outra?

Nany People e Léo Áquilla foram conhecidos inicialmente como drag, mas colocaram próteses de silicone e atualmente são transexuais. Nunca pensou tem ter seios de verdade?

Meu grande desejo era colocar peitos, peitos grandes, mas não concretizei. Sabia que deixaria de ser drag para ser travesti. Não fiz por conta da minha família, apesar de ela ser ótima e me respeitar. Também não coloquei porque durmo com a barriga para baixo e certamente iria me incomodar. Se for colocar, quero mais de mil litros, pois tenho espaço e pele para isso.

Para finalizar, o que não pode faltar na vida de uma drag?
Strass, muito strass. Eu não consigo viver sem [risos].  

Entrevista foi home do Uol
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Kaká e Neto

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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