Entrevista

Repaginada, Vanusa afirma ser nova mulher: 'Agora consigo rir de mim mesma'

 

"Entendi que bastaria mudar para o mundo começar a mudar”, afirma Vanusa (65), sete meses após passar por uma clínica de reabilitação, superar a depressão e os casos de esquecimento de letras. Repaginava por dentro e por fora, a diva da jovem guarda retomou os palcos (depois de um ano) e afirma se sentir uma nova mulher.
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Mais calma com a vida e bem humorada quanto aos episódios passados – dramáticos, como ela costuma dizer - Vanusa recebeu a CARAS Online em seu apartamento, no centro de São Paulo, onde mora ao lado de dois cachorrinhos. E falou sobre a atual fase, a carreira de 45 anos e a parceira com Zeca Baleiro (46).
De acordo com ela, o mais recente comercial de cartão de créditos que satiriza o episódio em que esqueceu a letra do Hino Nacional é a prova de que está em excelente fase. Não seria diferente: ela  embolsou R$170 mil com a façanha.“Consegui mudar o foco e superei. A propaganda foi a minha redenção”, declarou a cantora.
Leia a entrevista :
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(Foto: Marco Pinto, CARAS)
- Você enfrentou um difícil período de depressão e anunciou até a aposentadoria. De qual maneira o tratamento na clínica de reabilitação ajudou você a retomar as rédeas da sua vida?
Esse período de cinco meses foi um encontro comigo mesma. Por livre e espontânea vontade, parei tudo para dar uma repensada na minha vida. Tenho 44 anos de carreira e entendi que nunca parei para fazer coisas para mim: viajar, passear, me curtir. Era só trabalho, trabalho e remédios. Chega uma hora em que você se doa tanto, que esvazia. Não tinha vontade de cantar, de fazer show, de ver as pessoas e, ao mesmo tempo, sofria por achar que eu deveria querer.  A melhor coisa foi dar essa pausa. Agora, estou com um novo olhar para a minha vida e um novo olhar para a minha carreira.
- Quais são as transformações que você sente agora, depois da reabilitação? Como está a Vanusa?
Sinceramente, sou uma mulher repaginada por dentro e por fora. Tornei-me uma pessoa mais madura, mais equilibrada, mais calma e feliz comigo e com a vida. Antes eu era uma pessoa que respondia tudo na hora, mas hoje eu penso, faço uma reavaliação, só depois eu respondo. Às vezes, nem respondo. A Vanusa de hoje quer ter mais tempo para os amigos, para a família, para os cachorros, para cantar e para pintar os seus quadros. 
- Repaginada, você surpreendeu muita gente ao brincar em uma propaganda de TV sobre o episódio do Hino Nacional, em que esqueceu a letra. Esse é um caso superado totalmente?
Fazer parte dessa propaganda foi uma superação, pois esse incidente foi uma das coisas mais trágicas da minha vida. Eu sou meio trágica, né? Foi um sofrimento muito grande e a gota d’água para me internar. Antes, se eu ligasse a TV e estivesse tocando o Hino eu desligava automaticamente. Hoje, posso dar risada disso tudo. Nem acho que consiga fazer aquilo lá de novo (risos).
- Até porque muita gente nem sabe cantar o hino completo, né?
O Pânico (na Band) foi gravar esses dias comigo e eu fiz esse desafio. Nenhum deles cantou até o final (risos). Mas, no meu caso, foi um incidente de percurso, em um momento em que eu estava doente e me deu uma crise de labirintite, de nervoso, de ansiedade, de achar que eu não ia conseguir cantar, o que de fato aconteceu. O que me pegou mesmo é que houve muitas chacotas e eu fiquei desiludida. Minha vida sempre foi direitinha, bonitinha, daí eu cometo um erro e me torno a chacota do mundo? Doeu muito, bateu fundo. Hoje vejo o lado bom disso.
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                 Comercial do Visa com Vanusa
- E qual é o lado positivo que tirou deste e dos demais episódios?
Fui a um evento da Disney e uma menininha de 3 anos me puxou e falou: “Você é a moça da propaganda? Eu sou sua fã, tira uma foto comigo?” Está vendo? É outro público que está me conhecendo, falando de mim e procurando outras coisas. Foi um problema? Foi um problema muito sério e eu estou aqui de peito aberto: errei, não sou perfeita. Mas, gente, todo mundo erra, vários artistas já erraram. É que o meu erro foi televisado. Posso dizer: superei e essa propaganda foi a redenção. Consegui mudar o foco e rir de mim mesma.
- Na época da depressão, você disse que pensava que Deus tinha te abandonado. Agora, está mais apegada à vida espiritual?
Foi um despertar para este sentido. Realmente, eu achava que as pessoas tinham me abandonado, que Deus tinha me abandonado. Mas descobri que Deus não abandona a gente. É a gente que não presta a atenção nos sinais que Ele nos manda. Esses sinais são importantíssimos para guiarmos a nossa vida. Eu senti a presença de Deus na clínica e agradecia todos os dias por estar viva. Voltei com a minha fé a milhão. E a resposta está aí: Deus continua sendo muito generoso comigo. Estou voltando e as pessoas estão novamente me procurando. Estou muito feliz e grata.
- Dentro da clínica, deparou-se com uma nova Vanusa que não sabia que existia? Como foi enfrentar os seus medos?
(Se emociona). Eu descobri que dentro de mim existia uma Vanusa muito tímida. Eu me boicotava muito e não acreditava em mim. Hoje, sei exatamente o meu valor. Eu me amo muito, gosto muito de mim e me cuido. Quando passei a me entender melhor, o universo começou a conspirar ao meu favor. Como estou mais positiva, amando as coisas e as pessoas, o universo tem me ajudado. 
- Depois de um ano afastada, você voltou a fazer shows em novembro. Essa volta certamente significa muito para você...
Nossa, é a coroação do meu dever de casa. Eu aprendi o dever de casa, o que fazer para continuar. Como eu estava muito depressiva, fui meio deixando de lado o trabalho, de ensaiar, de fazer novos projetos. E tenho total consciência de que sempre criei os meus projetos, sempre batalhei e esta é a minha vida. Graças a Deus, a voz continua impecável. Nunca parei de fazer os exercícios de voz e acordo todos os dias pela manhã antes de falar com alguém ao telefone.
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Vanusa em seu apartamento, no Centro de São Paulo
- Dentre as suas novidades, está uma parceria com o Zeca Baleiro. Como se deu essa amizade?
Ele dirigiu um show que eu no SESC em 2010 e eu fiquei encantada com talento e profissionalismo dele. Durante a minha internação, o Zeca sempre telefonava e dizia: ‘Quando você sair, se quiser, a gente faz um disco’. Nossa, estou até agora maravilhada e encantada com esse projeto para 2013. Quero fazer com muita calma, com muita tranquilidade. Mesmo assim, já fizemos algumas reuniões e temos músicas inéditas do Zé Ramalho, do Zé Geraldo. Nossa, quanto Zé na minha vida, né? (risos). E também do Lenine. Acho que dou sorte para os compositores, pois fui a primeira artista a cantar uma música do Zé Ramalho e do Belchior. E, claro, recebo muita sorte na minha carreira por essas grandiosas parcerias.
- Você também vem compondo para este trabalho?
O Zeca escolheu três músicas que eu compus, mas que deixei engavetada.  Não gravei antes porque, quando chegou a era do CD, a minha gravadora começou a lançar coletâneas dos meus trabalhos em 24 LPs. Não gravei também porque não tinha vontade de gravar e achava que o mercado não estava legal. Agora, eu não me incomodo com isso. Estou com vontade de fazer esse disco e até de gravar o meu primeiro DVD.
- São 45 anos de carreira. Quando pensa nesse número, quais imagens aparecem na sua mente?
Muita coisa linda. Embora eu tenha 64 anos, parece que eu tenho 45 anos de idade. Parece que a minha vida começou exatamente quando comecei a minha carreira, porque amo a minha trajetória, tenho paixão, nasci para cantar. Eu sinto que consegui ser feliz com o meu dom, pois muita gente descobre muito tarde ou nunca atua. Desde pequena eu tinha essa meta: ‘Sei que vou ser famosa, sei que vou ser alguém’. Nem sabia se seria cantora, bailarina, nada. De repente aconteceu. No começo, meus pais e amigas davam risada, mas depois foram vendo que a coisa era séria. Meu pai deu a maior força e deixou Minas Gerais para investir na minha carreira em São Paulo.
- Sente saudades do passado? Gostaria de reviver algum momento?
Gostaria de reviver a época dos meus filhos pequenos, bem criancinhas. Tive pouco tempo com eles, não os vi crescer. Queria ver a Amanda, a Aretha e o Rafael bem pequenininhos, isso dá saudade, aperta. Já na minha carreira, gostaria de estar novamente no Festival da Coréia, onde ganhei o 3º lugar cantando música em português. Foi um momento mágico na minha vida.
- Hoje, está mais próxima dos seus filhos?
O Rafael morava aqui, antes de eu ir para a clínica. Agora, ele está em Goiânia, mas a gente se fala muito por telefone e ele passa em casa duas ou três vezes por mês. A Amanda mora em Itanhaém e sempre faz aquele bate-volta. A Aretha está correndo atrás do trabalho dela. Mas sabe o que eu descobri? É preciso mudar para que o mundo a sua volta também mude. É só você se cuidar, mudar, melhorar, que as pessoas notam e começam a mudar com você. Você exala essa felicidade e todos mudam.
- Cultivou amizades com outros artistas?
Nunca recebi artistas como visitas em minha casa. Meus amigos sempre foram fora do ambiente artístico. Agora, de repente, veio o Zeca Baleiro na minha casa. Eu estava nervosíssima, ansiosa, mas foi maravilhoso. Ele ficou quatro horas e a gente conversou, ouviu música, foi uma coisa muito boa e que eu quero dar continuidade. É algo que eu vi que definitivamente preciso. A Martinha é uma grande amiga e faz muito tempo que eu não vou vê-la. Tenho que dar mais abertura, pois amigos são sempre bem vindos.
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- Qual é o seu sonho atualmente?
Tenho sonho de passar uma lua de mel em Bora Bora (risos). Ai, seria maravilhoso.
- Lua de mel? Você teve oito casamentos, pensa no nono casório?
Minha vida está ótima do jeito que está. Então, se vier um amor, que venha uma coisa muito boa. Não vou permitir que alguém a estrague. Não estou procurando e já não procurava ninguém. Se eu tiver outra alma gêmea, ela é que vai me encontrar. Minha alma gêmea foi o  Antonio Marcos, mas eu acredito que a gente possa ter uma outra alma gêmea (risos).
- Cantar, para você, é..
É  ser feliz, é amar, é doar-se. É, acima de tudo, viver.
- E, agora que voltou a cantar, pode dizer que você está vivendo melhor?
Muito melhor. Estou vivendo melhor, estou sendo uma pessoa melhor. Quero a partir de agora bons trabalhos, muita alegria, muita energia positiva e projetos. Estou mais calma, mais tranquila, mas a todo vapor! Não é um recomeço, é um começo.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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